As duas semanas seguintes passaram como um borrão de ansiedade, cafeína, compras impulsivas e crises existenciais silenciosas — algumas nem tão silenciosas assim, como quando gritei com uma moça no provador da loja porque ela pegou o último vestido verde-musgo que claramente estava me esperando.
Recebi um e-mail de "Bem-vindo(a) ao Casamento de Bárbara e Matheus" como se fosse uma viagem dos sonhos para o Caribe e não o meu possível colapso emocional num paraíso tropical. A mensagem era cheia de corações, fontes cursivas e palavras como "experiência única", "amor em cada detalhe" e "dress code: pôr do sol chic". Eu quase vomitei glitter.
Entre as pérolas da organização, veio a informação mais insana de todas: os convidados mais íntimos — e vejam bem, eu sou uma dessas pessoas, aparentemente — deveriam chegar uma semana antes da cerimônia para "aproveitar os dias de convivência com os noivos, participar das atividades e criar memórias afetivas".
Atividades. Com os noivos.
A cada novo parágrafo, minha vontade de responder "eu prefiro morrer" aumentava. Mas, como eu sou brasileira, teimosa e maluca o suficiente pra topar essa aposta, apenas apertei o botão de confirmar presença e fingi que estava tudo bem.
Nesse meio tempo, organizei uma micro coleção cápsula de roupas que me deixassem sexy, despretensiosa e discretamente melhor que a noiva. Fiz hidratação no cabelo, sobrancelha, dei um susto no meu cartão de crédito com uma massagem linfática que quase realocou meus órgãos internos, e ensaiei frases espirituosas pra dizer ao Matheus no primeiro reencontro — todas terminavam com ele largando tudo por mim.
Claro que Tomás fez questão de me provocar em tempo integral. Ligava quase todo dia, só pra perguntar se eu já tinha aprendido a fazer trança embutida pro dia do "Luau dos Sentimentos". Ele estava se divertindo. E isso me deixava com mais vontade ainda de ganhar.
Mas eu estava focada.
Eu tinha um plano.
E em sete dias, eu ia entrar naquela ilha como uma tempestade tropical em forma de mulher.
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O sol ainda nem tinha decidido aparecer por completo quando eu já estava de pé, vestida, maquiada e pronta para destruir corações — ou pelo menos manter minha dignidade intacta. Minha mala estava encostada na porta, do lado de fora a cidade ainda bocejava preguiçosa, mas meu estômago já fazia piruetas de nervoso.
Tomás estava atrasado.
E não "cinco minutinhos, estou descendo" atrasado. Era o tipo de atraso que fazia você repensar sua vida inteira e cogitar se não deveria ter ido de Uber mesmo, ou melhor: ter fingido um AVC para não precisar passar uma semana com ele numa ilha paradisíaca cheia de gente feliz com o amor.
Revirei os olhos pela décima vez quando o barulho de uma buzina escandalosa cortou o silêncio da rua.
— Óbvio que é ele, só poderia ser ele, a buzina mais cafona da Zona Norte — murmurei, abrindo a porta com toda a paciência de um monge budista depois de três cafés.
Tomás estava de óculos escuros, cabelo bagunçado e aquele sorrisinho torto de quem dormiu bem, enquanto eu passei a noite inteira decidindo entre dois tipos de sutiã invisível.
— Perdeu o Uber e resolveu vir de buzina de feira? — perguntei, arrastando a mala até o carro.
— Bom dia, princesa do sarcasmo — ele respondeu, vindo me ajudar com a bagagem. — Pronta pra nossa lua de mel fake?
— Se você continuar falando assim, eu te deixo na cadeia.
Entramos no carro, e nem cinco minutos depois ele já estava mexendo no ar-condicionado, reclamando da minha playlist e me perguntando por que eu levei três tipos de chapéu.
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DETALHES
RomanceStephanie Magalhães nunca soube lidar com sentimentos - especialmente os que envolvem amor, compromisso e pedidos de casamento em praias paradisíacas. Designer emocionalmente bagunçada, dramática por natureza e especialista em fugir de tudo que exij...
