A Visita

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Julia observava Danilo deitado no chão da cela suja do presídio estadual. Há cerca de cinco anos, desde sua morte, ela o visitava em espírito quase que diariamente. Ele não podia vê-la, mas Julia sabia que ele sentia sua presença. Seu coração se enchia de dor, pena e angústia ao vê-lo naquele estado: Danilo não falava com ninguém e mal se alimentava. Dia após dia, ele apenas esperava que a morte chegasse para levá-lo daquele mundo e para junto dela - mundo que não valia mais nada desde que perdera sua alma gêmea.

Mas o coração de Julia também se enchia de amor cada vez que o visitava. E era esse amor que a fazia voltar de novo, e de novo, e de novo. Ela não conseguia abandoná-lo por completo. Jamais conseguiria. Mas essa visita seria diferente. Pela primeira vez, Julia tivera a autorização dos espíritos superiores para se mostrar para Danilo. Por um breve momento, ele seria capaz de vê-la, de tocá-la, de falar com ela. Desde que sua alma tinha deixado seu corpo terreno após levar um tiro no coração de seu próprio pai, Julia jamais se sentira tão nervosa. Queria ouvir a voz de Danilo novamente, queria sentir seu toque e poder tocá-lo outra vez.

A luz do sol que começava a surgir na manhã fria de inverno entrou pela pequena e única janela da cela e atingiu o rosto de Danilo. Ele abriu os olhos devagar, pronto para virar para o outro lado e voltar a dormir, mas se levantou em sobressalto com o que sua visão ainda nublada pelas muitas horas de sono lhe mostrava: Julia estava parada em sua frente. Ela tinha os cabelos soltos, uma linda rosa branca perfeitamente ajeitada atrás de sua orelha direita, trajava um vestido branco longo, com os pés descalços.

Danilo abaixou a cabeça e coçou os olhos para ver se ainda estava dormindo. Nada. Ela continuava ali parada. "Estou enlouquecendo. Finalmente perdi o que restava de minha lucidez", pensou ele, sentando-se no chão da cela novamente.

"Você não está louco, meu amor. Sou eu. Estou aqui", Julia respondeu, como se pudesse ler os pensamentos dele.

Danilo a encarou, incrédulo. "Ju-Julia...?", ele mal podia reconhecer a própria voz depois de tanto tempo em silêncio.

Julia deu alguns passos em direção a Danilo e se ajoelhou na frente dele. Ela encostou uma das mãos em seu rosto, e Danilo inclinou a cabeça instintivamente, se deixando acariciar por ela. O toque das mãos quentes de Julia em seu rosto frio fez com que o corpo todo de Danilo se aquecesse. Ele sentiu seu coração se encher de amor e de paz, uma sensação que há muito tempo não sabia o que era.

"Meu amor. É tão bom poder tocar em você, Danilo. Ouvir sua voz outra vez", Julia sussurou, os olhos marejadose e cheios de ternura.

Danilo segurou a mão da amada contra seu próprio rosto. E então se enclinou para abraçá-la. "Julia. Eu sabia que você não me abandonaria. Eu sentia o seu cheiro. Eu sentia o seu cheiro todos os dias", lágrimas escorriam pela face dele, o rosto afundado nos cabelos de Julia.

"Eu nunca te deixei, Danilo. Nunca. Como eu poderia?", ela disse, antes de selar seus lábios com os dele.

A boca de Julia era quente e úmida, como Danilo se lembrava. Quebraram o beijo encostaram as testas, olhando diretamente nos olhos um do outro.

"Eu queria poder ter aparecido antes. Mas só agora eu tive permissão. Ah, Danilo! Eu sinto tanto a sua falta!", Julia sorria, mas lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Danilo esboçou um sorriso. Os olhos cheios de esperança. "Isso não importa mais, meu amor. Agora vamos ficar juntos para sempre. Você veio me buscar, não é? Finalmente poderei ficar ao seu lado outra vez", ele limpou uma lágrima que descia pela bochecha de Julia com o dedão.

O olhar de Julia se entristeceu imediatamente. "Desculpe, meu amor. Eu não estou aqui para te buscar. Não dessa vez. Não ainda", ela tentou abraçar Danilo outra vez, mas ele se afastou.

"Entendo...", disse ele, desviando os olhos dos dela.

"Danilo, por favor. Aguente só mais um pouco. Te peço que não faça nenhuma bobagem. Você precisa ser forte, meu amor. Eu virei aqui todos os dias. Todos os dias até que finalmente nós possamos ficar juntos para sempre!", suplicou Julia.

Danilo se aproximou dela novamente. Dessa vez, ele foi quem tocou o rosto da amada.

"Promete?", perguntou ele, a voz quase um sussurro.

"Prometo. Eu prometi que nunca iria te deixar. E não vou", respondeu ela.

...

Danilo acordou assutado em sua cela vazia, a respiração acelerada. Olhou ao redor e pela pequena e única janela do local, percebeu que ainda era madrugada. A cela estava vazia. Tinha sido apenas um sonho.

Ele se virou para o outro lado e fechou os olhos outra vez. Duas lágrimas escorreram por sua face, molhando o travesseiro sujo em que apoiava a cabeça.

Do outro lado da cela, duas lágrimas também escorreram pelo rosto de Julia. "Não foi só um sonho, meu amor. Eu estou aqui, Danilo. Eu nunca te deixei. Mesmo que você não possa me ver. Mesmo que ainda não saiba disso", sussurou ela, enquanto observava mais uma vez Danilo adormecer, absorto em sua própria dor.

FIM

Por Hots_do_Cogu

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DanCris Fanfic ChallengeOnde histórias criam vida. Descubra agora