Perdão

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Júlia: on

Eu estava completamente vulnerável àquele momento e eu sabia que a qualquer hora eu poderia desmoronar. Literalmente.

Ele tinha... tantas feições iguais a minha e isso era tão estranho pelo fato de nunca tê-lo visto em minha vida. Seguro minha vontade de tocar em seu rosto mas o mesmo parece não se controlar, andando até a mim com os olhos marejados. Lentamente, o mesmo estende suas mãos e toca o meu rosto, chorando compulsivamente.

Em comparação a ele, eu estava bem calma.

_ Você se parece tanto com ela. – ele sussurra olhando cada parte de meu rosto parecendo se lembrar de algo, ou de alguém. Ele abre um sorriso e me abraça fortemente.

Inalo fortemente o cheiro do mesmo e com os olhos fechados eu retribuo seu abraço lentamente, ainda estranhando aquele sensação nova de reconforto. Eu finalmente o conheci, mesmo eu não fazendo ideia de que isso iria acontecer ali. Naquela hora e naquele momento.

Fico abraçada com ele por um bom tempo, parados ali no meio da sala, como se esse simples gesto pudesse ocupar o lugar de um vazio de quase 20 anos atrás, mesmo sabendo que aquilo seria impossível.

Mesmo assim, aproveito o momento que parecia eterno.

...

O chá quente passa pela minha garganta assim que engulo o líquido que continha dentro da xícara. Olho em volta do meu jardim, sentindo o vento batendo em meus cabelos. Eu não sabia como iniciar uma conversa com o homem sentado em minha frente. Mesmo ele sendo o meu pai.

_ Então... o meu pai, Eduardo, foi até você para buscá-lo? Para... trazê-lo até a mim? – digo para o mesmo que me olha de imediato. Ele assente com a cabeça, terminando de tomar seu chá.

_ Sim, isso mesmo. Ele me contou que... bom... você acabou descobrindo sobre tudo e que queria me encontrar. Mas eu conheço o Eduardo, o medo dele de você vir até mim era grande. Por isso ele fez isso tudo. – ele diz.

Assinto com a cabeça. Se eu não podia ir até ele... ele poderia vir até mim. Como não pensei nisso antes?

_ Tem tantas coisas para conversamos que eu... nem sei por onde começar. – ele diz. Sinto-me na mesma situação.

_ Conte-me sobre minha mãe. Como vocês... se conheceram. – digo abrindo um pequeno sorriso.

O homem sentado em minha frente se endireita na cadeira e olha em volta parecendo procurar como se expressar.

_ Eu e sua mãe nos conhecemos no colégio, no segundo ano do ensino médio. Ela era... tão linda. Costumava observá-la sempre que podia mas ela nunca pareceu notar isso, até um dia que ela veio em minha casa durante uma tempestade. Ela queria um abrigo, a casa dela era muito longe. Um pouco clichê eu sei, mas foi ali que começou tudo. – meu pai diz com um semblante de alegria no rosto. – Naquele dia, ao escutar sua mãe cantarolando algumas canções enquanto tentava dormir, me vi perdidamente apaixonado por ela e prometi a mim mesmo que a faria sentir o mesmo por mim. O mesmo amor que eu sentia por ela.

_ E você conseguiu. – sussurro e ele sorri.

_ Digamos que sim. – ele diz entre risos. – Sua mãe não parecia, mas era muito medrosa em relação à barulhos de trovões. Levei um susto ao encontrá-la em minha porta na madrugada, mas deixei a mesma entrar e por incrível que pareça, realizei meu sonho de dormir junto com a mesma. Não me julgue, eu era um garoto apaixonado. Desde aí, foi tudo se encaixando perfeitamente. – ele diz olhando para suas mãos. – Começamos a namorar alguns meses depois, mesmo os pais dela não concordando. Nos amávamos naquela época e era isso que importava. Depois de quase 2 anos, minha família começou a se envolver com o tráfico e eu me vi pela primeira vez encurralado, sem saber o que fazer. Eu ia contar pra sua mãe. Eu ia. Mas aí ela... – ele respira fundo e aperta suas mãos. Conseguia ver seu nervosismo nítido. – Ela me contou sobre a gravidez. Eu... eu me senti o homem mais feliz do mundo e ao mesmo tempo mais infeliz porque... eu não podia estar com vocês, eu não podia ficar com vocês dali em diante. Eu não podia colocar vocês em perigo porque eu... eu...

Stand Up Your Hand [pjm]Onde histórias criam vida. Descubra agora