Atualizamos nossas Diretrizes de Conteúdo.
Consulte as diretrizes mais recentes para continuar compartilhando histórias com segurança.

Capítulo 19 - Stephanie

4.4K 381 10
                                        

Dois dias.

Foram dois dias desde o acidente.

Desde os faróis em nossa direção, o nome dele escapando dos meus lábios, o grito que engoli, o impacto. Desde a última vez em que ouvi a voz dele nítida e clara, chamando meu nome como se fosse um escudo.

Dois dias desde que o mundo virou do avesso e eu fui arremessada para dentro de um pesadelo que nem a minha mente criativamente dramática teria coragem de escrever.

Acordei na manhã do terceiro dia sem saber exatamente como havia conseguido dormir. Talvez tenha sido a exaustão ou o som constante das máquinas no quarto do hospital — um lembrete torturante de que ele ainda estava ali, mesmo que seu silêncio me matasse um pouco mais a cada hora.

Estiquei o corpo com cuidado, os músculos doloridos reclamando, e passei a mão devagar sobre minha barriga, onde o bebê se mexia preguiçosamente. Meu filho. Nosso filho. Ele também estava em silêncio, mas ali. Presente. Vivo.

O mesmo que eu precisava que o Tomás estivesse.

Levantei devagar da poltrona estúpida que chamavam de “reclinável” — aquilo só reclinava a minha paciência — e me aproximei da cama onde ele repousava, com a pele mais pálida do que jamais vi, o rosto ainda marcado por hematomas e pontos, e o peito sob a bata de hospital subindo e descendo lentamente.

Era tudo que me restava: a respiração dele.

Segurei a mão dele como se isso pudesse puxá-lo de volta para mim. Aquela mesma mão que me segurou quando tropecei na calçada, ou quando bati o dedinho no pé da cama e chorei como se fosse uma novela mexicana.

— Eu juro que vou te matar se você não acordar logo, Tomás. — resmunguei, pressionando os dedos dele contra os meus. — Isso é muita sacanagem, mesmo pra você. Me deixar aqui, conversando com uma parede, sem resposta, como se eu já não falasse sozinha o suficiente.

Passei o polegar pelo dorso da mão dele com cuidado, os olhos marejando pela milésima vez em quarenta e oito horas.

— A cirurgia foi um sucesso, eles disseram. Só um baço perfurado. Nada demais, né? Só um órgãozinho vital que resolveu fazer greve. Mas está tudo bem agora. Eu estou bem, o bebê está bem... — respirei fundo, tentando manter a compostura. — Mas nada vai ficar realmente bem se você não abrir esses olhos logo.

Abaixei a cabeça, encostando a testa contra o dorso da mão dele.

— Eu já implorei pra todos os santos, anjos e até pra Nossa Senhora da Sinuca, caso ela exista. Rezei, acendi vela, quase bati tambor. Não sei mais quem implorar. Só sei que quero você de volta. Que preciso de você de volta.

A mão dele continuava imóvel. Mas quente. E viva.

— Eu sou insuportável, eu sei. E você também. Mas a gente se suporta como ninguém, lembra? Você diz que me ama apesar de eu mastigar alto e eu te amo mesmo quando você esquece a toalha molhada em cima da cama. Isso já deve contar como milagre.

Levantei o rosto e olhei para ele, esperando qualquer reação. O mínimo. Um tique na sobrancelha, um espasmo, um movimento involuntário. Qualquer coisa. Mas ele parecia esculpido em silêncio. Um silêncio que doía mais do que qualquer grito.

— Eu sei que parece loucura, mas... eu acho que te amei desde o primeiro dia que você implicou comigo. Talvez seja porque eu sempre gostei de alguém que me desafiasse. Mas você foi além. Você me viu, Tomás. Quando ninguém mais me via. Você viu.

Fiquei em pé ao lado da cama, sentindo o corpo tremer de emoção. Meus olhos escorreram mais lágrimas do que pensei que ainda tinha.

— E agora você está aí, parecendo a Branca de Neve esperando beijo pra acordar. Só que, vamos combinar, se esse fosse o caso, você já teria despertado com os dez que te dei ontem, e os cinco dessa manhã.

DETALHES Histórias para pegar e não largar. Descubra agora