Indo à cidade.

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Nos dias seguintes, tudo continuou na mesma. Eu não saia muito de casa, para falar a verdade, acho que o meu máximo foi ficar no quintal da vovó por alguns minutos. Não tinha nada muito atrativo para mim lá fora. Fico a maior parte do tempo dentro do quarto, ou reorganizando os cômodos da casa. O que eu estou, por acaso, fazendo nesse exato momento.

- Acho que esse vaso ficaria melhor no chão e esse menor no lugar dele – Pensei alto enquanto analisava com calma a sala. Em seguida fiz o que havia pensado. – Realmente. Fica bem melhor.

- Mudando as coisas de novo? – Minha vó perguntou chegando perto e me dando um suto – Fui liberada mais cedo hoje – Falou antes que eu perguntasse e eu assenti calada, ainda com a mão no peito, mas observando agora a estante cheia de livros dos quais não tinha a mínima vontade de ler.

- Como foi o seu dia?

- Animado, produzimos vários doces hoje – disse com um tom alegre e tirou da sua bolsa uma compota de morango – Trouxe para você. Eu mesma que fiz – Falou com orgulho e dessa vez não pude deixar de dar um sorriso sincero na direção dela. Era bom vê-la feliz.

- Obrigada vó.

- E você? Está pensando em dar uma passeada hoje pela cidade? – Perguntou se sentando no sofá e eu neguei me sentando ao seu lado – Por que não? A cidade é pequena, mas tem muita coisa boa para se fazer, pode acreditar.

- Eu não tenho ninguém para sair comigo, na verdade, nem sei se quero alguém para sair. Só não estou no clima, entende? – Falei encarando no fim seu semblante confuso. Como se tentasse ler meus pensamentos e entender o que se passava dentro de mim.

- Não entendo. Já fazem 3 semanas. Você não sai, quase não sorri, não conversa muito, só fica trocando e trocando minhas coisas de lugar – Declarou com um ar cansado.

- Eu posso sair por algumas horas, algum dia nessa semana – falei por impulso, tentando trazer algum conforto para ela.

- Que tal hoje?

- Amanhã.

- Hoje. – Repetiu firme. E ficamos nessa até eu me cansar e ceder. Minha vó conseguia ser insistente quando queria. – Aliás, como eu sabia que você iria querer sair, a neta da minha amiga vem buscar você lá pelas oito, para vocês darem algumas voltinhas.

- O que?! – Exclamei incomodada. Não queria começar uma nova amizade desse jeito. Como se eu não fosse capaz de fazer isso sozinha. Mas antes de pronunciar qualquer coisa para minha vó, repensei. Sabia que ela estava fazendo isso para o meu bem, na posição dela teria tentado o mesmo.

Pelo resto da tarde fiquei assistindo ao jornal com ela, nada muito animado. Lá pelas seis da tarde resolvi começar a me arrumar, para me convencer de vez, que precisava sair de qualquer jeito hoje. Depois de tomar meu banho e lavar meu cabelo, resolvi o deixar que secasse sozinho, mesmo que o tempo estava frio e isso talvez levasse mais de uma hora. Fiquei por longo minutos observando meu armário de roupas, nada parecia me agradar, meu gosto de meses atrás parecia ser bem diferente do que eu me vejo usando agora. As roupas de antes são curtas e apertadas, em sua maioria. O que não me favorece, já que agora tenho algumas cicatrizes que me trazem completa insegurança.

No fim optei por usar um jeans, que ficava bem colado nas minhas pernas, não sabia se antes eu havia comprado por esse motivo, ou se ganhei peso ao longo do tempo. Coloquei também uma camiseta branca simples com uma jaqueta por cima dela, por fim meu velho all-star preto. Fiquei esperando dar o horário. Quando a campainha tocou, sabia que já era hora de descer, reuni toda minha coragem e desci os degraus sentindo meu estomago embrulhar. Até perceber que eu já estava de frente para porta.

- Tchau, querida! - Ouvi minha vó dizer da sala e dei um passo para trás, para que ela pudesse me ver dando "tchau" para ela. Em seguida abri a porta me dando de cara com uma garota loira baixa que vestia um vestido floral relativamente curto e por cima uma jaqueta. Era bem bonita. Ela possuía um sorriso forçado em seu rosto e acabei retribuindo. Somente por educação.

- Prazer, sou Beatriz – Falou simpática. E ficamos em silêncios por alguns instantes até eu me pronunciar.

- Sou Amélia – Respondi tentando entrar no mesmo tom amigável que ela havia usado comigo. – Vamos indo? – Perguntei confusa, já que estávamos paradas sem saber o que dizer uma para outra.

- Claro! Vamos, meu carro está na outra rua, você se importa de ir comigo até lá? Ou quer esperar aqui até que eu o traga?

- Não tem problema para mim. – Respondi indiferente e pensando o porquê de ela ter deixado seu carro em outra rua. Durante o caminho não conversamos muito, só a segui enquanto me guiava até seu carro. Estava sendo bem desconfortável, mas posso assumir que era bom não estar em casa.

- Então, quantos anos você tem?

- Tenho 18 – respondi depois de ter pensado um pouco – e você?

- Também – E deu partida no carro, começando a se mover pelas ruas, em um movimento automático acabei apertando o cinto com mais força – Me fala alguma coisa sobre você.

- Bem, eu me chamo Amélia, tenho 18 anos e...

- Não coisas mecânicas, me fala sobre você, você de verdade! – falou com mais intensidade – Se defina com uma palavra, vamos ver se consegue.

- Olha, na realidade não sei quem sou eu de verdade. Acho que só posso me definir como uma incógnita. E você como se definiria? – Perguntei começando a me entusiasmar com o assunto.

- Não sei bem. Acho que eu fosse me definir, usaria a palavra excêntrica. – E eu a encarei tentando achar algo nela que se encaixasse com sua auto definição, assim como ela havia feito comigo – Eu encaro mais essa palavra como um paradoxo, entende?

- Sim – falei pensativa e depois disso continuamos em silêncio.

Em poucos minutos ela estacionou seu carro perto de uma praça movimentada e logo nos sentamos no banco, começando a conversar sobre algumas músicas, para vermos se temos algo em comum, já que nada batia entre nós aparentemente. Tudo estava calmo e agradável. Após poucos minutos, resolvemos caminhar, para ela me mostrar um pouco do pequeno centro da cidade.

- Não julga – Falou rindo depois de me mostrar um restaurante chique que havia ali. Todos lá dentro pareciam estar cheios de si e com egos completamente inflados, mas eu já havia visto e frequentados lugares mais refinados que aquele. Até onde me lembro bem.

- Não tem como – Eu disse rindo junto. – E aquele bar? Como você o classificaria? – Perguntei apontando para o local agitado no final do quarteirão, mas que com tanta iluminação, barulho, gente entrando e saindo dali, me fez deduzir que o local era um bar. Ainda sem sua resposta comecei a caminhar em direção do lugar.

- Esse lugar você pode julgar – Falou com uma careta quando nos aproximamos – Alguns fracassados do meu antigo colégio trabalham aí – E dessa vez eu a olhei reprimindo pelo o que havia dito. Fiquei observando ali de fora e vi uma placa, perto da porta que dizia que estavam procurando uma garçonete. Antes mesmo de terminar de ler, fui puxada por Beatriz e nós entramos em uma rua, deixando aquele lugar para trás.

Espero que tenham gostado! 

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