"Diário, queria deixar bem claro aqui que não sou um completo idiota.
Eu sei que o Rafael está dando em cima de mim e tenho visto a forma com que ele tem me olhado nos últimos tempos.
Não sei dizer como ele desconfiou que eu era gay; se foi a Simone que contou ou se ele nem mesmo tem certeza e está arriscando.
O fato é que qualquer cara hetero já teria dado um corte nisso. E eu não fiz nada. Na verdade nem sei se quero impedi-lo..."
Guardo o diário no bolso do casaco porque o tempo virou e está fazendo um frio considerável. E, então, entro no refeitório.
Estou indo agradecer ao Tulio por ter me ajudado com a prova de matemática, já que recebi a nota hoje na aula e ela foi acima da média, o que, pra mim, já é uma vitória.
Mas quando olho para a mesa em que costumamos nos sentar, me surpreendo por ela estar vazia.
Olho ao redor e vejo Rafael sentado com quase todo o grupo do teatro, com exceção da Ana Clara e de alguns outros. E que Milena e Simone estão sentadas com umas meninas que não conheço.
Já o Tulio está com meu irmão na mesa dos jogadores. E o que mais chama a minha atenção é ver a garota sentada no colo dele.
Ana Clara está rindo de alguma piada enquanto mexe no cabelo loiro do garoto.
— Ei, Thiago! — Ouço o chamado de Rafael — Vem sentar aqui.
Aponto para a bancada do almoço e depois que busco minha comida me sento ao lado dele.
— O que é aquilo ali? — Pergunto apontando para a mesa onde os atletas estão sentados.
— Parece que a princesinha da escola encontrou seu príncipe — Rebecca diz mexendo em uma das tranças de seu dread.
— Por que ninguém gosta dela? — Pergunto porque ela parece simpática, mas ninguém parece concordar com isso.
Como se lesse meus pensamentos Rafael diz:
— Ela parece simpática, mas se você não joga o jogo com as regras dela...
— Ela é manipuladora. — Fernando entra no assunto — Ela sempre consegue o que quer pisando nos outros.
— Às vezes, literalmente pisando. — Rebecca diz.
— Sem contar os inúmeros comentários preconceituosos que ela solta — Rafael continua — Por isso que a Mila e a Simone também detestam ela.
— O que ela disse? — Questiono
— Bem, ela já fez inúmeros comentários sobre a aparência da Milena e uma vez perguntou como Simone se sentia em relação a Tulio.
Pareço confuso, então o garoto prossegue:
— Ela perguntou: "Você sente ciúmes dele?" e quando Simone retrucou com: "E por que eu sentiria?"
ela respondeu: "Ah, você sabe! Porque ele é o filho de verdade dos seus pais."
— Nossa... — É só o que eu digo.
Olho de novo em direção a eles e agora os dois estão se beijando.
— Ele é meu amigo, então torço pra que ele seja feliz — Rafael fala e o assunto termina.
Continuo almoçando e percebo que esqueci o meu objetivo, que era agradecer Tulio pela nota alta. Mas ele parece ocupado no momento, então isso pode esperar.
***
"O amor é lindo demais pra ser escondido. #AmarSemTemer"
Estou há uns bons segundos olhando para o cartaz colado no mural de avisos escrito em letras coloridas.
— Eles estão certos. — Tomo um susto e quando viro vejo que é Guilherme atrás de mim — Espero que você saiba disso.
— Eu sei... Mas não sou eu que to namorando secretamente.
Ele sorri pra mim e dá em ombros.
— Eu disse que era só porque estávamos nos conhecendo, mas...
— Mas? — Pergunto.
— Eu acho que a fase de se conhecer vai acabar, e aí... Podemos virar verdadeiros namorados.
Dou um sorriso muito bobo ao ouvir isso.
— Você vai pedi-la em namoro? Quando? Onde?
— Calma! Calma! Tudo tem sua hora. — Ele diz.
— Você não vai me contar nada, né?
E pela cara que ele faz, sei que estou certo.
***
Chego suado no dormitório já tirando o casaco e os tênis e os jogando no chão.
— Que isso? — Rafael pergunta — O que aconteceu?
— Nada, é que eu tava fazendo exercício físico.
Ele me olha espantado e eu rio.
— Mentira! Eu só lembrei que vai lançar um episódio novo de uma série que eu assisto, então eu vim correndo.
— Qual série? — Ele pergunta
— É uma de lobisomens... Não me orgulho disso.
— Sem julgamentos.
Pego umas roupas e vou para o banheiro.
Deixo a água quente tirar todo a transpiração adolescente do meu corpo.
Estou me secando quando escuto a voz do Rafael vindo do quarto:
— O que é esse caderno com o foguete na capa? Que bonito.
— NÃO ABRE! — Coloco a minha roupa em tempo recorde e destranco a porta. Mas quando saio já é tarde demais.
— Ela não me disse nada. — Ele diz com um sorriso instigante
— Como você soube?
— Dedução — Ele responde ajeitando uma mecha do cabelo que caiu em cima do rosto — Sabe... quando o assunto é irmãos gêmeos, ou um é do mal ou é gay, é tipo uma regra.
Deve ser a primeira vez que escuto isso. E eu vivi 17 anos ouvindo todo tipo de comentário sobre gêmeos.
— Espero que não se importe comigo dando em cima de você — Ele dá um passo em minha direção — Você pode me impedir quando quiser.
Olho para sua mão que ele colocou em meu rosto e também dou um passo para frente.
— Não vou. — Respondo
Com isso, ele coloca a outra mão na minha cintura e me beija.
Não sou a pessoa mais experiente do mundo no assunto, mas tenho certeza de que ele é bom nisso.
O beijo dura apenas alguns segundos e quando nos afastamos ele para e depois pergunta:
— E a série?
— Que se dane. — Respondo.
Ele sorri e nos beijamos de novo. Só que dessa vez é mais longo.
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Andando Em Círculos
Teen Fiction- Mas... - Mas nada! Se você ficar com medo de ter seu coração partido, nunca será feliz. Corações sempre irão se partir, mas o amor sempre irá curá-los. Paro para respirar fundo mais uma vez. - E o amor sempre cura. *** Guilherme e Thiago são irm...
