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Segunda, 31 de maio de 2021

André on

Sorri... 

Estava na porta de embarque prestes a entrar no avião que me levaria de volta a casa.

Não dormi durante a viagem, não só por estar no lugar do meio, da fila do meio e no meio do avião, mas porque a ânsia de aterrar era desconcertante. Assim que as rodas roçaram no chão, alguém inverteu a ampulheta e areia caiu em contagem decrescente.

O tempo, o único inimigo da minha saudade. Todo o tempo do mundo nunca seria suficiente.

Depois de uma paragem obrigatória na alfândega, a minha viagem emocional começou...

Não disse a ninguém que chegaria hoje, também a minha chegada pouco importa às pessoas que eu amo e não deixo de amar por nada deste mundo.

Os meus dias têm sido realmente bons, já não sentia este tipo de felicidade há algum tempo... Ver que finalmente as coisas estão a tomar um rumo deixa-me extasiado.

Entrei num táxi que estava estacionado em frente à porta do aeroporto e fui rumo a Matosinhos... Queria ver como e que ainda estava uma das poucas coisas que eu deixei há três anos atrás. 

Entrei dentro do meu apartamento e por incrível que possa parecer ainda estava lá o meu cheiro, mas não estava lá mais nada. Estava tudo escuro e com muito pouca vida, agora que penso era mesmo o Afonso que dava vida a esta casa. Os móveis pretos estavam cobertos de pó. Aquele não parecia mais o meu apartamento. Abri todos os estores para ver se entrava luminosidade, apressei-me a abrir as janelas para ver se a brisa entrava e dava vida aquele apartamento. Limpei tudo de cima a baixo para ver se tudo ficava mais aconchegante. Mas por fim tudo ficou igual...

Sentei-me no sofá branco e fiquei a olhar para o nada... Memórias sem fim passavam na minha cabeça... Esta casa traz-me muitas recordações...

Flashback on 

Estávamos neste  sofá a ver uma coisa qualquer que passava na TV. Não estávamos a prestar atenção nenhuma, era mais importante matar todas as saudades que tínhamos um pelo outro de que um filme qualquer.

" André"- ouvimos a voz do Afonso depois de ouvirmos a porta a abrir

" Na sala, puto"- sem querer gritei ao ouvido da Constança e fiz com que ela salta-se assustada- " Desculpa, amor"- beijei de leve os lábios depois de ver a reacção dela

" Não se mataram??"- o meu irmão gozou quando nos viu juntos

" Temos de falar contigo"- olhava-o sério, o mesmo ficou tenso e sentou-se no sofá

" Diz lá"- olhava preocupado

" As pessoas por vezes erram, umas vezes o erro é valorativo, mas doutras vezes é prejudicial. Sinceramente os erros normalmente são prejudiciais, mesmo sabendo que é neles que tiramos as maiores lições de vida. Não sei se o que temos para falar contigo é considerado um erro prejudicial ou um erro valorativo, só tu o vais poder dizer"- a Constança começou por fazer um mini discurso para o assustar como tínhamos combinado

" Podem contar de uma vez por todas"- o rapaz transmitia preocupação, nervosismo e medo-" O que e que fiz desta vez??"- olhava para mim que tinha vontade de rir da sua cara, assim como eu tinha

" Vais ter que tomar conta do teu sobrinho quando quisermos sair"- eu tinha um sorriso na cara

" Do meu sobrinho??"- olhou para o irmão com cara de parvo

" Sim"- eu e a Constança gargalhamos com a cara dele

" Espera lá"- olhava para a Constança e para a barriga dela consecutivamente-" Eu vou ser tio??"- encarou-me com um sorriso a nascer nos seus lábios

" Pelos vistos"- mal acabei de falar o Afonso saltou-me para cima 

Flashback off

Só umas das poucas memórias que me marcam nesta casa... Mas talvez a que mais me tenha marcado foi quando a Constança me disse naquele hall de entrada que eu ia ser pai...

Flashback on  

" O que tens para falar comigo desta vez?? Vais acabar outra vez aquilo que não temos??"- ironizei devido ao que se tinha passado connosco recentemente 

" Podes parar, André"- arregalou-me os olhos e gritou-me-" Eu errei e sei disso, mas se estou aqui é porque tenho motivos, não vinha cá para nada"- suspirou

" O que queres então??"- falei -lhe rude

" Eu estou grávida"- o meu olhar olhar parou no dela e nenhuma palavra foi proferida por mim-" Eu tomei uma medicação que me cortou o efeito da pílula, desculpa"- ela olhava para o chão talvez por medo, mas eu não conseguia tirar os olhos dela, devido à surpresa 

" Não é possível"- falei e logo sorriso de orelha a orelha nasceu em mim -" Eu vou ser pai"- sorria só de olhar para a barriga onde estava o meu bebé- " E o teu pai??"- falei apressivo

" Já sabe e como era previsível não aceitou, não falamos um como o outro "- suspirou triste -" Mas eu vou ter este bebé dê por onde der"- sorriu de leve um a minha felicidade cresceu ainda mais 

" Eu vou ser pai"- lágrimas caiam-me pelos olhos e estava cada vez mais próximo de dela

Flashback off  

Foi certamente um dos dias mais felizes da minha vida. É verdade que não esparava ser pai tão cedo, mas é incrível gratificante ver que afinal ainda fiz alguma coisa de bem neste mundo, onde neste momento só tem espaço para erros meus. Cada dia que passa tento colmatar todas as falhas, mas as sequelas dos erros ficam lá sempre a atormentar cada dia que passa. 

Pensei que eu e a Constança íamos ser para sempre... Mas o para sempre, sempre acaba...

Nem nas minhas melhores histórias eu consegui imaginar alguém melhor que ela... Nem nos meus maiores sonhos alguém me fez sentir tão bem como ela o fez... Justo eu, o desacreditado, o que não queria apaixonar-se... Eu posso dizer que tive o privilégio de a conhecer... De a ter nos meus braços, de provar os beijos dela e os sorrisos... De ser o maior motivo deles...Eu não me quero apaixonar, eu dizia... Não me queria apaixonar por ela... Pois eu não queria sentir o que é perder, não queria conhecer sabendo que um dia mais tarde ela poderia escapar por entre os meus dedos como se fosse vento... E não era brisa, era aquele vento forte, que derruba tudo por onde passa... Ela é assim... Tempestade... E eu não levei o meu guarda-chuva para me proteger... Eu nunca me senti assim... Que jogo injusto, ela faz-me sonhar com ela... Eu não me queria apaixonar por ela... Que jogo injusto, sentir-me assim... O que eu nunca soube foi que tinha que saber com sair disto... Pensei que nunca iria acabar... Sempre implorei para que ela ficasse para sempre, mas sem saber que o para sempre,sempre acaba... No fundo, penso que o meu para sempre nunca irá acabar...  O sol vai nascer amanhã, correto? Eu espero que sim... Porque eu olho pela janela e só vejo chuva... Só a vejo a ela... E eu continuo aqui sozinho, a tentar descobrir como se caminha com as minhas próprias pernas...

I CAN'T-IIHistórias para pegar e não largar. Descubra agora