12. O Príncipe e a Princesa

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"Diário, queria deixar bem claro aqui que não sou um completo idiota.

Eu sei que o Rafael está dando em cima de mim e tenho visto a forma com que ele tem me olhado nos últimos tempos.

Não sei dizer como ele desconfiou que eu era gay; se foi a Simone que contou ou se ele nem mesmo tem certeza e está arriscando.

O fato é que qualquer cara hetero já teria dado um corte nisso. E eu não fiz nada. Na verdade nem sei se quero impedi-lo..."

Guardo o diário no bolso do casaco porque o tempo virou e está fazendo um frio considerável. E, então, entro no refeitório.

Estou indo agradecer ao Tulio por ter me ajudado com a prova de matemática, já que recebi a nota hoje na aula e ela foi acima da média, o que, pra mim, já é uma vitória.

Mas quando olho para a mesa em que costumamos nos sentar, me surpreendo por ela estar vazia.

Olho ao redor e vejo Rafael sentado com quase todo o grupo do teatro, com exceção da Ana Clara e de alguns outros. E que Milena e Simone estão sentadas com umas meninas que não conheço.

Já o Tulio está com meu irmão na mesa dos jogadores. E o que mais chama a minha atenção é ver a garota sentada no colo dele.

Ana Clara está rindo de alguma piada enquanto mexe no cabelo loiro do garoto.

— Ei, Thiago! — Ouço o chamado de Rafael — Vem sentar aqui.

Aponto para a bancada do almoço e depois que busco minha comida me sento ao lado dele.

— O que é aquilo ali? — Pergunto apontando para a mesa onde os atletas estão sentados.

— Parece que a princesinha da escola encontrou seu príncipe — Rebecca diz mexendo em uma das tranças de seu dread.

— Por que ninguém gosta dela? — Pergunto porque ela parece simpática, mas ninguém parece concordar com isso.

Como se lesse meus pensamentos Rafael diz:

— Ela parece simpática, mas se você não joga o jogo com as regras dela...

— Ela é manipuladora. — Fernando entra no assunto — Ela sempre consegue o que quer pisando nos outros.

— Às vezes, literalmente pisando. — Rebecca diz.

— Sem contar os inúmeros comentários preconceituosos que ela solta — Rafael continua — Por isso que a Mila e a Simone também detestam ela.

— O que ela disse? — Questiono

— Bem, ela já fez inúmeros comentários sobre a aparência da Milena e uma vez perguntou como Simone se sentia em relação a Tulio.

Pareço confuso, então o garoto prossegue:

— Ela perguntou: "Você sente ciúmes dele?" e quando Simone retrucou com: "E por que eu sentiria?"
ela respondeu: "Ah, você sabe! Porque ele é o filho de verdade dos seus pais."

— Nossa... — É só o que eu digo.

Olho de novo em direção a eles e agora os dois estão se beijando.

— Ele é meu amigo, então torço pra que ele seja feliz — Rafael fala e o assunto termina.

Continuo almoçando e percebo que esqueci o meu objetivo, que era agradecer Tulio pela nota alta. Mas ele parece ocupado no momento, então isso pode esperar.

***

"O amor é lindo demais pra ser escondido. #AmarSemTemer"

Estou há uns bons segundos olhando para o cartaz colado no mural de avisos escrito em letras coloridas.

— Eles estão certos. — Tomo um susto e quando viro vejo que é Guilherme atrás de mim — Espero que você saiba disso.

— Eu sei... Mas não sou eu que to namorando secretamente.

Ele sorri pra mim e dá em ombros.

— Eu disse que era só porque estávamos nos conhecendo, mas...

— Mas? — Pergunto.

— Eu acho que a fase de se conhecer vai acabar, e aí... Podemos virar verdadeiros namorados.

Dou um sorriso muito bobo ao ouvir isso.

— Você vai pedi-la em namoro? Quando? Onde?

— Calma! Calma! Tudo tem sua hora. — Ele diz.

— Você não vai me contar nada, né?

E pela cara que ele faz, sei que estou certo.

***

Chego suado no dormitório já tirando o casaco e os tênis e os jogando no chão.

— Que isso? — Rafael pergunta — O que aconteceu?

— Nada, é que eu tava fazendo exercício físico.

Ele me olha espantado e eu rio.

— Mentira! Eu só lembrei que vai lançar um episódio novo de uma série que eu assisto, então eu vim correndo.

— Qual série? — Ele pergunta

— É uma de lobisomens... Não me orgulho disso.

— Sem julgamentos.

Pego umas roupas e vou para o banheiro.

Deixo a água quente tirar todo a transpiração adolescente do meu corpo.

Estou me secando quando escuto a voz do Rafael vindo do quarto:

— O que é esse caderno com o foguete na capa? Que bonito.

— NÃO ABRE! — Coloco a minha roupa em tempo recorde e destranco a porta. Mas quando saio já é tarde demais.

— Ela não me disse nada. — Ele diz com um sorriso instigante

— Como você soube?

— Dedução — Ele responde ajeitando uma mecha do cabelo que caiu em cima do rosto — Sabe... quando o assunto é irmãos gêmeos, ou um é do mal ou é gay, é tipo uma regra.

Deve ser a primeira vez que escuto isso. E eu vivi 17 anos ouvindo todo tipo de comentário sobre gêmeos.

— Espero que não se importe comigo dando em cima de você — Ele dá um passo em minha direção — Você pode me impedir quando quiser.

Olho para sua mão que ele colocou em meu rosto e também dou um passo para frente.

— Não vou. — Respondo

Com isso, ele coloca a outra mão na minha cintura e me beija.

Não sou a pessoa mais experiente do mundo no assunto, mas tenho certeza de que ele é bom nisso.

O beijo dura apenas alguns segundos e quando nos afastamos ele para e depois pergunta:

— E a série?

— Que se dane. — Respondo.

Ele sorri e nos beijamos de novo. Só que dessa vez é mais longo.

Andando Em CírculosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora