Segunda, 3 de maio de 2021
O que me podia acontecer se eu não lhe tivesse batido?? Eu estaria morta?? São pensamentos que não me saiem da cabeça desde daquele dia traumático. Sinceramente já não sei se é bom ou mau eu ter ficado cá, não sei se não seria melhor eu ter partido. Não estou cá a fazer nada, se fosse lá para cima pelo menos tinha a minha mãe e o meu irmão.
Se eu disser que hoje acordei, mas acordei triste e desolada... Se eu disser que apesar de saber que eu estou viva e que estou aqui, acordei triste... Se eu disser que foi assim, o que me diriam??? Se eu disser que hoje não foi um dia como os outros, não encontrei energia nem para sentir culpada, sei que fui a maior culpada para estar assim.
Mas as pessoas apenas sabem dizer "anima-te" e recomendam-me mais um antidepressivo ou até mesmo um calmante, vão dizer que há gente que está a viver coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo todas as razão da minha tristeza), mas isto não me conforta nada porque ninguém sabe a guerra que eu estou a tentar lutar no meu interior.
Todos fazem isso porque gostam de mim, mas também porque não toleram a tristeza... Nem a minha, nem a deles, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorri hoje? Medicamento. Senti uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o psiquiatra.
Depressão é uma coisa séria, contínua e complexa...
A verdade é uma eu não sei bem o que sinto... Eu não pareço eu... Estes medicamentes que me obrigam a tomar tiram-me completamente de mim, não sou assim tão calma e agora sinto-me nas nuvens. Será ou não que já passei a depressão?? Apenas não me sinto capaz para responder a esta pergunta agora.
A minha mente é um misto de coisas, mas um misto de coisa que eu não consigo expressar, por causa de todas aquelas drogas que me obrigaram a ingerir. Sei que é para o meu bem, mas no fundo não me deixarem estar completamente ciente de tudo é aterrador.
Deitei-me na cama e pouco tempo depois fui vencida pelo cansaço. Não tenho dormido nada, não tenho comido nada, tenho sido um problema para as pessoas que me rodeiam e o meu filho tem sofrido muito com isto tudo. Mas eu ainda não consigo fazer a reciclagem dos momentos aterradores que vivi...
FlashBack on
"Ele vilou-me"- falei trémula e vi o Afonso a ficar sem reacção
" Vamos para o hospital "- o Afonso pegou em mim estilo noiva
Fiz vários esfregaços à vagina, injecções, compridos, tive uma câmara fotográfica Nikon apontada diretamente as minhas pernas abertas. Tinha picos aguçados e longos dentro de mim e introduziram na minha vagina um tinta azul fria para verificar se tinha escoriações.
Sentia que o meu corpo não me pertencia mais, não queria o meu corpo, estava contaminada.
O Afonso estava ao meu lado, de cara lavada em lágrimas e contorcido de agonia. Quis livra-lo daquela dor...
" Afonso, olha para mim"- pedi e o moreno olhou-me nos olhos tristemente" Eu estou aqui"- sorri-lhe para tentar acabar com a sua dor, apesar da minha ser maior
FlashBack off
" Constança, Constança "- senti-me a ser abanada e a voz do Afonso era preocupada, abri os olhos e as lágrimas fluiam sem a minha permissão-" Foi só um pesadelo "- ele abraçou-me
" Eu não consigo "- chorava, gritava, fazia tudo para tentar libertar a dor em mim-" Quero morrer"- gritei e o chora era muito
" Não queres nada"- o Afonso chorava também-" Olha o Lourenço?? Ficava sem mãe?? Eu ficava sem ti?? O teu pai perdia mais um membro da família?? Os teus avós perdiam a única neta??"- o moreno encarava-me
" Deixa-me morrer"- gritava em desespero
" Não deixo"- gritava também em desespero
" Não quero viver mais"- a dor dava cabo da minha vida
Eu odeio a minha vida desde o dia em que ele me tocou, desde esse dia que o meu maior desejo é morrer, para conseguir apagar a dor que reside em mim. Sinto-me poluída, sinto que sou lixo... A minha vida piora mais a cada lembrança daquele dia, reviver os acontecimentos dá cabo do meu interior, eu não aguento viver mais. Cheguei ao extremo de chorar durante horas, cheguei ao extremo de não parar mesmo de chorar.
Hoje não vejo saída para minha vida, a única coisa possível é a morte que pelo menos encerra a dor nem devia ter começado. Nunca mais conseguirei dar rumo à minha vida, estou sem nenhum rumo...
" Pára de dizer isso"- o Afonso chorava e as suas mãos estavam nas minhas bochechas para me obrigar a encara-lo
" Eu sei que vencerás todas as dificuldades, a vida tem te apresentado problemas difíceis, mas tu tens sido capaz de os resolver"- suspirou tentado parar com as lágrimas-" As dificuldades superadas são problemas resolvidos, por isso não podes desanimar, és capaz de vencer todos os problemas que te atormentam, mas não desanimes, faz isso por nós "- chorava-" Eu preciso de ti, o Lourenço precisa de ti e todos os que te amam precisam se ti"
" Tu tens a Cátia, aproveita que ele é uma rapariga espetacular, nada a haver com o irmão "- só de pensar nele comecei a tremer-" Ela precisa de ti, também é a vitima disto tudo "- suspirei a chorar-" O Lourenço tem o pai, que eu sei que o adora e que fará tudo por ele"- pensar no André fez-me chorar mais, podia ser tão feliz com ele agora-" Todos os que me amam arranjaram um rumo para as suas vidas sem que eu esteja nela"- suspirei
" Eu não quero que morras"- o Fonsi chorava desalmadamente-" Eu preciso tanto, mas tanto de ti "- abraçou-se a mina chorar-" Vamos começar de novo, o Simão já esta a pagar por aquilo que te fez e tu tens que lhe mostrar que és superior à dor que ele te provocou"
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I CAN'T-II
RomanceA minha vida parece mesmo injusta ou talvez seja mesmo... Eu apostei tudo na pessoa errada, esperei amor de quem não me pode dar, chorei por quem nunca devia ter chorado, e sempre esperei e espero as mudanças que nunca virão. Tomei algumas decisões...
