Sábado. Um raro milagre no calendário. Nada de reuniões, prazos, processos, nem pessoas gritando "doutor" no corredor como se eu fosse capaz de salvar a humanidade com uma petição.
Vestido apenas com uma bermuda velha e uma camiseta desbotada da faculdade, eu arrumava meu apartamento ao som de uma playlist ridícula chamada "faxina sexy". Não julgue. Funcionava.
Entre dobrar uma toalha e reorganizar meu estoque de vinhos (que se resumia a três garrafas e uma esperança), me peguei rindo sozinho.
Stephanie Magalhães.
A mulher era uma tempestade em forma de gente. Altamente emocional, cheia de manias estranhas, falante demais, teimosa até a última célula... e ainda assim, tinha algo nela que fazia questão de me tirar do eixo — e eu gostava disso.
Gostava de implicar com ela.
Desde a adolescência, aliás. Não lembro exatamente quando começou, mas sei que nunca consegui ver a Stephanie e não provocar. Era mais forte do que eu. Um instinto quase primitivo.
Ela me tirava do sério. E me fazia rir.
O celular vibrou em cima da bancada. Thais.
Suspirei antes de atender.
— Fala, pestinha.
— Oi, Tom! — a voz animada da minha irmã de treze anos já me dava dor de cabeça. — Então... você vai sair hoje?
— Isso é uma armadilha?
— É que eu combinei de ir no shopping com a Manu e a Letícia. E o pai da Manu não vai poder levar. E a mãe da Letícia está de plantão. E a mãe da Manu disse que só deixava se um adulto levasse. E...
— Tá. Tá bom. Já entendi. — Revirei os olhos. — Que horas?
— Tipo... umas seis? Por favor, Tom! Eu lavo a louça o mês inteiro! Faço panqueca pra você!
— Panqueca do TikTok?
— Panqueca gourmet do TikTok!
— Tentador... — ironizei, indo até o sofá. — Tá, eu levo vocês. Mas só deixo e pego, hein? Não fico lá fazendo vigia de adolescente.
— Você é o melhor irmão do mundo!
— Eu sei. Agora me deixa em paz.
Desliguei e joguei o celular na bancada, pronto para continuar com a música patética da faxina, quando vi um brilho na lateral do sofá.
Me abaixei, curioso, e puxei o aparelho.
Capa rosa. Adesivo de sushi. Notificações pipocando com mensagens de grupo chamado "Trio parada dura". E a foto de perfil era... Stephanie de chapéu de caubói.
Sorri. Gargalhei, na verdade.
Ela tinha deixado o celular.
Pior que esquecer calcinha — e ela sabia disso.
Sentei no sofá, encarando o aparelho como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. Toquei na tela, e o desbloqueio por digital recusou. Mas desbloqueio facial? Ah, o destino queria brincadeira.
A câmera reconheceu meu rosto. Provavelmente porque, em algum momento bizarro, ela registrou isso pra usar em alguma palhaçada qualquer. Ah, Stephanie...
— Isso vai ser divertido — falei pra mim mesmo.
Abri a galeria. E era como entrar num portal paralelo da mente da Stephanie: selfies com mil filtros, print de conversas com legendas tipo "olha isso!", fotos de comidas, memes sobre TPM, uma montagem do Caio com uma peruca loira...
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RomansaStephanie Magalhães nunca soube lidar com sentimentos - especialmente os que envolvem amor, compromisso e pedidos de casamento em praias paradisíacas. Designer emocionalmente bagunçada, dramática por natureza e especialista em fugir de tudo que exij...
