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(Thaís)

José e eu andamos por quase todos os bares para enfim decidir em qual ficaríamos. Ele optou por um com música ao vivo e porções legais. Escolhemos uma mesa e aguardamos nossos pedidos. Em poucos minutos, nos serviram. Eu não queria tomar nada, pois meu dinheiro era contado e as bebidas alcoólicas eram pagas a parte, entretanto, José insistiu e eu aceitei uma caipirinha de morango, a mesma escolha que a dele.

– Gosto dessa música. – José falou e eu parei para prestar atenção na letra.

– Quem canta? – Perguntei após tomar um gole da minha caipirinha.

– Não faço à mínima ideia. – Sorriu. – As vozes e canções são todas tão iguais que minha sensação é que sertanejo universitário é uma só banda, composta por um homem e uma mulher.

– Eu conheço o sertanejo raiz, porque graças ao meu pai, cresci ouvindo José di Camargo e Luciano, Roberta Miranda, Sérgio Reis e Chitãozinho e Xororó.

– Pode crê! – Ele assentiu dando risada. – Qual seu estilo de música?

– Tenho como base o rock... Mas ouço de tudo, só não sei dizer o nome das músicas ou quem canta. – Falei dando outro gole na bebida. – Hm, pra falar que não conheço nenhum, sou fã de Jorge e Matheus.

– Gosta de funk?

– Gosto de rebolar e funk é ótimo pra isso. – Respondi fazendo-o corar. – Mas também ouço quando tenho que fazer faxina em casa.

– Você não tem cara de quem faz faxina...

– Quem vê cara, não vê coração. – Pisquei; nós passamos a conversar sobre séries e eu descobri que José era fissurado pela Jennifer Aniston. Não posso culpá-lo, afinal, ela é mesmo maravilhosa. Passado um tempo, depois que já tínhamos nos alimentado e tomado alguns drinks, pedi licença para ir ao banheiro. José perguntou se podia pedir a conta, para que pudéssemos conhecer mais do navio. Assenti que sim e disse que o esperava do lado de fora do bar. Quando saí do banheiro, um rapaz com sotaque estranho me abordou, declarando estar apaixonado por minha beleza.

– Me passa seu número? – Pediu galanteador. Ele era bonito, mas não fazia meu tipo. Antes que eu pudesse responder, senti uma mão envolver minha cintura. Olhei para o lado, surpreendendo-me com a figura de José.

– Tudo bem, amor? – Assenti segurando o riso. O rapaz pigarreou, pedindo desculpas e logo se retirou.

– Tudo ótimo, amor. – Debochei com ênfase. Antes de soltar minha cintura, José apertou-a de leve com a ponta de seus dedos.

– Hm... – Murmurou pousando a palma da mão em minhas costas, a fim de me guiar até a saída. – O que acha de irmos até o cassino?

– Isso não é proibido no Brasil?

– Não em um cruzeiro. – José me explicou que enquanto o navio estivesse no mar, não havia problema, pois as águas são internacionais e, por isso, o governo brasileiro não pode fiscalizar e proibir os cassinos. Perguntei se era de seu costume fazer cruzeiros e ele respondeu que aquele era seu terceiro.

José não sabia jogar pôquer ou qualquer outro jogo ali. Eu até quis tentar a sorte em uma das maquinas, mas a idade mínima para jogar era de 21 anos. Contudo, nos divertimos ao ver alguns apostadores perderem a cabeça e outros darem seu grito de glória. 

– Aquela mulher não tira os olhos de você. – Brinquei, indicando com a cabeça uma mulher loura sentada no colo de um dos apostadores da roleta.

– Não viaja...

– É sério! – E realmente era. A mulher parecia que ia engolir José com os olhos; ele passou a observá-la e quando viu que de fato a mulher o secava, ruborizou, fazendo-me rir. Ela notou que José a encarava e então piscou, mandando-lhe um beijinho, o que me fez rir ainda mais.

– Não é nada engraçado.

– Se é... Hahaha! – Em meio à risada, José me pegou desprevenida, puxando-me pela cintura e roubando-me um beijo. Sua língua invadiu minha boca com urgência e eu o beijei de volta, sentindo o passear de suas mãos em meu corpo.

Sua boca era macia. Uma mão se moveu para minha nuca, agarrando as raízes do meu cabelo. A outra mão agarrou minha cintura com força, pressionando-a contra a sua. Foi um beijo quente, avassalador. Ele me beijava com urgência e eu correspondia o ritmo. Agarrei com força seus cabelos, trazendo-o mais pra perto. Minha respiração saiu num suspiro selvagem e no instante seguinte, senti ele se tornar uma pedra sob meus lábios. Sua mão tocou meu rosto, afastando-o gentilmente. Apesar de relutante, abri os olhos, encontrando os seus. Nos fitamos em silêncio por alguns segundos, até ele abaixar a cabeça, meneando-a negativamente.

- Desculpe. – Ele pediu, se afastando. – Desculpe! – Encostei na parede atônita, vendo-o se afastar pela multidão. Respirei fundo, procurando uma resposta para o que acabara de acontecer.

Afinal, por que ele me beijou?

Ou melhor... Por que eu retribuí o beijo do meu chefe?

Voltei ao bar que fui com José e pedi uma dose de vodka pura. Só então que me dei conta do erro que cometi. Não era aceito real no navio, apenas dólar, cartão internacional ou o próprio cartão da companhia. Respirei fundo e pensei em ligar para José e me humilhar, mas não foi preciso. O garçom ao notar meu desespero, piscou pra mim, dizendo que a bebida era por conta da casa.

- Obrigada! – Agradeci tímida; virei a dose de uma só vez, sentindo o líquido queimar em minha garganta. Era o que eu precisava pra voltar a encarar José Alexandre.

De volta a cabine, passei meu cartão pelo leitor e adentrei sem acender a luz. José estava na varanda e quando me viu, entrou para o quarto. Sem pensar duas vezes, subi correndo as escadas. Meu receio não era por tê-lo beijado. Não! Foi só um beijo! Nada a mais que isso! O problema é que José era um cara complexado e traumatizado. Na certa ele se sentira culpado, se condenando por ter “traído" sua falecida esposa. Meu medo agora é que ele me demitisse e me afastasse de Gael.

Uma babá exemplarOnde histórias criam vida. Descubra agora