35. O Ponto Final

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- Thiago, já faz mais de uma semana. Você não pode ficar trancado no quarto pra sempre.

- Eu saio do quarto pra ir nas aulas. - Digo deitado olhando para cima sem olhar para Tulio.

- E depois volta correndo pro quarto, fugindo do Caio e do Rafael.

- O Rafael não quer falar comigo e eu não quero ter que falar com o Caio.

- Você lembra que tem que apresentar um trabalho com os dois, não lembra?

O trabalho sobre preconceitos. Eu me esqueci completamente disso.

O projeto ficou largado depois de toda a confusão que eu arrumei e não terminamos de resolver. Temos que apresentar em dois dias.

- Thiago, eu estou falando com você.

- Desculpe, o quê?

- Perguntei se você vem almoçar.

- Ah, não estou com fome agora.

Ele concorda com a cabeça e tira o celular do carregador antes de sair. A verdade é que o Tulio foi o único que não me deu lição de moral depois do que eu fiz, na verdade na maior parte do tempo ele age como se nada tivesse acontecido. Acho que é melhor assim.

Nunca vou esquecer das palavras da Simone: "Depois do Rafael ter te beijado eu conversei com ele e disse pra ele não quebrar o seu coração, porque ele sempre foi meio avoado. Nunca imaginei que você que iria machuca-lo"

Nem eu.

Eu estou tão desanimado que esqueci de fazer o teste para a peça de Frozen, mas fiquei sabendo dos resultados.

Rebecca conseguiu o papel da Elsa que ela queria, fiquei tão feliz por ela. Ainda bem que Caio a incentivou a tentar o papel.

Fernando acabou conseguindo o papel do Kristoff, se eu fosse para a audição, seria esse personagem que eu iria fazer no teste.

Rafael tentou o papel do Hans, algo me diz que só fez isso porque sabia que o Caio queria o personagem. Mas enfim, garoto conseguiu e Rafael vai ter que fazer o Olaf.

Ouvi dizer que ele ficou mais estressado do que a Ana Clara por não ter pego um protagonista.

A professora me perguntou o motivo de eu não ter ido no dia do teste e eu respondi apenas "problemas pessoais".

Minha barriga começa a roncar, então sei que vou precisar ir ao refeitório comer alguma coisa. Quando saio pela porta vejo Rafael prestes a entrar em seu quarto.

- Rafa! Precisamos conversar.

O garoto vira e olha para mim, parece ter se surpreendido com a pressa com que disse a frase. Ele parece pensar se deve ou não falar comigo, mas abre a porta de seu quarto e faz sinal para eu entrar.

Minha barriga pode esperar.

- Eu sei que você deve me odiar agora - Me sento na cama do Guilherme, outro que estou ignorando. - Mas...

- Eu não te odeio, Thiago. Eu nem estou com raiva de você.

Isso me pega de surpresa.

- Como assim?

- A culpa foi minha. Eu devia ter te largado quando vi que você ainda era apaixonado por outro, mas eu deixei minhas emoções falarem mais alto que a razão.

- Rafael, eu não amo ele. - Eu levanto.

- Mas também não me ama. - Ele também se levanta ficando de frente pra mim - Você nunca amou, você só me usou pra tentar esquece-lo e sabe disso.

- Isso é mentira! - Digo e minha voz treme no final - Eu gosto de você de verdade.

- Esse é o grande problema, Thiago. Você gostava de mim. E eu te amava.

As palavras dele caem em mim como um chute no meu estômago.

- Eu não queria que tivesse acontecido assim...

Me sinto um grande idiota. Talvez o mais idiota entre todos os idiotas da história da humanidade.

- Eu também não queria, mas, Thiago, vamos ser honestos, todos sabiam que isso iria acontecer no momento em que o Caio colocou os pés no internato. Eu só quis acreditar que você não faria aquilo.

Esqueça o talvez. Eu sou um grande idiota.

O pior é saber que tudo o que ele está falando é verdade. Eu amava o Rafael? Ou eu estava tentando esquecer o Caio de qualquer maneira e vi nele uma oportunidade? Eu sei a resposta dessa pergunta? Talvez eu tenha medo de responder em voz alta.

- Vamos continuar sendo amigos? - Minha voz sai fraca, sem força.

- Não.

- Ok...

- Eu estou brincando. - Ele dá um meio sorriso.

Rafael é tão piadista, ele está sempre brincando mesmo quando o momento não é propício. Ver ele fazendo graça agora me deixa feliz.

- Podemos ser amigos... No futuro. - Ele diz abrindo a porta - Mas preciso de um tempo por enquanto.

Ando em direção a porta, mas paro antes de sair e dou um abraço apertado nele.

- Eu sinto muito. - Estou quase chorando e sei que mesmo ele tentando esconder, ele também está. - Eu sinto muito mesmo.

***

Caio é uma palavra de quatro letras, assim como amor e ódio. E eu senti os dois por ele por muito tempo.

Eu amava o Caio por diversos motivos:

1. Ele era o menino mais lindo que eu conhecia;
2. Ele me fazia sentir protegido e encorajado;
3. Ele me conhecia como ninguém.

Esses são apenas alguns, mas existiam vários. E eu o odiava por outras dezenas de motivos:

1. Ele fez com que eu sentisse medo o que acabou fazendo com que eu me escondesse;
2. Ele brincou com os meus sentimentos mais de uma vez;
3. Ele assistiu aos amigos dele baterem em mim e não fez nada para impedir.

Esses são os principais.

Mas com todos os motivos e as razões, Caio sempre esteve na minha cabeça e sempre esteve por perto, mesmo quando eu estava longe fugindo dele.

Nossa história é longa e vai deixar marcas eternas: físicas e emocionais. Mas é hora do ponto final.

- Oi.

- Oi.

- Achei que você não iria querer mais falar comigo.

- Caio... Você sabe por que eu vim, né?

- Aposto que não é por sexo.

- Caio,

- Desculpa... Você veio pra dizer que está arrependido e que gosta daquele sem sal do Rafael, correto? Imagino já que você não tem nem olhado na minha cara nos últimos dias.

- Você está certo, em partes.

- E o que eu errei?

- Não importa, eu só preciso dizer que acabou. Esse é o ponto final e vamos seguir por caminhos opostos a partir de agora.

- Você sabe que eu vim de longe por você.

- Sinto muito, de verdade. Mas a viagem foi em vão.

Não abraço o Caio. Nem mesmo espero que ele responda. Apenas saio andando pelo corredor pensando em tudo o que aconteceu nas últimas semanas, nos últimos meses, nos últimos anos.

Eu finalmente dei um fim na história com o Caio. Mas acabei fazendo o mesmo na minha história com o Rafael.

Escrevi muitos finais hoje. Espero que eu escreva um feliz no fim disso tudo.

Andando Em CírculosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora