No fundo eu já imaginava que ela fosse fazer uma pergunta do tipo. Rita desvia o olhar do meu sem graça, como quem tivesse acabado de dizer o que não deve e ela sabe muito bem que eu não gosto de tocar em assuntos que envolvam meu passado, mas não a culpo, eu também ficaria curioso em seu lugar.
─ Se quiser não precisa de responder agora... ─ Ela começa.
─ Não, está tudo bem... ─ Finjo um sorriso tentando acalma-la. Me sinto mal em ter que esconder tudo isso dela, eu gosto muito dela e não quero que sejamos como estranhos, mas odeio ficar remexendo no passado. ─ Ele me abandonou no momento que eu mais precisei de alguém do meu lado. ─ Então encaro o chão. ─ Ele teve várias opções, mas simplesmente fingiu que nada tinha acontecido e continuou na dele.
─ Poxa, que chato... ─ Ela responde sem jeito, e eu odeio quando ela faz essa cara.
─ Ei, não olhe para mim desse jeito, eu vou ter que superar isso algum dia. ─ Tento quebrar o clima tenso que ficou entre a gente. ─ Aqui não é um lugar muito legal para falar sobre essas coisas, não é?
─ Você tem razão. ─ Ela acena concordando. ─ Acho que acabei quebrando um pouco o clima aqui, né? Então sem mais perguntas sobre esse assunto por hoje.
─ Obrigado. ─ Sorrio.
─ Ei, eu já te disse que eu gosto desse cachorrinho branco aqui?
─ Cachorro? ─ Pergunto confuso, e ela aponta para a tatuagem em meu ombro. ─ Ah, isso não é um cachorro, é um lobo.
─ É um cachorro sim, um cão da neve com conjuntivite. ─ Ela começa a rir. ─ Eu já disse que adoro te irritar?
─ Não precisava me dizer. ─ Sorrio irônico e ela continua rindo. ─ O que tem o meu lobo? ─ Dou ênfase na última palavra.
─ Seu cachorrinho? ─ Ela ri novamente e eu adoro o som de sua risada. ─ Eu gosto dele, acho que é a sua tatuagem que eu mais gosto.
─ Sério? Por quê?
─ Sei lá, ela me chamou atenção desde que te conheci direito. ─ Dá de ombros. ─ Por acaso tem algum significado para você?
─ Não sei exatamente. ─ Encaro o lobo branco de olhos vermelhos e me lembro do dia que o fiz. ─ Talvez eu estava viciado em filmes de lobisomens na época que decidi fazer isso, mas também pode servir como uma homenagem a um... ─ reviro os olhos, eu sei que ela vai rir disso. ─ um cachorro que eu tive na infância.
─ Eu sabia! ─ Ela ri novamente e eu acabo rindo junto. Rita tem o sorriso mais lindo desse mundo, e mesmo que seja por algum motivo idiota, como esse, seu sorriso é contagiante. ─ Você nunca me disse que já teve um cachorro de estimação. Quando foi?
─ Há muito tempo atrás, quando eu tinha uns doze ou treze anos e morava com minha mãe.
─ Sério? E como é ter um cachorrinho? ─ Ela diz curiosa. ─ Eu sempre quis ter um, na verdade ainda quero, é o meu sonho, mas meus pais nunca deixaram, diziam que era perda de tempo e que se eu trouxesse qualquer animal para dentro de casa eles colocariam na rua.
─ Isso é cruel. ─ Respondo. ─ Eles deveriam ter um, iam mudar de opinião na hora. O cão é o melhor amigo que uma pessoa pode ter.
─ É, eu também acho, mas é difícil algo amolecer o coração daqueles dois rabugentos. ─ Ela suspira. ─ Mas me diga, como era seu cãozinho? Ele tinha nome?
─ Ele era um cachorro de rua, na verdade. Eu o chamava de Jack, só não me pergunte de onde tirei esse nome. ─ Fechei os olhos. ─ Ele começou a me seguir um dia quando eu estava voltando para casa, era tão magrinho, então decidi cuidar dele, mas como eu tinha que esconde-lo da minha mãe, ele tinha que ficar na rua. É claro que eu trazia ele escondido para dentro de casa às vezes, mas todo cuidado era pouco, né.
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O Tatuador
Teen FictionRita Becker é uma típica garota nerd - estudiosa, dedicada e extremamente certinha. Essa personalidade se deve a seus pais exigentes, sua irmã bem sucedida e seu namoro conturbado. Por ser a representante de classe e a dona das maiores notas da turm...
