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Quarta, 16 de junho de 2021

Afonso on

Não posso considerar que a minha vida está um porcaria por causa de um dia mau, mas sinceramente há muito tempo que eu não sentia o peso da preocupação, que não era consumido pela mesma. 

Pareço um reformado sentado no baco da Ribeira do Porto, só me falta o chapéu clássico, o jornal e o típico charuto... Mas bem não é disto que o meu desabafo se trata. Eu neste momento devia estar a passar a melhor fase que um jovem adulto vivência ao longo da vida e estava, mas há sempre algo que me desloca do caminho da plena felicidade. Eu só me podia sentir feliz com tudo o que tenho e com tudo o que conquistei, tenho uma família esplêndida, tenho uma quase cunhada novamente que transcende o que há de melhor, tenho um sobrinho que é algo de inexplicável na minha vida, estou a voltar a ter uma relação estável com o meu irmão, tenho um grupo de amigos fantástico, tenho um estágio/emprego que qualquer jovem que acaba o curso sonha em ter, tenho uma namorada que amo mesmo mas ai está o problema... Eu percebo completamente a dor dela e não meto em questão o sofrimento agressivo dela, mas não sinto que isto esteja a ser saudável para mim. Estar sempre a ouvir o nome do violador do irmão dela está a dar cabo da minha sanidade mental. Está bem que é irmão e é o principal e único causador da dor dela e dos pais dela, mas ouvir aquele nome constantemente não me deixa desfazer dos momentos que passei a implorar a Deus que a minha cunhada ficasse bem e que passei a tentar manter a "fé" de que tudo ia ficar bem viva dentro da Constança. Eu tenho aguentado a vontade de berrar com a Cátia para nunca mais dizer aquele nome que atormenta qualquer um da minha família, afinal ela não tem culpa de nada o que se passou, mas eu sinto que enchi demasiado o saco para me continuar a manter calado. 

Fui interrompido com o meu telemóvel a vibrar no bolso das calças, tirei-o cuidadosamente e vi o nome do André escrito no ecrã brilhante...

" Que foi??"- mal atendi fui curto e seco

" Ei, calma lá"- o meu irmão falou de uma forma assustada 

" Desculpa"- suspirei e respirei fundo 

" O que se passa Afonso??"- o André apresentou uma voz calma mas preocupada 

" Coisas minhas"- detesto que as pessoas me dêem "mimo", fico logo com vontade de chorar 

" Se quiseres falar eu estou aqui"- o me irmão estava a dar aquela faceta de irmão mais velho 

" Olha estou farto, mesmo farto"- suspirei antes de continuar- " A Cátia está a passar um mau bocado em casa com os pais, mas ela quando desabafa comigo só menciona o nome daquele cabrão que fodeu a vida da Constança, eu juro que estou pelo cabelos e tenho medo que isso estrague a nossa relação, tenho medo que a minha fúria me leve a fazer algo que não quero"- tentei fazer um pausa para recuperar folgo- " Quando ela me fala do assunto eu só me lembro de ver a Constança no fundo do poço por causa de um filho da puta que quase lhe arruinava a vida e tenho medo de lhe dizer o que não deva, tenho medo de lhe dizer o que tenho guardado dentro de mim desde aquele dia, tenho medo de perder a mulher que amo por causa disto tudo, mas eu guardei tanto para mim por ele ser irmão dela e estou quase a explodir"- sentia uma lágrima a querer sair, mas estava numa das zonas mais movimentadas do Porto e não ia chorar 

" Tens que ser sincero com ela e dizer-lhe de uma forma calma o que vai dentro de ti, acredita que ela vai compreender o teu lado e vai ponderar quando tiver que falar dele"- o André mostrava o lado conselheiro dele 

" Mas e se ela não compreender??"- estava desesperado e sem respostas 

" Vai ter que compreender, ela só tem que pensar que o irmão dela fez uma das piores coisas a uma das pessoas que tu mais amas e tem que perceber que apesar de seres namorado dela também és..."- o André parou na parte de dizer o que a Constança era para mim, acho que ele não queria falar demais 

I CAN'T-IIHistórias para pegar e não largar. Descubra agora