Três meses. Noventa e dois dias, contando os feriados e finais de semana. E mesmo assim, ali estava eu, parada na calçada, encharcada de chuva como a personagem principal de um drama barato, olhando pela vitrine de um restaurante chique enquanto a vida seguia do lado de dentro.
E ele estava ali. Sentado, elegante como sempre. Tomás Santiago. Camisa azul clara, mangas dobradas no antebraço, rindo de algo que a mulher à sua frente disse. Ela era linda. Tipo, estonteante. Uma mulher negra de pele brilhante, sorriso encantador e olhos que pareciam saber exatamente o que estavam fazendo ali. E mais do que isso: ele estava confortável. Íntimo. Inclinado na direção dela, sorrindo de verdade. Aquele sorriso que ele só dava quando esquecia do mundo.
Eu quase infartei. Sério. Meu coração parou, desceu pro estômago e voltou com o triplo do peso. Mas não entrei. Não faria aquilo com ele. Não era assim que eu queria contar que estava grávida. Que, contra todas as estatísticas médicas e depois de anos achando que meu corpo era um lugar vazio, eu estava esperando um filho. Dele.
Um milagre. Era só isso que podia chamar. Os quatro por cento. As chances mínimas. E aconteceu quando eu menos esperava, quando menos merecia.
Desde Paraty, ele fez de tudo pra não me ver. Viajou a trabalho, adiou reuniões, deixou claro que eu não fazia mais parte da vida dele. Visitava a Alice só quando tinha certeza de que eu não estava por perto. Ignorava minhas mensagens, minhas ligações. Me evitava como se eu fosse um fantasma. Eu fui barrada de tudo. Inclusive da vida dele.
Caio queria contar. Queria bater na porta do escritório de Tomás e despejar a verdade na cara dele, mas eu implorei pra que não fizesse isso. Eu precisava contar. Eu. Com as palavras certas. No momento certo. Clarice, no auge dos seus oito meses, me apoiava como podia, mesmo me chamando de maluca por guardar segredo. Meus pais choraram quando souberam. Compraram macacões, brinquedinhos e apelidos idiotas antes mesmo de sabermos o sexo. Todo mundo estava feliz.
Menos ele. O único que ainda não sabia.
Não era por falta de tentativa. Eu quase consegui uma vez, na rua, quando o vi saindo do escritório dele. Mas ele me viu primeiro. E desviou. Mudou de calçada como se eu fosse um erro ambulante. Eu congelei. Não consegui chamar, correr, implorar. Fiquei parada, me sentindo patética, vendo o amor da minha vida me evitar como quem evita um buraco no meio-fio.
E agora ele estava ali, feliz. Rindo com outra. Com uma mulher que claramente não o feriu, não o confundiu, não o destruiu como eu fiz.
A chuva apertou, escorrendo pela minha testa, se misturando às lágrimas que eu nem percebi que já estavam caindo. Segurei a barriga, já levemente saliente, e sussurrei como se meu filho pudesse me ouvir:
- Um dia... um dia a gente conta pra ele.
Mas não seria hoje. Não com aquele sorriso.
Hoje, eu só seria mais uma estranha do lado de fora do vidro.
Me afastei da vitrine como quem foge de uma explosão - só que, no meu caso, a explosão já tinha acontecido. Dentro de mim. Três vezes. A primeira quando vi Tomás rindo com aquela mulher. A segunda quando percebi que não tinha coragem de entrar. E a terceira... bom, essa estava explodindo agora, a cada passo torto que eu dava pela calçada molhada, indo sabe-se lá por quê na direção do apartamento dele.
Meus sapatos já estavam arruinados. O vestido grudava nas pernas, e eu devia estar parecendo uma versão deprimente de uma sereia de esgoto. Mas eu não conseguia voltar pra casa. As lágrimas vinham misturadas com a chuva, e só Deus sabia o que era água salgada e o que era São Pedro colaborando com meu drama pessoal.
Fui andando, barriga levemente pesada, como se meu corpo tentasse me lembrar que não estava mais sozinha - mesmo que, na prática, estivesse.
E aí, claro, como um presente do universo, a memória bateu: Matheus.
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DETALHES
RomanceStephanie Magalhães nunca soube lidar com sentimentos - especialmente os que envolvem amor, compromisso e pedidos de casamento em praias paradisíacas. Designer emocionalmente bagunçada, dramática por natureza e especialista em fugir de tudo que exij...
