Capítulo 03.

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Emma

      Seis horas da manhã, e eu corria no Brooklyn bridge Park. Corria em passos firmes e ritmados enquanto nascia uma manhã gélida, porém bonita. O céu começava a ser pintado de azul celeste e diluído entre algumas nuvens alaranjadas, que tentavam encobrir o nascer do sol, formava uma bela paisagem. As cerejeiras começavam a dar indício de vida, florescendo em pétalas cor de rosas, dignas de atenção e admiração. Eu costumava amar essa época do ano... Mas naquele momento, eu não era capaz de ser sensível o suficiente para absorver esses detalhes, porque eu estava seca e devastada por dentro. Eu observava o mundo colorido, mas quando ele atravessava o filtro da minha subjetividade, de alguma forma, tudo se tornava cinza. O vento matinal - frio e cortante - perpassava pelo meu rosto, mas não era uma sensação ruim.

      Eu já conseguia sentir, minimamente, os efeitos confortantes da endorfina percorrendo pelo meu sistema. Era um alento momentâneo, sem dúvidas, mas muito bem-vindo. O barulho dos automóveis ao fundo denunciava que a cidade estava aos poucos despertando, não obstante não era esse barulho que me incomodava. O verdadeiro som que me atormentava vinha de dentro. O ruído dos meus pensamentos conflituosos que se embaraçavam a todo instante na minha mente era alucinante.

      Benjamin tinha aquele dom detestável de passar pela minha vida tal como um furacão: destruindo ou bagunçando o que encontrava pela frente. Eu mal tive tempo de digerir como eu me sentia diante da possibilidade de respirar o mesmo ar que o dele e já tive que começar a compreender toda aquela situação referente ao divórcio.

      Uma tremenda confusão se instalara na minha cabeça, mas - sobretudo - no meu coração. E então eu corria. Corria, porque de alguma forma tal atividade me ajudava a organizar e a compreender tanto os pensamentos como os sentimentos que tanto me agonizavam. Além do mais, ficar em casa iria verdadeiramente me enlouquecer, ficar refém de um choro escandaloso e desesperado só serviria para que eu me sentisse a cada instante um pouco pior. Praguejá-lo também não adiantava em nada, afinal. Mais do que nunca era necessário manter a minha mente completamente sã para tomar todas as providências que a situação requeria. O momento exigia soluções e não mais lamentações.

      Dois dias se passaram, e eu ainda estava à espera de um milagre que não havia dado as caras e que muito provavelmente não viria. Na realidade, tudo estava indo de mal a pior. O advogado que Danny consultou reafirmou o que já sabíamos: não existia brecha alguma naquele maldito documento, ele era objetivo e me dava duas opções claras: continuar casada, legalmente, ou me separar e pagar a cláusula. Eu não pregara os olhos por um mísero instante na noite passada, ora revirando na cama ora, encarando o teto branco, ora surtando em um choro desolado.

      Era necessário ser realista: eu não tinha o dinheiro.

      A minha única opção era, portanto, aguardar o prazo final para pedir a porcaria do divórcio. Aos olhos dos outros, até poderia parecer um drama incrivelmente desnecessário todo aquele sofrimento por ter que esperar para dar entrada na documentação por algumas semanas. Mas em primeiro lugar, ele feria o meu direito de escolha e isso era intolerável. Em segundo lugar, ninguém poderia ser capaz de compreender a real importância de me desvincular o quanto antes de Benjamin. Era vital cortar aquele nó que um dia nos uniu, porque, quem sabe assim, eu seria capaz de apagá-lo completamente da minha vida. Isso só seria possível quando o sobrenome dele não estivesse mais nos meus documentos, eu tinha certeza. Só apartir desse dia, eu poderia destruir todas as provas físicas e emocionais de todo aquele caos, e ele se tornaria apenas um fantasma de um pesadelo muito ruim esquecido no baú das minhas memórias.  

Divorce [REESCRITA]Onde histórias criam vida. Descubra agora