Na manhã seguinte em que acordei, recebi inúmeras visitas de médicos e enfermeiros, não sei nem contar quantos exames precisei fazer. Durante todo esse tempo não consegui dizer nada, era como estar em outro plano, só tinha alguma reação quando precisava mexer o corpo e as dores vinham acompanhadas com o movimento.
- Nós iremos fazer este último exame e liberaremos você por hoje. – Disse a mulher loira em minha frente com um sorriso simpático.
- Tudo bem – Respondi indiferente, entrando dentro de uma máquina branca, onde fiquei por longos e intermináveis minutos.
Depois que tudo terminou já era de noite e eles me levaram para o quarto dizendo que logo minha vó estaria lá para me ver, aproveitei para perguntar sobre meus pais e a única resposta que tive era que eles ainda não poderiam aparecer por aqui, mas que logo viriam. E lá estava eu, assistindo um programa de televisão, completamente entediante, e comendo uma gelatina verde sem sabor algum, quando a porta se abriu me dando a visão da minha vó, com seus cabelos grisalhos e olhos cansados, que ao me ver pareceram ter retomado vida.
- Amélia! – Minha vó exclamou alegre caminhando em passos rápidos em minha direção e rodeando seus braços com cuidado pelo meu corpo.
- Não precisa chorar – Eu disse baixo retribuindo o abraço.
- Senti tanto a sua falta – Disse quase em um sussurro e forcei um sorriso quando ela começou a me encarar – Faz tanto tempo que não vemos.
- Verdade, 3 anos, né? – Perguntei.
- Na verdade 5 anos, querida – Disse com cautela e eu levei a mão no rosto soltando o ar – Essas coisas levam tempo, tenha calma.
- É desesperador tentar me lembrar das coisas e não conseguir, tudo é tão difícil – Respondi cansada – Foi assim o dia todo, eles me fizeram perguntar sobre o nome de vários familiares e eu nem me lembro se tenho algum tio ou tia, perguntaram sobre meus amigos e só consegui responder aqueles que eu tinha quando era pequena, a Sofia, o Leonardo e a Beatriz, mas não lembro de ninguém mais – e olhei perplexa para ela fazendo uma pausa – Não sei minha cor favorita, meu livro favorito, se eu estudo ou trabalho. Não sei como vim para aqui! Eu não sei quem sou eu. – E no final ela só conseguiu me olhar com pena.
- Existem muitas perguntas das quais agora não vou conseguir te responder, nós nos distanciamos muito nesses 5 anos, quase não nos conversamos mais, por conta das circunstancias que nos levaram a isso, mas eu prometo que agora eu cuido de você. – Disse me passando pela primeira vez naquele lugar segurança.
- Obrigada – Respondi já em um tom mais calmo.
- Agora são dez horas, é melhor que você descanse, amanhã vai ser um dia cheio – Falou se levantando de cobrindo o resto do meu corpo com um coberto quente que ela havia trazido dentro de uma mala de viagem.
- Mas e meus pais, quando eles vão vir? – Perguntei.
- Amanhã nós resolvemos isso – Respondeu saindo do meu quarto com o pote de gelatina na mão e apagando a luz do quarto antes de fechar a porta, me deixando sem tempo para falar mais alguma coisa.
Esperei por quase duas horas até ela voltar para o quarto, mas a cada minuto que se passava meu corpo suplicava por descanso, mesmo que eu não tenha feito tanto esforço hoje pelas minhas limitações. Os médicos disseram que ficaram surpresos por eu não ter perdido o movimento das pernas, o que me deixou assustada e curiosa para saber que tipo de acidente eu tinha sofrido para parar ali no hospital, mas eles pediram que eu tivesse paciência durante alguns dias. No momento que eles falaram isso, achei que não me aguentaria passar pelo dia de hoje de tanta curiosidade, e ansiedade, mas tudo passou muito rápido desde o minuto em que acordei, pelo menos posso dizer que existe um lado bom nessa história.
Na manhã seguinte acordei com alguns raios de sol batendo no meu rosto, o que me fez imediatamente cobrir o rosto com um lençol, porém foi uma tentativa falha já que a porta se abriu e a enfermeira chegou junto com a minha vó com o café da manhã, as duas estavam rindo de alguma coisa e parecia ser bem engraçado.
- Bom dia – Elas disseram seguidamente.
- Bom dia – Disse com a voz cansada e esfregando os olhos, enquanto me sentava na cama.
- Aqui está seu café da manhã – Disse colocando as coisas com cuidado na minha frente – Em algumas horas nós iremos fazer sua transferência de quarto, não é mais necessário que a senhorita fique aqui – E nós olhamos para o canto do quarto onde tinha uma outra pessoa entubada, também estava em coma.
- Tudo bem – Respondi tomando um copo do suco sem açúcar que estava no copo.
- O banho também está liberado – Ela disse fazendo um jóinha no final e eu não pude deixar de soltar uma gargalhada.
Depois disso eu comecei a tomar meu café da manhã e minha vó a ler seu jornal fazendo alguns comentários sobre as notícias, o que me deixou um pouco por dentro das várias coisas que perdi nesses 52 dias. Seguidamente do café da manhã, fui tomar meu banho, caminhando sempre com cuidado, tanto pela dor como pela fraqueza nas pernas, mas tirando isso tudo conseguiu ser tranquilo.
Antes de sair do quarto, minha vó pediu que eu olhasse os cartazes antes de ela guardar, disse que os levaria para casa, mas não achei necessário ver nenhum deles, ainda não estava pronta para isso. Eu estava com medo de ler e não saber quem eram as pessoas que estavam mandando as mensagens, já que em muitas das fotos eu não sabia reconhecer ninguém além de mim.
Durante o tempo em que minha vó ficou fora, eu fui transferida de quarto e de ala no hospital, eles disseram que a neurologia cuidaria agora mais de mim, já que os meus maiores problemas são de memória, mas que mesmo assim iria continuar a fazer fisioterapia.
- Você vai dividir o quarto com uma moça, ela é da sua idade também – O médico disse e eu concordei com a cabeça.
- Levei um susto quando cheguei no quarto e não te encontrei – Minha vó disse enquanto entrava no quarto com uma bolsa maior que a de ontem.
- Eu estou bem – Respondi rindo e encarei a bolsa – O que tem aí? – Perguntei para ela e seu rosto ficou tenso, assim como os ombros. Ela respirou profundamente e me encarou, senti meu coração acelerar, sabia que não estava vindo algo de bom.
- Nós precisamos conversar.
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Comprando estrelas
RomanceQuando Amélia acorda em um quarto de hospital, sozinha e com apenas uma lembrança clara de um pesadelo que a rodeou durante todo período descordada, ela precisa reunir toda sua coragem para procurar as respostar e preencher as lacunas, mas será que...