Inconsciente.

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Enzo

O dia amanhece nublado, para piorar ainda mais o meu humor. Durante toda a noite, não preguei os olhos nem um minuto. As horas não passavam e a falta de notícia está acabando comigo.

Logo que entro na cozinha, minha mãe larga o que estava fazendo e vem me abraçar. Envolvo meus braços em seu corpo e tento conter a vontade de desmoronar.

__ Conseguiu dormir? -- ela indaga me levando para a mesa.

__ Um pouco. -- minto para não preocupá-la.

Mamãe sorri e acaricia meu rosto.

__ Eu fiz panquecas. Coma e depois iremos até a delegacia. -- ela beija minha bochecha e volta aos seus afazeres.

Pego um pedaço da panqueca e mordo sem nenhuma animação. Não tive sono à noite e muito menos fome agora.

A campainha soa e quando faço menção de ir atender, mamãe faz um gesto para eu fique quieto e sai secando as mãos em um pano de prato. Abandono a panqueca e bebo um gole do suco.

De repente, sou envolvido em um abraço e a voz chorosa de Rafaela preenche a cozinha.

__ Você já está sabendo da tragédia? -- indaga ainda me abraçando.

__ Sim, eu soube. -- tento tirar seus braços do meu pescoço, mas ela me aperta mais forte e continua chorando.

__ Que tipo de pessoa faria isso? Minha prima é tão boa, ela nunca fez nada pra nibguém. -- dou umas batidinhas nas costas dela e olho para minha mãe, ao lado da porta. Ela revira os olhos e sussura um "exagerada" para mim.

__ Rafaela. -- chamo e finalmente ela se afasta fungando. -- Vai ficar tudo bem. A polícia já está cuidando do caso.

__ Polícia? -- indaga meio atordoada. -- Isso é mesmo necessário? Se for um sequestro, os bandidos vão pedir resgate e tudo sairá bem.

Bufo um riso revoltado.

__ Não vou deixar por isso mesmo, Rafaela. Esses bandidos não vão se dar bem. -- altero a voz.

Rafaela ajeita o cabelo e levanta-se, aparentando receio.

__ E... já acharam alguma pista? -- indaga esboçando um sorriso nervoso.

__ Nós vamos até a delegacia agora mesmo. -- fico de pé e arrumo minha camisa.

__ Agora? -- Rafaela olha para a tela do celular preocupada. -- Eu posso ir junto? É que estou muito preocupada com minha prima.

Olho pra minha mãe e ela rola os olhos, descrente. Dona Vilma sempre foi muito desconfiada de tudo e todos.

__ Claro. -- concordo e Rafaela vem correndo me abraçar.

__ Obrigada, Enzo.

Forço um sorriso e retribuo ao abraço de um jeito forçado.

× × ×

Elisa

Ryan senta-se ao meu lado no sofá e me entrega uma xícara fumegante de chá.

__ Obrigada. -- bebo um gole e deito a cabeça no ombro dele. -- Pra quê eu fui deixar a Jeane sair sozinha do clube?

__ Ei! -- Ryan ergue meu rosto com o polegar. -- A culpa não foi sua. Tinha que acontecer e se estivesse junto, teriam levado as duas.

Dou de ombros.

__ Eu teria dado uns sopapos nele, pelo menos. -- brinco e ele sorri, dando-me um selinho.

__ Boba. -- me aconchego em seus braços. -- E sua mãe como está?

__ Meu pai a levou pra maternidade essa manhã. Devido à idade avançada dela, a médica achou melhor acompanhar as últimas semanas de perto. -- explico.

__ É melhor mesmo. E sua relação com seu pai?

Suspiro, dando de ombros.

__ Nós não conversamos. Ele fica na dele e eu na minha.

Ryan acaricia meu rosto e me puxa para mais perto.

__ Não acha que está sendo muito má com ele, não? -- indaga sem cessar o cafuné.

__ Nem um pouco. Ele quase me agrediu naquela noite e nunca vou perdoá-lo. Minha mãe está com ele novamente, mas isso não para mim é como se não estivesse. Eu o odeio. -- falo vacilante.

__ Sabe que no fundo, você o ama. Ele sempre será seu pai, amor. -- Ryan tenta me convencer, mas o ignoro.

Não vou mudar de opinião em relação àquele homem. Nunca mais!

× × ×

Lia

Empurro a porta do quarto do Edu e o encontro saindo do banheiro. Ele me olha confuso, mas nem falo nada e já vou abraçando-o.

__ Lia, o que houve? -- ele indaga preocupado, erguendo meu rosto com ambas as mãos.

__ Precisamos ir pra casa. Precisamos voltar. -- falo entre soluços.

__ Mas, por quê? -- insiste me amparando em seu abraço.

__ Sequestraram a Jeane.

Edu arregala os olhos e me abraça mais forte. Agarro sua camisa e deixo as lágrimas jorrarem como uma cachoeira.

× × ×

Jeane

__ Alguém me ajuda! -- grito parando de andar e puxo a barra do meu vestido. -- Por favor.

O som de água caindo me chama a atenção e eu apresso o passo. Estou morrendo de fome e sede. Vou abrindo caminho por entre os arbustos, até chegar na borda do riacho. Esboço um sorriso eufórico e paro um instante para descansar.

__ Graças à Deus. -- suspiro aliviada.

Agarro a barra do meu vestido, que se encontra todo rasgado de tanto que andei no meio do mato e vou em sentido à água matar minha sede. Caio de joelhos na borda do riacho e inclino-me para beber com a boca mesmo. A sede é demais para ficar parando com a mão.

No entanto, um galho sendo quebrado me assusta e viro-me para trás, ficando de pé. Olho em todas as direções, mas não vejo ninguém.

__ Oi? Tem alguém aí? -- grito, mas não obtenho resposta.

Engulo em seco, ao ver uma sombra de uma pessoas empunhando uma arma atrás de uma árvore e me preparo para correr. Entretanto, esqueço-me do vestido longo e piso em sua barra, o que me faz cair e escorregar para dentro do riacho.

Logo que atinjo a água vou para o fundo e entro em pânico me debatendo, numa tentativa de nadar. Porém, não comi nada o dia inteiro e a fraqueza me vence. Paro de me mexer e a inconsciência me domina aos poucos, ao mesmo tempo que começo a afundar cada vez mais.

A Arte de AmarOnde histórias criam vida. Descubra agora