2. Decepções

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Chego até o único lugar em que ele poderia estar, a quadra. Garoto previsível, não? Vejo-o jogando bola com os outros garotos enquanto um bando de garotas estão na torcida.

Sou recebida por diversos olhares das garotas na arquibancada, que ficam de conversinha entre si. Claro, uma pessoa com o uniforme de um colégio público em um particular cheio de playboyzinho e patricinha? É como invadir um território inimigo.

É bom Felipe ficar muito feliz com minha presença aqui! Nunca tive tanta vontade de enterrar minha cabeça no chão.

Finalmente sou percebida, ele me vê e vem em direção a mim com uma cara não muito agradável.

─ Oi amor... ─ Digo com um sorriso, ignorando seu olhar.

─ O que está fazendo aqui? ─ Ele pergunta em um tom confuso e irritado.

─ Ué, eu vim te ver. O que mais? ─ Respondo normalmente.

Ele olha para trás apressadamente e então me empurra até saída da quadra para a rua.

─ Vamos embora, antes que alguém nos... ─ ele começa.

─ Ei, quem é essa daí? ─ Pergunta um de seus colegas que jogava bola com ele.

─ Er... ─ ele começa.

─ Eu sou a namorada dele! ─ Digo firmemente.

─ Namorada? ─ Eles começam a rir. ─ Você nunca disse que tinha uma namorada!

─ Hã? Como assim, Felipe? ─ pergunto confusa.

─ Bem, vamos logo, Rita. ─ ele pega sua mochila e põe nas costas apressadamente, enquanto me empurra.

─ Não! ─ Digo, segurando-o. ─ Você vai me explicar o que está acontecendo aqui!

─ Uma garota do colégio publico, Fê? ─ Uma das garotas que estava na arquibancada se intromete.

─ Sim, eu mesma! ─ Digo a ela. ─ Há mais de dois anos, não é? ─ Digo, encarando Felipe.

─ É... Isso mesmo. ─ Ele se da por vencido. ─ Agora vamos logo, Rita!

Ele me puxa até fora da quadra, deixando todos os comentários e risadinhas de seus amiguinhos para trás.

Caminhamos até um ponto de ônibus próximo de lá.

─ Posso saber por que você apareceu por aqui sem me avisar antes? ─ Ele pergunta a mim, nervoso.

─ Eu só queria fazer uma surpresa, poxa! ─ Respondo ─ E pelo visto quem se surpreendeu fui eu! Por que não disse aos seus amigos sobre mim? Ficou com vergonha?

─ Pô, Rita, você viu como eles são, né? Só queria evitar comentários sobre você...

─ Sobre mim nada! Sobre você! ─ grito, nervosa. ─ Se você se importasse de verdade não teria tanta vergonha de mim! Qual o problema? Só por que estou na escola pública agora?

─ Não leve a mal, Ritinha. ─ ele muda completamente seu tom ─ Você sabe que para mim isso pouco importa...

─ É, mas a opinião dos outros é muito mais importante, né? ─ Suspiro decepcionada. ─ Olha, Felipe, não to aguentando mais, não...

─ Calma, meu amor. ─ ele acaricia meus cabelos, do jeito que eu gosto... Para com isso, seu babaca! ─ Vou dar um jeito de me desculpar de tudo isso, ok?

─ Tá bom... ─ digo entre um longo suspiro.

─ Bem, vou ficar aqui mesmo, meu motorista vêm me buscar daqui uns 5 minutos. ─ Felipe diz olhando as horas em seu iPhone nem um pouco humilde. ─ E você? Vai embora como?

─ Vou pegar o ônibus atrás daquela rua. ─ aponto para uma rua completamente assustadora, escura e cheia de barracos. ─ Não tem um espacinho no seu carro, não?

─ Poxa Ritinha, vou ficar te devendo essa, tenho que buscar minha irmã hoje ainda e já sabe o que acontece se me atrasar, né?

─ Tudo bem, mas pelo menos me leve até lá, né. Não quero passar por aquela rua sozinha!

─ Ah... Tem coisas de valor na minha mochila, vai ser muito pior se eu tiver que voltar sozinho...

─ Coisas de valor, tipo o quê? ─ pergunto revirando os olhos.

─ Meu notebook.

─ Legal, sua mãe vai amar descobrir que está pagando o olho da cara na sua escola para você ficar matando aula para jogar! ─ respondo cínica. ─ Quer saber? Não preciso mais de você, eu vou lá sozinha mesmo!

─ Não precisa fazer isso... ─ ele começa, segurando meu braço.

─ Espero que eu seja assaltada e leve um tiro! ─ grito nervosa, soltando meu braço de suas mãos.

Dou meia volta e sigo até aquela rua assustadora.

─ Não, amor! Volta! ─ ouço Felipe gritar de longe, ainda parado naquele ponto de ônibus.

Ignoro-o e continuo seguindo meu caminho até aquele lugar horrível. Finalmente entro naquela rua. Olho para trás, nada do Felipe. É lógico, nunca que ele viria atrás de mim, para ele tanto faz se estou viva ou não!

Olho ao redor, não me lembrava dessa rua ser tão assustadora desde que eu estudava naquele colégio. Até porque meu motorista particular sempre me buscava no portão, até o dia em que cometi o maior erro da minha vida e meus pais me colocaram no colégio público que estou desde então, e tiraram meu motorista particular de mim.

Escondo meu celular - muito mais humilde em comparação com o de Felipe - no bolso do moletom. A rua é bem estreita, escura e cheia de buracos. Há alguns barracos de madeira e uns poucos barzinhos com algumas pessoas suspeitas.

─ E ai, loirinha? ─ um rapaz maltrapilho em um desses barzinhos grita para mim, segurando um copo com um liquido dourado, que acredito ser cerveja.

Assustada, olho para baixo e apresso o passo. Finalmente vejo o final daquele inferno, até que sou surpreendida por um garoto de uns 12 anos de idade.

─ Fala, novinha! ─ o garoto diz para mim. Novinha? Se enxerga, moleque!

─ Hã...? ─ solto.

─ Passa tudo que tu tem aí! ─ ele grita, apontando uma arma para mim.

O TatuadorHistórias para pegar e não largar. Descubra agora