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Capítulo 2 - Tomás

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Sábado. Um raro milagre no calendário. Nada de reuniões, prazos, processos, nem pessoas gritando "doutor" no corredor como se eu fosse capaz de salvar a humanidade com uma petição.

Vestido apenas com uma bermuda velha e uma camiseta desbotada da faculdade, eu arrumava meu apartamento ao som de uma playlist ridícula chamada "faxina sexy". Não julgue. Funcionava.

Entre dobrar uma toalha e reorganizar meu estoque de vinhos (que se resumia a três garrafas e uma esperança), me peguei rindo sozinho.

Stephanie Magalhães.

A mulher era uma tempestade em forma de gente. Altamente emocional, cheia de manias estranhas, falante demais, teimosa até a última célula... e ainda assim, tinha algo nela que fazia questão de me tirar do eixo — e eu gostava disso.

Gostava de implicar com ela.

Desde a adolescência, aliás. Não lembro exatamente quando começou, mas sei que nunca consegui ver a Stephanie e não provocar. Era mais forte do que eu. Um instinto quase primitivo.

Ela me tirava do sério. E me fazia rir.

O celular vibrou em cima da bancada. Thais.

Suspirei antes de atender.

— Fala, pestinha.

— Oi, Tom! — a voz animada da minha irmã de treze anos já me dava dor de cabeça. — Então... você vai sair hoje?

— Isso é uma armadilha?

— É que eu combinei de ir no shopping com a Manu e a Letícia. E o pai da Manu não vai poder levar. E a mãe da Letícia está de plantão. E a mãe da Manu disse que só deixava se um adulto levasse. E...

— Tá. Tá bom. Já entendi. — Revirei os olhos. — Que horas?

— Tipo... umas seis? Por favor, Tom! Eu lavo a louça o mês inteiro! Faço panqueca pra você!

— Panqueca do TikTok?

— Panqueca gourmet do TikTok!

— Tentador... — ironizei, indo até o sofá. — Tá, eu levo vocês. Mas só deixo e pego, hein? Não fico lá fazendo vigia de adolescente.

— Você é o melhor irmão do mundo!

— Eu sei. Agora me deixa em paz.

Desliguei e joguei o celular na bancada, pronto para continuar com a música patética da faxina, quando vi um brilho na lateral do sofá.

Me abaixei, curioso, e puxei o aparelho.

Capa rosa. Adesivo de sushi. Notificações pipocando com mensagens de grupo chamado "Trio parada dura". E a foto de perfil era... Stephanie de chapéu de caubói.

Sorri. Gargalhei, na verdade.

Ela tinha deixado o celular.

Pior que esquecer calcinha — e ela sabia disso.

Sentei no sofá, encarando o aparelho como se ele fosse uma bomba prestes a explodir. Toquei na tela, e o desbloqueio por digital recusou. Mas desbloqueio facial? Ah, o destino queria brincadeira.

A câmera reconheceu meu rosto. Provavelmente porque, em algum momento bizarro, ela registrou isso pra usar em alguma palhaçada qualquer. Ah, Stephanie...

— Isso vai ser divertido — falei pra mim mesmo.

Abri a galeria. E era como entrar num portal paralelo da mente da Stephanie: selfies com mil filtros, print de conversas com legendas tipo "olha isso!", fotos de comidas, memes sobre TPM, uma montagem do Caio com uma peruca loira...

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