Boo.

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- Desculpa, eu te conheço? – Perguntei envergonhada para o mesmo e senti um desapontamento preencher seu rosto. Me senti culpada naquele momento, mesmo me esforçando para tentar lembrar de alguma coisa, não conseguia, então quem seria ele?

- Nós somos amigos, fazem quase dois anos – respondeu corando, enquanto colocava as mãos no bolso.

- Me desculpa, minha memória ainda não está 100%... quer entrar? – Perguntei no fim, pois ele ainda permanecia na porta, com o olhar cravado em mim.

- Tudo bem... eu só não vim antes por conta das restrições de visitas.

- Relaxa, eu não senti falta – respondi rindo, mas parei ao perceber que soou um pouco grosseiro e vi pelo canto dos olhos Amanda se divertir com a situação segurando o riso – Então, me conta um pouco sobre você, como nos conhecemos e da nossa amizade.

- Certo – Disse com um ar pensativo, como se estivesse organizando o que iria falar em seguida – Meu nome é Luca, mas você costumava de chamar de Boo e...

- Por que Boo? – O interrompi curiosa, mas ele não pareceu incomodado.

- Monstros S.A., você dizia que eu era fofo e não tinha medo das coisas, então eu merecia ser chamado de Boo – Respondeu e nós rimos juntos – Mas voltando, nós nos conhecemos na fila do show da banda The Neighbourhood, você estava desesperada achando que não ia conseguir um lugar na frente para ver eles, resumindo tudo, no final conhecemos a Jessica, que era filha de um cara importante lá e nós ficamos em um camarote, eles até tocaram na tua mão e você quase desmaiou lá, foi um dia muito bom.

- Legal – Falei imaginando a situação – Mas e nossa amizade, como era antes?

- Não sei bem se a gente classificaria o que tínhamos como uma amizade, propriamente dito – falou e eu olhei confusa – Nós saiamos, mas não era bem um namoro – e continuei calada apenas absorvendo a informação, não sabia ainda se ele achava que tínhamos algo, mas também não iria ser grosseira – Então, como você está? Em relação ao acidente.

- Ainda tentando assimilar tudo, mas tudo anda fluindo. – Respondi tentando transparecer que estava tudo bem comigo.

- Isso é bom – Respondeu sorrindo

Depois disso ficamos conversando sobre coisas que não eram sobre o meu passado, acidente ou hospital, conversamos sobre alguns desenhos que eu estava vendo na televisão. No final da tarde ele precisou ir embora, tinha que trabalhar, mas prometeu que voltaria logo para me ver, em resumo nossa conversa foi boa, consegui me desligar um pouco dos problemas e rir um pouco.

E assim que minha vó chegou Amanda se despediu, já tinha recebi do alta e já estava livre daquele lugar. Quando fiquei a sós com minha vó conversei um pouco sobre a visita do Luca, ela apenas pediu que eu tomasse cuidado, já que nesse momento para mim ele era um estranho ainda.

- Amélia, falando nisso, a fisioterapeuta conversou comigo – Ela disse mudando de assunto e eu a olhei esperando que ela falasse algo mais – Você já vai receber alta amanhã!

- Isso é bom – falei tentando esboçar o mesmo nível de felicidade que ela.

- Isso é ótimo, as contas já vão ficar mais leves para mim, você não sabe o quanto é caro esse hospital – Respondeu parecendo aliviada e eu me senti culpada por estar fazendo ela gastar tanto e além do mais de não querer sair daqui.


Durante a noite não consegui dormir, assim como muitas madrugadas essa semana me peguei mais uma vez pensando neles, para ser mais exata do dia em que nós fizemos uma viagem de carro e praticamente cruzamos o país, saímos de uma ponta a outra. Não me lembro exatamente do ano, mas lembro que era verão e estávamos em dezembro, no começo do mês. Sempre fazíamos viagens como essa, longas. Na maioria das vezes era sempre a passeio, mas outras, como essa eram por conta de nossas mudanças, meu pai era policial e por conta disso sempre nos mudamos para outra cidade ou estado, normalmente a cada dois anos, começamos a nos mudar desde que eu tenho oito anos e nunca mais paramos, ou seja, dez anos "sem rumo".

Voltando a viagem, lembro que as temperaturas estavam bem altas, por ser verão e me fez por várias vezes pedir para ligarmos o ar condicionado já que o ar de fora era tão abafado ao ponto de sentir calor mesmo estando com roupas curtas e de tecidos leves. Quando parávamos nos postos de gasolinas, eu sempre aproveitava para comprar águas e refrigerantes bem gelados. Ao contrário do calor as paisagens conseguiram melhorar tudo, vimos desde o litoral até montanhas, parávamos sempre que dava, chegamos a passar menos de 20 minutos em uma praia, por apenas querer parar para tomar uma água de coco. Essas viagens com os meus pais eram sempre as melhores, cada um de eles dois conseguem deixar ela incrível, minha mãe com a sua sede por descobrir novos lugares e meu pai com a sua disposição para dirigir por horas e horas, é como se um completasse o outro e posso dizer que a única coisa que nunca falta com a gente é o alto astral, sempre que me lembro dessas viagens só consigo lembrar das risadas que damos durante o caminho e das nossas conversas descontraídas, que até hoje me arrancam suspiros de saudades.

Quando me despertei desses pensamentos pude sentir uma leve dor no peito, nunca pensei que sentiria saudades deles ao ponto de chorar por noites e noites, esperando que aparecessem por aquela porta e me dessem um longo abraço, coisa que não sou muito de querer, ou que fizessem uma simples ligação, eu só precisava ouvir a voz deles. Essa rotina me deixava louca e a solidão ainda mais, quer dizer, antigamente me lembro de me sentir muito sozinha, por conta dessas mudanças. O recomeçar, a necessidade de precisar ser aceita em um determinado grupo de pessoas da minha idade, ter amizades que me entendesse, era muito complicado, as coisas quase nunca iam bem, porém eu sabia que no fundo depois de um dia cansativo de aula eu teria meus pais na mesa do jantar tentando me animar do jeitão deles, mas ainda as coisas não estavam assim, a dor de quando não fui aceita por pessoas da minha idade ou de quando alguns antigos colegas se juntaram para dizer coisas ruins sobre mim, não chegava nem perto de como as coisas estavam agora dentro de mim e eu sentia que já não tinha praticamente ninguém do meu lado.

 O recomeçar, a necessidade de precisar ser aceita em um determinado grupo de pessoas da minha idade, ter amizades que me entendesse, era muito complicado, as coisas quase nunca iam bem, porém eu sabia que no fundo depois de um dia cansativo de au...

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