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Terça, 4 de maio de 2021

André on

" O que estás aqui a fazer??"- assustei-me com a voz do Afonso

" Vim beber um copo de água, não estava a conseguir adormecer"- levei o copo ate à minha boca

" Não vais embora?? "- o meu irmão falava surpreso

" Não a vou deixar assim"- suspirei pausando o copo na banca

" Não tens dinheiro para ir para um hotel aqui próximo?? Não tens se estar necessariamente aqui"- o Afonso que me deu o abraço não é mais esse Afonso

" Tenho, mas eu prefiro ficar aqui"- tentei não ser bruto, não queria de maneira nenhuma que o meu irmão ficasse mais pé atrás comigo

" Mas a casa não e tua para dicidires essas coisas"- falou carrancudo

" Oh Afonso menos, ela está como está e ainda estás ai a fazer filmes?? Ela precisa da máxima vigia possível, acho que tu sozinho não das conta do recado"- falei amigavelmente

" Durante três anos dei muito bem conta do recado sozinho"- gritou-me-" Durante três foi eu que estive lá a fazer o papel que era teu, fui eu e não tu, percebes?? Agora, não me venhas dizer que eu não sou capaz"- gritava furioso

" Mas agora eu estou aqui e se bem te lembras foste tu que me pediste para voltar"- gritei igualmente-" Estou-te grato por fazeres o meu papel este anos todos, mas agora podes ir ter com a irmã do violador"- gritei e o meu irmão mandou-me um soco

" Ela não tem culpa do irmão que tem OK?? Eu também não tenho culpa do nojo que te tornaste e és meu irmão para todos os efeitos"- tinha a mão na bochecha em cima do local que ele me bateu, tentava controlar-me para não lhe bater

" Mandasts-me vir para cá, para isto??"- gritei-lhe-" Ela está lá em cima a defenhar e tu estás aqui a atirar-me isso à cara, agora??"- tentava controlar os gritos que saiam cada vez maia alto-" Eu sou um nojo pois sou, mas eu não lutei por vergonha do que fiz, agora que estou aqui quero remediar todos os meus erros"- gritei

" Há erros que nunca se remedeiam"- suspirou derrotado

" Eu não a vou voltar a magoar, por isso pára com essas coisas"- gritei mais numa vez

" Só te deixo ficar aqui porque és a nossa última opção, se não nunca na vida tinhas posto aqui os pés "- falou friamente e saiu da cozinha

Deitei-me na cama onde a Constança se entregou a mim pela primeira vez. Foi neste quarto que a tive só para mim, só estas paredes sabem o amor que ambos partilhamos na nossa primeira noite. Voltava fácil a esses tempos... Imaginar aquilo tudo fez-me desabar sozinho naquele quarto, a dor que o meu irmão sentia em relação a mim deixava-me apressivo. Mas pouco tempo depois, vencido pelo cansaço do dia de ontem, andar a correr atrás de um voo não é fácil e também vencido pelas lágrimas acabei por adormecer.

Acordei e senti uma dor enorme e aguda no peito, sentei-me na ponta da cama com os pés no chão ao, coloquei minha mão sobre meu peito, e perguntei ao meu coração:

- O que tens??? Porque é que está tão inquieto??? Está doente???

Fiquei uns minutos em silêncio à espera de uma resposta, mas de tanto esperar foi a vez da minha alma ficar inquieta. Desta vez perguntei-lhe a ela:

- O que tens??? O que se passa para estares tão atormentada dentro de mim??

Ela no mesmo instantes respondeu-me:

- Estou assim porque tu estás assim, estás farto de me fazeres perguntas, mas eu não tenho respostas para ti e sei que isso te deixa infeliz, senteste tão reduzido, isso torna-me reduzido também, sei que queres ser diferente e eu fico triste por não conseguires, estás cada vez mais sozinho e eu sinto que também me deixas só.

Mais fiquei em silêncio à espera que o meu corpo reagisse, foi ai que o meu coração confuso respondeu-me:

- Estou tão triste, talvez mais que tu, sinto-me ainda mais reduzido que tu, sinto-me tão pequeno e estou magoado contigo, afinal és o único culpado.

Fiquei sem jeito e perguntei:

- O que é que fiz desta vez???

Ele respondeu-me:

- Já fizeste muita gente sofrer, mas elas também não quiseram saber mais de ti, agora voltaste e sofre demasiado pelas pessoas, preocupaste demasiado com elas, está a ser atencioso para quem não te dá valor, és prestável e nem um obrigada são capaz de te dizer. Amas, fazes sofrer, voltas para remediar, depois é a tua vez de sofrer e vens dizer que a culpa é minha. Esperas demasiado das pessoas e sofres no fim, depois choras e eu sinto o que tu sentes, mas a dobrar. Já não ha curativos que valham ao meu coração partido e machucado. Os únicos que podem valer, são aqueles mesmo BONS.

Perguntei ao meu coração:

- Como assim, bons???

Ele respondeu-me:

- Curativos que estanquem a tua tristeza, a tua mágoa, a tua solidão. Que estejam contigo nos dias frios e nas noites vazias, nos dias de tempestade e nas horas de solidão.
Curativos que te façam sentir o quanto és especial e amado.
Precisas de bons curativos, que não sejam eternos, afinal nada é para sempre, mas, que não sejam descartáveis. Curativos que absorvam esse sofrimento, essa dor, essa ferida que não se vê, apenas se sente.
Que sejam fortes, e à prova d'água, para que não se estraguem com as tuas lágrimas. Curativos que te façam desaparecer essa dor que parece que nunca mais terminar.

" Saí, por favor saí"- ouvi os gritos, era a voz da Constança, corri para o seu quarto

Olhei para o corpo agitado dela, o suor escorria pela sua cara e o mesmo se misturava com lágrimas de desespero. Tenho quase a certeza que ela estava a sonhar com aquele dia que atormenta todos os dias dela. O seu corpo e a sua face não pareciam a da mesma Constança que conheci, estava completamente magra.

" Constança, Constança "- tentava acorda-la calmamente do seu pesadelo

" Não me toques"- gritou de olhos fechado

" Sou eu, o André "- com uma mão fazia festas na sua face e com outra agarrei a sua mão, senti que me apertou a minha mão

" Não o deixes voltar"- a sua voz era de desespero, abraçou-me a tremer violentamente

" Eu não deixo, prometo"- retribui-lhe o abraço e passado pouco tempo vi-a a adormecer nos meus braços

ALTO E PÁRA TUDO... Agora que penso eu esta mesmo a sonhar?? Falar com a minha alma e com o meu coração, sonho de putos. Mas agora que penso acho que eles têm uma certa razão no que me disseram... Menos, é um sonho...

I CAN'T-IIHistórias para pegar e não largar. Descubra agora