Benjamin
Dei um pulo e sentei na ponta da cama, tentando controlar a minha respiração descompassada e as batidas irregulares do meu coração. Escorreguei as mãos pelos cabelos, tentando descontar minha frustração. Embora estivesse frio, a camiseta branca estava agarrada ao meu tronco, completamente encharcada de suor. Arranquei-a e a joguei com raiva em algum canto do quarto.
Inferno!
Eu parecia a porra de uma criança ridícula e assustada, sendo perseguida por um par de pesadelos. O relógio marcava 4:27 e tive certeza que não dormiria novamente. Os pesadelos eram um grande incômodo, sem dúvidas, mas o pior era aquele sentimento agudo que se esparramava pelo meu peito todas as vezes que eu despertava.
No início, eu achara que o problema era o quarto. Eu podia jurar que sentia aquele cheiro inebriante em cada centímetro do aposento, em cada parte de cada objeto, em cada fibra daquele lençol. O cheiro estava impregnado e exalava a cada respiração. O cheiro dela. Aquela fragrância adocicada e entorpecente, fruto da mistura do cheiro natural da sua pele com o cheiro de baunilha de seus cabelos.
Charlotte afirmava categoricamente que era impossível que o cheiro ainda estivesse ali, porque os empregados já haviam limpado o aposento cirurgicamente. Mas ainda assim, eu podia jurar que sentia o cheiro pela porra toda e passei a acreditar que as noites mal dormidas e aquele sentimento sufocante eram consequências do dano que aquele cheiro causava no meu subconsciente. Mudei, portanto, de ambiente. Dormi na sala, no quarto de hóspedes, dormi em um hotel em outro país. E nada. Eu continuava tendo noites horríveis.
Nathaniel afirmava que o meu problema não era o quarto, mas sim algo bem simples e que atendia pelo nome de culpa. O sono conturbado, a insônia, aquele misto de náusea, aquele senso palpável de arrependimento, aquela revisão insuportável dos acontecimentos na minha mente como em um filme de terror e o elefante alojado em cima do meu coração, segundo ele, era o que as pessoas sentiam quando constatavam que haviam ferrado com tudo.
Entretanto, algo me intrigava nessa constatação.
Por que eu nunca havia sentido tudo isso antes? Afinal, convenhamos, de uma forma ou de outra, minhas ações sempre eram, no mínimo, inadequadas. Digo, eu sei que são erradas as atitudes que tomo para proteger o que é meu, também sei o quão errado fora o que fiz ao babaca do Adam, sei que é errado o meu comportamento como um homem neandertal diante de Emma, sei ainda o quanto é errado utilizar o dinheiro como instrumento de poder como normalmente eu o utilizo. E mesmo tendo consciência da ilegitimidade desses atos, eles não me suscitavam o mínimo de arrependimento e muito menos nenhum mal-estar emocional.
E agora aqui estava eu. Algo dessa vez era diferente. Dormir com aquela mulher fora a decisão mais infantil e estúpida que já tomei na vida. Diferentemente das outras vezes, este era um erro que extrapolava a minha faculdade de julgamento e alcançava uma parte da minha consciência, até então desconhecida, que me fazia sentir terrivelmente arrependido. Poderia ser culpa ou, talvez, eu só me sentia daquela forma porque foi o único erro que de fato me fez sofrer a pior das punições. De qualquer forma, eu parecia me afogar em um mar de sentimentos ruins e ninguém seria capaz de me salvar.
A única coisa que eu tinha certeza é que todo aquele inferno começou quando ela foi embora. Foi no instante em que ela me deixou que eu desaprendi completamente o que era uma noite de sono contínua e pacífica. As madrugadas passaram a ser lentas, fodidas e abarrotadas de arrependimentos.
E se você acha que eu estou vivendo o pico de todo esse inferno, você está enganado. Lidar com a insônia e com aquele sentimento azedo era uma porcaria, sem dúvidas, mas nem de perto era tão ruim como fora nos primeiros dias em que ela se foi.
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Divorce [REESCRITA]
Literatura KobiecaIncompreensível. Intenso. Um sentimento que os consumia por dentro. Eram de mundos completamente diferentes e carregavam valores completamente diversos. Ele era egoísta, prepotente, manipulador e obsceno. Ela era doce, carinhosa, equilibrada e justa...
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