29. Cinco Minutos

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Margaridas: minhas flores preferidas. Eu devia ter pensado nisso.

- O quê... O que você está fazendo aqui? - A minha voz sai fraca, quase como um sussurro.

- Eu estudo aqui agora.

Isso oficialmente não está acontecendo, é outro pesadelo. Eu tenho certeza de que é.

- Gostei do visual. - Ele aponta para o meu cabelo - Combinou com você.

Rafael dá um passo na minha direção, colocando a mão no meu ombro.

- Quem é o seu amigo?

- Meu nome é Rafael e eu sou o namorado dele. - O garoto agora segura a minha mão.

Caio não diz nada, apenas abaixa a cabeça dando um sorriso.

- Sai de perto do meu irmão!

Eu não vi o Guilherme se aproximando, mas de alguma forma ele está aqui e sua mão está no rosto do Caio.

O garoto não revida, apenas coloca a mão na bochecha.

- Guilherme, para. - Eu digo baixo, mas alto o suficiente para ele ouvir quando já estava prestes a atingir o Caio de novo.

- Também senti saudades, Gui.

- Não me provoca. - Meu irmão fala.

Olho para trás e vejo Milena, Simone, Fernando, Rebecca, Tulio e Yuri olhando fixamente na nossa direção sem saber ao certo o que está acontecendo.

- Ele é o Caio? - Consigo ler os lábios de Milena que pergunta a Simone. A garota responde dando em ombros.

- Thiago. - Caio diz dando um passo a frente, mas sendo barrado por Guilherme - Precisamos conversar.

- E... Eu... Eu tenho que ir.

Viro de costas e saio quase correndo do refeitório, fugindo de toda essa loucura.

***

A bateria do meu celular está acabando, mas ainda tem o suficiente para ver as mensagens dos meus amigos perguntando onde estou e se está tudo bem. Não respondo nenhuma.

Eles devem estar me procurando, mas vão demorar até me encontrar no meio do campo de futebol. Só preciso ganhar tempo para pensar.

Eu sei que não vai dar para fingir que nada está acontecendo e que Caio não estará lá na sala de aula todos os dias. Só queria entender o porquê de ele estar aqui. Será que já não é o suficiente sua memória estar em todos os meus pesadelos?

Penso em retornar para a psicóloga contando o que acabou de acontecer, mas a porcentagem da bateria cai para 1% e a tela do celular apaga.

***

- Finalmente! Tá tudo bem contigo? - Tulio fala se levantando quando abro a porta do quarto.

- Sim, tá tudo bem. - Minto - Só preciso ficar sozinho, você se importa?

Pois é, estou expulsando ele do próprio quarto.

- Tudo bem, preciso ver a Ana Clara mesmo.

Ele está quase saindo quando se vira e diz:

- A gente está aqui por você. Pra qualquer coisa.

Concordo com a cabeça.

É preciso de pouco tempo para que eu durma enrolado nas cobertas.

Eu acordo com as batidas na porta. Olho para o meu celular, ainda não está totalmente carregado, mas vejo que faz um pouco mais de uma hora desde que cheguei.

Abro a porta e me deparo com o Caio parado na frente dela. Fecho a porta.

- Qual é, Thiago, você não pode fugir de mim pra sempre.

- Pode ter certeza de que eu posso. - Digo prestes a pegar o celular para ligar para Guilherme.

- Cinco minutos, Thi... Só preciso disso.

Respiro fundo, vou até a porta e abro.

- Você tem quatro minutos e cinquenta e nove segundos agora.

Ele passa por mim e senta na cama do Tulio.

- Quarto legal.

- Como você sabia que esse é o meu quarto? - Pergunto - Aliás, como você se quer sabia que eu estudava aqui?

- Eu posso explicar.

Ele diz que viu meu nome numa tabela que colocaram para localizar os novos alunos, tem todos os dormitórios e quem vai ficar em cada um.

- E eu descobri que você estava aqui porque te vi no dia do jogo lá no colégio. Eu não joguei, mas estava lá.

Um flash vem na minha memória desse dia, eu estava com o Rafael tentando passar despercebido e pensei que estivesse sendo observado.

- Eu troquei de escola no fim do ano passado, mas ainda vejo os jogos que acontecem lá.

- Eu devia ter ficado no internato como o Guilherme disse.

- E antes das férias eu vi o anúncio da sua peça e quando notei o nome da escola soube que precisava vir te ver. Thiago, não tem um dia que eu não pense em você.

Eu mordo minha língua tentando impedir algumas lágrimas que tentam escapar.

- Por que, Caio... Por que?

- Eu sei que você não quer me ver, mas... Thiago, eu te amo demais e você sabe disso.

Eu sinto que vou explodir. Eu levanto e ele faz o mesmo e quando estamos bem próximos eu dou um tapa forte na cara dele.

- SE VOCÊ ME AMASSE NÃO TERIA FEITO O QUE FEZ!

- Ok, eu mereço isso.

Ele olha para a minha parede e observa as fotos que estão coladas nelas, incluindo a que Rafael está mordendo a minha bochecha.

- Eu sei o que eu fiz, se eu pudesse voltar no tempo eu voltaria.

- Mas você não pode. - Eu respondo seco.

- Eu sei! Você não acha que eu queria gritar para que eles parassem naquele dia? Você não acha que eu queria ter te abraçado naquela hora? Eu estava morrendo de medo!

Eu começo a rir. É um riso debochado e quase um pouco psicopata.

- Coitadinho de você, né? Mas não era você apanhando ali sozinho com medo!

- Eles me obrigaram a fazer aquilo. Eles disseram que se eu não concordasse ia ser pior. Thiago, toda vez que eu lembro disso, um pedaço do meu coração se desfaz.

Coloco as duas mãos na cabeça, ela está latejando demais.

- Eu me assumi.

Ele diz tirando a minha mão da frente da minha visão.

- Pra todo mundo. Eu não tenho mais medo, Thiago. Tudo o que eu quero é que você me perdoe.

- Seus cinco minutos acabaram. - A minha voz sai como um sopro - Vai embora, por favor.

Ele concorda com a cabeça e vai em direção a porta.

- Eu vou embora. - Ele diz - Se você falar que não sente mais nada por mim.

- Só vai embora. - Eu digo abrindo a porta.

Ele passa por mim.

- Só diz, Thiago. Diz que não sente nada por mim que eu saio da sua vida pra sempre.

Eu respiro fundo. A cabeça ainda dói.

- Tchau, Caio. - Eu fecho a porta e, me encostando nela, desço até o chão.

Levanto a cabeça e uma lágrima escorre.

- Qual é o meu problema?

Andando Em CírculosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora