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          Katherine não estranhou o óbvio pavor da menina em andar de carro, ela mesma não conseguia mais fazer coisas tão simples como comer biscoitos com gotas de chocolate desde a morte de sua avó.

           Uma vez que abriu a porta, a casa vazia lhe recebeu mais uma vez. Ela encaixou seu celular no sistema de som integrado da casa e aumentou o volume até não poder mais, os vizinhos nem escutariam nada final seus pais tinham instalado isolamento acústico de ultima geração nas paredes. Olhou para a sua televisão, onde um documentário qualquer sobre um acampamento de verão passava, e pensou pela enésima vez em fugir de casa.

          Ela fazia isso com muita frequência.

          Primeiro pegaria seu passaporte e outros documentos, quem sabe um pouco mais de dinheiro, no cofre dos pais. Depois, iria para seu quarto e faria as malas, somente o necessário, o resto compraria aonde quer que fosse parar. Por ultimo, pegaria o carro que tinha comprado só para irritar os pais (uma lata velha caindo aos pedaços, amor da sua vida) e iria para o aeroporto.

           Lá, ela compraria uma passagem no voo com o destino mais longe possível, Noruega ou algo do tipo, e passaria o resto de sua vida em uma cidade pequena como uma nova pessoa, talvez morasse em uma casa como as que imaginava enquanto lia contos de fadas na infância. O mais importante de tudo: nunca, jamais, em hipótese alguma, teria filhos, muito menos casaria. A vontade de ir embora não mudava; a única coisa que mudava era o destino: Colômbia, Noruega, Canadá... O final da história era sempre o mesmo, ela sendo o que sempre quis ser: feliz. A palavra História lembrou-lhe algo muito importante.

- Porcaria. - A menina se desvencilhou das cobertas, dobrou-as no braço do sofá, e correu para seu quarto.

          "Isso mesmo, sua tonta.", a consciência riu, "Você fez a burrada de se inscrever na aula avançada de história dos Estados Unidos e não acabou de ler o livro requerido, na verdade, nem começou.".

          O livro em questão era Alexander Hamilton de Ron Chernow e estava no mesmo lugar em que o tinha deixado algumas semanas atrás, em cima da escrivaninha, como se zombasse de todas as vezes que olhou para ele e disse "depois" naquele verão.

          A menina começou a fazer as contas em sua mente: faltavam quinze minutos para as dez horas da noite; o livro tinha 731 páginas e ela tinha que sair de casa às sete e meia se quisesse tomar café da manhã a caminho da escola. Demoraria um pouco de tempo para reaplicar a tinta no cabelo, o que a deixaria com um total de nove horas para ler e dormir um pouco.

          Kat decidiu que leria até duas da manhã, o que, se lesse rápido, significava umas setenta páginas por hora. Claro que se fosse algum livro de ficção ela leria mais rápido, porém biografias não eram o seu forte.

          Na primeira hora de leitura, realmente prestou atenção no que lia, sublinhando as partes mais importantes, fazia anotações e tudo; nos sessenta minutos seguintes, seria capaz de dar um sumário vago dos acontecimentos da vida de Alexander, mas quando chegou meia noite, os acontecimentos começaram a se misturar em sua cabeça, talvez por efeito da tinta de cabelo ou algo do tipo, e ela teve certeza de que Thomas Jefferson tinha sido rei da França.

          Logo Katherine viu que não ia adiantar de nada ficar lendo, então apoiou o livro em seu criado mudo, virou para o lado e dormiu.

***

"Lana, amada, eu fui visitar a Jane. Vou ficar hoje e amanhã na casa dela, volto amanhã de noite."

          Ao entrar na escola, a menina ainda pensava no bilhete que sua mãe havia deixado no balcão da cozinha. Era a primeira vez que sua mãe a deixava por mais de seis horas sozinha desde o acidente, o gostinho de liberdade are bom, que sabe até ficasse vendo TV até mais tarde hoje.

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