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Capítulo 18 - Stephanie

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O zumbido era a primeira coisa que eu escutava. Alto, insistente, como se o mundo tivesse sido reduzido a um ruído abafado e distante. Meus olhos abriram devagar, e tudo girava. A luz dos postes piscava confusa através do para-brisa trincado, e eu demorei um segundo para entender onde eu estava.

Havia gosto de sangue na minha boca. Ferro, quente e amargo. Levei a mão à cabeça instintivamente, e senti a lateral latejar sob meus dedos. Quando toquei, veio o susto: minha mão voltou suja de sangue.

Ofeguei. A cabeça latejava, o zumbido não cessava, mas então... senti. Um leve movimento dentro da barriga.

O bebê.

- Ai... - gemi, quando o cinto de segurança pressionou com força minha barriga. Era como se tudo em mim doesse. O desconforto irradiava pelas costelas, pelos quadris, pelo medo.

Foi só então que os flashes voltaram.

Os faróis. A luz vindo rápido demais. Tomás gritando meu nome.

E então... ele.

Indo na minha direção. Protegendo meu corpo com o dele.

- Tomás? - chamei, minha voz saindo fraca, pastosa. - Tomás?!

Com dificuldade, forcei minha mão até o botão do cinto. Soltei.

O estalo do fecho soou alto demais, e me empurrei para o lado, até conseguir virar o corpo. Doeu. Tudo doía.

Ele estava ali, no banco do motorista.
Pálido.

Imóvel.

O rosto dele virado para o lado, os olhos fechados, e... sangue. Muito sangue escorrendo da lateral da cabeça, manchando a gola da camisa e escorrendo pelo peito.

- Tomás! - gritei, e o som da minha própria voz me assustou.

Toquei o rosto dele com mãos trêmulas, sacudindo-o de leve, sem saber se podia mexer mais do que aquilo. Eu não era médica. Eu não sabia o que fazer. Mas ele não respondia.

- Pelo amor de Deus, Tomás... - sussurrei, tentando conter o choro que ameaçava me consumir. - Fala comigo, por favor...

Encostei o ouvido no peito dele, buscando por algo. Um som. Um sinal. Mas o silêncio era aterrorizante. Meu corpo começou a tremer. A garganta travou.

- Não... não, não, não... - comecei a repetir, desesperada, agarrando sua camisa. - Você não pode fazer isso comigo, não agora... você não pode me deixar! A gente tem um filho, você prometeu estar aqui...

Meu corpo tremia todo, e o gosto de sangue na boca ficou mais forte. Mas nada se comparava ao pavor que tomava conta de mim.

Eu estava ferida. O bebê ainda se mexia. Mas Tomás...

Tomás estava apagado.

E eu não sabia se ele ainda estava vivo.

✩₊˚.⋆☾⋆⁺₊✧ ✩₊˚.⋆☾⋆⁺₊✧

As luzes vermelhas da ambulância piscavam como lâminas cortando a noite. O zumbido ainda estava em algum lugar dentro de mim, mas agora era sobreposto pelo som da sirene, pelo barulho das vozes dos paramédicos, pelo meu próprio coração acelerado tentando, em vão, não entrar em colapso.

- Ele ainda está respirando - um dos socorristas disse, o que deveria me confortar, mas só fez minhas pernas cederem ainda mais.

Eu estava no banco ao lado da maca, segurando a mão de Tomás enquanto ele seguia imóvel, pálido, a cabeça enfaixada às pressas. Sangue ainda manchava sua camisa, e havia um ponto escuro no canto de sua boca. Eu tremia, tentando segurar o choro, tentando parecer mais forte do que realmente era. Mas por dentro, eu estava quebrando.

- A gente vai chegar, amor... você vai ficar bem, tá? Por favor, fica bem... - murmurei, tentando controlar as lágrimas que insistiam em escorrer.

Assim que as portas da ambulância se abriram, fui tomada pelo caos controlado do hospital. Enfermeiros e médicos começaram a empurrar a maca, e um deles tentou me conter quando eu tentei segui-los.

- Senhora, precisamos de espaço! A senhora está ferida também, por favor...

- NÃO! Eu vou com ele! - gritei, tentando passar pelos braços que se formavam à minha frente.

- Senhora, ele precisa de cuidados imediatos!

- EU TAMBÉM! EU TAMBÉM PRECISO! ELE É O PAI DO MEU FILHO! - berrava, já sem qualquer controle sobre meu corpo ou minha mente, sentindo o pânico crescer de forma incontrolável.

Foi quando duas mãos firmes me puxaram para trás. Eu me debati, em prantos, até ouvir a voz.

- Steph, sou eu! Calma! - era o Caio.

- Ele não pode morrer, Caio! Ele não pode me deixar! - soluçava, me agarrando nele como uma âncora em meio ao naufrágio.

Clarice estava logo ao lado, com os olhos marejados, segurando minha mão com força. Caio me envolveu com os braços e me deixou chorar, ali, encolhida contra o peito dele, enquanto os médicos desapareciam com o corpo do homem que eu amava por trás das portas de emergência.

- Eles vão cuidar dele, Steph... ele vai ficar bem. Ele precisa, tá? Mas agora você também precisa respirar. Você tá grávida... pensa no seu bebê. Por ele. Pelo Tomás.

Eu só conseguia balançar a cabeça e chorar. O gosto de sangue ainda estava na minha boca, a dor na cabeça continuava latejando, mas nada, nada doía mais do que aquele medo.

O medo de que fosse tarde demais.

O medo de que a vida que a gente começou a construir, finalmente juntos, terminasse ali.

✩₊˚.⋆☾⋆⁺₊✧ ✩₊˚.⋆☾⋆⁺₊✧

A luz fria do hospital fazia tudo parecer mais estéril, mais irreal. Eu estava sentada em uma das poltronas da sala de espera, com uma manta fina sobre os ombros e o som do monitor do bebê ainda ecoando nos meus ouvidos, como se fosse a única coisa capaz de me manter de pé.

O médico havia dito que estava tudo bem comigo. Um corte superficial na testa, algumas escoriações, um hematoma no ombro... Mas nada grave. Com o bebê também. O coração dele batia forte, como se quisesse me lembrar que ele estava ali, resistindo. Vivo. E, por algum milagre, inteiro.

Mas o Tomás...

Ele ainda estava na sala de cirurgia. E eu não entendia. Não explicaram direito o motivo. Tinha algo sobre um sangramento interno, sobre fraturas. Eu não consegui prestar atenção em nada além da palavra cirurgia. E aquilo já era pavor suficiente.

A última imagem dele antes de apagar da minha vista se repetia na minha cabeça como um filme em looping: o rosto coberto de sangue, os olhos fechados, o corpo mole. A mão dele se soltando da minha quando a ambulância freou na entrada do hospital.

Eu queria ele aqui. Acordado. Resmungando que odeia hospital, reclamando da comida. Eu aceitaria até ele implicando com meu pijama de bolinha, qualquer coisa. Só queria ele... vivo. Inteiro.

Não percebi quando eles chegaram. Só senti os braços ao meu redor e o cheiro familiar de lavanda. A vó do Tomás me apertava com força, quase como se quisesse passar toda a fé dela pro meu corpo. A Thaís chorava baixinho, enfiando o rosto no meu pescoço. O pai dele não falava nada, apenas acenava com a cabeça e se afastava quando alguém chorava. Os meus pais ... o meu pai também estava sério, mas com os olhos marejados. E minha mae me abraçou muito forte, sussurrando que tudo ia ficar bem.

- Ele vai sair dessa, Stephanie. O Tomás é forte. - ela disse, com aquela convicção que só as mães têm.

- Ele precisa ficar bem... - eu sussurrei, com a garganta apertada. - Ele precisa saber que o bebê está bem.

Todos assentiram, e por um momento, ficamos ali, juntos. Silenciosos. Esperando. Confiando.

Eu fechei os olhos e apoiei a mão sobre a barriga, sentindo um leve movimento do bebê. Ele estava ali. Nós dois estávamos. E agora só faltava ele. O nosso elo. O nosso amor. O pai do nosso filho.

Ele ia voltar. Ele precisava voltar.

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