Capítulo 39: Por ela eu sou

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n/A: Então gente, a imagem na mídia é da família da Vic, para vocês poderem se localizar! (Tipo um heredograma hahahah)

Boa leitura!


Pov Victoria

Havia aquela sensação de que alguém me encarava constantemente por trás. Seria cômico se não fosse tão incomodo, pois assim que eu lançava um olhar na mesma direção, os rostos desviavam na velocidade da luz, tentando inutilmente disfarçar que estavam me encarando. Desistir de contar quantas vezes eu tomei fôlego para simplesmente não atravessar a sala e tirar satisfações com quem estava me fitando como se eu fosse algo esquisito e deslocado naquela sala. E talvez eu fosse, a quem eu queria enganar?

Toda minha família, tanto por parte de mãe quanto por parte de pai, teve uma educação conservadora e até mesmo um pouco agressiva. As coisas deviam ser daquela forma porque simplesmente deveria ser, não gosta? Uma surra de cipó, cinto ou chinelo ensinaria a gostar. Eu podia contar nos dedos de uma única mão quem me apoiou na minha época mais sombria, mas ainda assim se viu de mãos atadas por não poder me ajudar sem sofrer um julgamento tão forte ou consequências agressivas.

Então estávamos ali, a maior parte reunida na sala principal, que continha mais sofás e o enorme tapete felpudo que eu amava ficar deitada desenhando coisas estranhas quando criança. Lembrava-me quando derrubei chá de hortelã com toque de limão ali, fiquei com tanto medo da reação de meu avô que antes mesmo de falar eu já estava chorando. Então Veronica veio, assumiu a culpa e quando meu avô estava prestes a castiga-la, eu finalmente tomei a frente e disse que fui eu. Ficou naquele velho bate-boca de quem tinha sido a culpa até minha avó interromper e dizer que tinha gostado do cheirinho que tinha ficado. Nós deitamos e rolamos por muito tempo naquele tapete até ele perder o cheiro de hortelã e limão.

Recordar dessa época sempre abria uma ferida que nunca havia cicatrizado. Minha família podia ter todos os seus defeitos, ter uma mente mais rígida e fechada... Mas eu fui feliz enquanto mantinha meu segredo. Enquanto estava dentro dos padrões esperados, mesmo que muitos desconfiassem na minha adolescência, eles me acolhiam e me faziam sentir ser parte de algo grande. Eu me sentia segura, confortável, amada. Por isso quando perdi isso, foi como uma das mortes mais dolorosas. Eu nunca mais seria a garotinha que se irritava fácil, mas que tinha uma lealdade enorme aos que mais gostava. Tinha me tornado tudo aquilo que era proibido assim que a revelação estourou. Segundo meu pai, em um de seus mais duros discursos depois que descobriu tudo, preferia ter uma filha puta ou grávida do que uma lésbica em casa.

Sim, as coisas eram nesse nível de ignorância e crueldade.

-Então você está trabalhando com publicidade? Isso parece tão chato! – Isabella comentou revirando os olhos.

Na sala estavam os curiosos – principalmente – e os que estavam com um pouco de saudade de mim. Ou os que se viam obrigados a estar ali porque seria feio não estar, as aparências de que estar fazendo certo sempre em primeiro lugar. O ambiente estava cheio e a sensação de estar sufocando era enorme, mas eu me mantinha ali apenas por um único motivo.

Uma bela ruiva estava sentada ao meu lado. Sua postura impecável, com os ombros retos, pernas cruzadas e pé balançando as vezes. As mãos sobre o joelho, o queixo levemente erguido, os olhos afiados e ouvidos apurados. Liz era um ser treinado para ser social e manter toda a etiqueta, ali, no meio daquele povo carioca interiorano, isso era terrivelmente diferente e encantador. Ela era uma dama em meio a caipiras.

-Mais na área de design gráfico, eu faço a arte que meus clientes querem passar para a população. Isso me deixa por minha criatividade pra fora, me mantem ocupada e eu to recebendo por isso – dei de ombros – Antes mesmo de terminar a universidade eu já estava meio que empregada no ramo, quando estiver mais folgada e com tempo de sobra, talvez faça uma pós-graduação...

Ma ChèrieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora