Eu não soube explicar porque senti o que senti quando ele me tocou. E isso me deixou confusa. Pelo resto da noite fiquei mais retraída na minha, nós havíamos ido à casa de alguns amigos deles e teria sido divertido se eu tivesse me soltado, mas ainda era muita informação para mim processar, quer dizer, eu briguei com a Sabrina, contei que meus pais morreram, Gustav sentiu dó de mim e começou a me tratar bem, o pior foi que ele não foi o único a sentir pena de mim. Quando o dia começou a amanhecer nós fomos embora.
Eram seis horas da manhã no momento que pisei em casa, minha vó estava saindo para trabalhar e eu tive que escutar por longos minutos um sermão sobre responsabilidade, ela não ficou nada feliz, só pareceu relaxar quando eu avisei que a Beatriz estava comigo. Pelo resto do dia dormi, não foi muito fácil, eu acordava toda hora. No fim não consegui descansar e quando me dei conta já estava entrando pela porta do Tony's.
- Sua cara está incrível. – Tony comentou assim que tirei meu óculo dentro da sua sala.
- Não fala nada – Disse me jogando em seu sofá e o ouvi rir. Comecei a passar minha maquiagem ali mesmo deitada, o sofá era confortável demais para não ficar nele. Ficamos conversando por alguns minutos antes de sermos interrompidos.
- Tony, me avisa quando a Amélia chegar, por favor – Ouvi Sabrina dizer depois de abrir a porta e eu me sentei com um olhar de repulsa para a mesma.
- Quer falar mais merda? – Perguntei e Tony riu. Ele ainda não sabia até onde a nossa briga havia chegado, se soubesse aposto que não teria brigado.
- Podemos conversar sozinhas?
- Na verdade não. Tony obrigada pelo sofá e pela conversa sobre salgadinho – Falei guardando as coisas na mochila para ir por meu uniforme dentro do vestiário. Ao passar pelo bar cumprimentei Gustav com um aceno e Eric com um abraço.
No resto da noite evitei chegar perto da Sabrina e conversar com Eric, já que ele tentava toda hora me perguntar sobre meus pais e como eles se foram, todas as vezes consegui me esquivar dessas conversas. Gustav foi o único que não tentou se aproximar, ele estava agindo como se nada tivesse acontecido, pela primeira vez gostei desse comportamento dele. Quando o trabalho chegou ao fim fizemos o ritual de sempre, limpamos tudo e cada um seguiu seu rumo.
- Não quer uma carona? – Gustav perguntou tragando seu cigarro e jogando a fumaça na direção do meu rosto.
- Ridículo – Comecei a tossir e afastar o ar poluído na minha frente – Não, obrigada.
- Vai ficar esperando duas horas até o ônibus passar? – Ele perguntou novamente e eu o olhei confusa por saber – Eu estou ficando com uma mina que mora no prédio de frente para o ponto de ônibus, na semana passada quando eu entrei você estava lá esperando e quando eu saí de manhã você ainda estava lá esperando – Explicou sem demonstrar muita emoção e eu o olhei incomodada. Não entendi essa minha reação, no entanto não recusei a carona.
- Certo.
Nós entramos em seu carro, que ficava sempre estacionado perto do bar. Durante o caminho ficamos em um silêncio desconfortável.
- Porque parou? – Perguntei assim que ele estacionou o carro em frente a uma farmácia 24 horas.
- Vou te matar – Falou de um jeito estranho e eu bati com minha mochila em seu rosto – Credo Amélia, qual seu problema? Vou comprar remédio, minha irmã está gripada.
- Desculpa – murmurei começando a rir descontroladamente só por lembrar da reação dele quando a mochila bateu em seu rosto. Ele me encarou com um olhar reprovador e saiu do carro, só assim consegui me controlar.
Depois que ele voltou para o carro começamos a conversar. Nossa conversa não foi sobre nada muito revelador, só sobre alguns tipos de clientes do bar que nos fazem perder a cabeça. Até que foi bom.
- Tchau Gustav, obrigada! Até amanhã. - Agradeci assim que paramos o carro em frente minha casa.
- Até. Se cuida surtada – Respondeu amigável enquanto saia do carro. Eu sabia que se carregasse por mais algum minuto a dúvida sobre o porquê dele ter resolvido mudar de atitude der repente não conseguiria tirar isso da cabeça, então como um impulso o questionei.
- Porque você está fazendo isso?
- Isso o que?
- Sendo legal comigo. Gustav, se você estiver sentindo a necessidade de fazer caridade comigo por não ter pai ou mãe, eu preciso que você pare agora. Já estou rodeada de pessoas assim. Eu não queria que vocês todos tivessem descoberto, até ontem você me odiava, talvez eu preferisse você daquele jeito do que com essa sua mudança repentina - menti - Acabei soltando tudo aquilo por impulso, mas se você tem um pingo de decência só peço que pare com isso – Falei rapidamente e no fim soltei o ar.
- Não sou filantropo – Ele falou fazendo que um silêncio constrangedor se instalasse. Minha única reação foi assentir e entrar para casa. Não havia bem um tipo de resposta para o que ele havia dito.
A última coisa que percebi foi ele me observar caminhar até a porta.
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Comprando estrelas
RomanceQuando Amélia acorda em um quarto de hospital, sozinha e com apenas uma lembrança clara de um pesadelo que a rodeou durante todo período descordada, ela precisa reunir toda sua coragem para procurar as respostar e preencher as lacunas, mas será que...
