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Capítulo 20 - Tomás

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Se alguém tivesse me dito que levar uma pancada de carro ia colocar minha vida nos eixos, eu provavelmente teria chamado essa pessoa de maluca. Mas aqui estou eu, deitado no sofá da casa da Stephanie, com a barriga tomando forma ao meu lado — quer dizer, a barriga dela, com nosso filho chutando como se estivesse treinando pra Copa —, e sentindo que, finalmente, tudo estava como deveria ser.

Depois do acidente, minha memória ficou meio embaralhada. Lembro de flashes: sirenes, dor aguda no peito, o cheiro metálico do sangue, a voz da Stephanie me chamando no meio do desespero. E então o hospital. Cirurgia. O bendito baço perfurado que quase me mandou desta pra melhor.

Mas o que realmente ficou gravado em mim foi o jeito como ela ficou ao meu lado. Todos os dias. Todas as noites.

Stephanie não saiu do hospital nem por um segundo. Ela dormiu do meu lado sentada em cadeira dura, comeu barrinha de cereal que o Caio levava no bolso, me dava banho com paninhos úmidos e reclamava do jaleco feio dos médicos. E mesmo assim, todos os dias, ela estava linda. E mal-humorada. E amorosa. E minha.

Depois que me deram alta, voltei pra casa dela porque, segundo ela mesma disse, “não vou arriscar você cair da escada tentando bancar o macho independente.” Topei de bom grado. A verdade é que eu queria mesmo era ficar sob os cuidados daquela mulher que me xingava se eu tentasse levantar sem avisar, mas chorava escondido quando eu conseguia caminhar da sala até a cozinha sem apoio.

E aí veio o assunto do casamento.

— Eu quero casar antes do bebê nascer — ela anunciou, com a mesma firmeza de quem pede pizza marguerita sem azeitona.

— Steph, eu ainda tô com pontos no abdômen.

— Exato. Melhor casar antes que você resolva fazer qualquer esforço e abra a barriga no meio do altar.

— Isso não é um argumento muito encorajador.

Mas como dizer não pra uma mulher grávida, decidida e apaixonada?

Não dá.

Em dois meses, ela organizou tudo. Com ajuda da Clarice e da dona Edna — que honestamente era mais produtiva que dez organizadoras de casamento juntas —, minha vida virou um festival de fitas, flores, bolos de degustação (que eu era proibido de comer por causa da dieta pós-cirúrgica), e provas de roupa.

Stephanie queria casar na praia. Com vestido de noiva branco. Véu, marcha nupcial, lágrimas nos olhos e tudo o que ela sempre sonhou. E eu? Eu só queria vê-la entrando pela nave, com aquela barriga enorme e um sorriso maior ainda.

Ela dizia que queria casar antes que os tornozelos inchassem demais pra caber nos sapatos. Eu sabia que era mais que isso. Ela queria garantir, mais do que nunca, que éramos uma família. Antes da chegada do nosso filho. Antes do caos e das fraldas e das madrugadas sem dormir. Ela queria viver aquele momento só nosso, antes que a vida virasse uma bagunça deliciosa com cheiro de leite.

E a verdade? Eu também queria.

Queria ver aquela mulher dizendo sim pra mim com a voz embargada e os olhos cheios de promessa. Queria selar aquele amor que já era nosso há tanto tempo, mesmo quando a gente ainda não tinha se tocado disso. Queria gritar pro mundo — e pro nosso filho — que aquela mulher era o lar de onde eu nunca mais queria sair.

Então cá estamos. A poucos dias do casamento. Stephanie ensaiando a entrada com a trilha sonora na cabeça. Dona Edna cozinhando pra 120 pessoas como se fosse só mais um domingo. Clarice controlando os hormônios da noiva e do Alec ao mesmo tempo. E eu?

Eu só conto os minutos.

Porque eu sobrevivi a um acidente, a um hospital, à reabilitação e às broncas da Stephanie. Agora só falta sobreviver à emoção de vê-la no altar.

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