Capítulo 24

1.1K 42 11
                                        

Marcella

Eu amo história. Desde que eu era pequena o meu avô, por parte de mãe, me sentava em seu colo e contava sobre as batalhas em que ele participou durante a Segunda Guerra Mundial. Meu avô era meu herói. Mesmo depois que vovô morreu eu continuava fascinada por fatos históricos, e estudar sobre a Segunda Guerra me fazia lembrar dele. E acho que por eu amar tanto história, eu sempre fui encantada pela Alemanha.

Alemanha é um país que jorra história em nossa cara. Por onde vou, me lembro do vovô me contando sobre os seus prédios, e tudo aquilo que me fascinava. Frankfurt é um dos lugares mais lindos que eu já vi. A cidade é uma mistura de passado e presente, ao fundo você pode ver prédios enormes, mas por outro lado é possível ver as casinhas no velho estilo alemão. Pela noite as luzes iluminam o rio que corre pela cidade...é lindo! Frankfurt é a casa do famoso escritor Goethe, e é a prova viva dos horrores da guerra, pois a cidade ficou destroçada com o fim dela, e quase toda ela teve que ser reconstruída.

Como grande parte da Europa, Frankfurt está frio. Essa época do ano é horrível para a maior parte de nós europeus, pois só se vê chuva, céu nublado e frio, não importa onde você vá.

Na praça Römerberg, todos os anos, acontece uma feira natalina maravilhosa. Eu já consigo ver os preparativos para a feira deste ano. Meus pais são apaixonados pelo Natal, pois é quando vários parentes nossos vem nos visitar, e por isso eu e minha mãe costumamos vir quase todos os anos nessa feira. A feira é gigantesca. Por onde vamos é possível encontrarmos artigos natalinos, comidas típicas alemãs e é possível ouvir todos os tipos de idiomas em um lugar só, pois há sempre muitos estrangeiros. E o melhor de tudo? Os preços são ótimos.

Quando eu era pequena, eu, Jules e Charles dizíamos que iríamos morar em Frankfurt algum dia, só para passar o dia inteiro em um carrossel que tinha na feira de Römerberg. Eu realmente quero cumprir essa promessa algum dia, morar nessa cidade linda e estudar literatura alemã.



Charles

Marcella foi para a Alemanha hoje pela manhã. Eu a levei para o aeroporto para termos uma despedida longa, pois só de vê-la embarcar naquele avisão me deixou com saudade. Mesmo que ela tenha insistido para eu continuar dormindo, eu fui para me despedir. Ela foi para Frankfurt, a cidade dos nossos sonhos. Era assim que chamávamos a cidade quando éramos pequenos. Eu e ela passávamos várias horas andando de carrossel, e como Jules era mais velho que nós, ele só nos fazia companhia pacientemente. Como o bom irmão que era, sempre estava lá para nós vigiar.

Marcella disse a vida toda que gostaria de morar em um lugar como aquele. Eu prefiro ficar onde estou, mas eu sempre dizia que também queria morar lá porque eu não conseguia me imaginar morando longe dela. Acredito que até hoje ela pensa em morar um dia por lá, e se esse dia chegar, por mais que eu diga que não, eu iria com ela sem pestanejar.



Marcella

A feira do livro de Frankfurt é algo de fazer queixos caírem. Sério, eu to apaixonada, e olha que nem comecei a andar pela feira ainda. Essa feira é o maior encontro editorial do mundo! A primeira feira aconteceu logo após Gutenberg ter desenvolvido a impressão escrita, e desde então a feira só foi crescendo, até chegar o que é hoje.

Desde 1988, um país é convidado para ser o centro da feira do livro. Por exemplo, cada país pode apresentar todas as vertentes da sua literatura nacional, desde os grandes autores nacionais até os menos conhecidos. Isso não é fantástico?! Esse ano é a vez do Brasil ser o centro da feira. Meu deus, que lugar incrível!

Pego o meu celular para mandar uma mensagem a René avisando sobre minhas atividades do dia, e aproveito para mandar uma mensagem para Charles. Eu sei que ele não é muito chegado a livros, mas eu gostaria muito de estar compartilhando essa experiência com ele.

Charles. Ele tem virado a minha vida de cabeça para baixo. E acho que estou gostando disso.

Você gosta dele, isso sim. Fala a minha consciência. Eu não sei, mas acho que está na hora de começarmos a sair com outras pessoas. Tirando o episódio com o Callum, não tenho saído com mais ninguém, e o meu plano de pegadora está indo água a baixo. Não quero criar ilusões, sei que Charles sempre vai ser  mulherengo. Eu não posso, e nem quero me apaixonar. Não por ele.





Charles

"Você ainda não contou sobre Charlotte?", fala Arthur com um tom acusatório.

"Eu queria ter dito, mas não consegui. Ela estava feliz por conta da feira em Frankfurt, não queria estragar as coisas para ela. Eu sei que nós não temos nada sério, e uma hora ela vai começar a namorar aquele Callum e teremos que parar de transar. Vai ser uma merda, mas eu quero preservar a nossa amizade".

"Olha, você é mais burro do que eu pensei. Se ela começar a namorar outra pessoa, foi porque VOCÊ permitiu. Para de ser bundão e fala para ela. Vocês dois vivem falando que não é nada sério, mas vai por mim, isso já está sério". Arthur tem toda a razão, e isso faz com que o meu coração se afunde mais ainda em meu peito. Eu prometi para ela que isso não iria passar de algo banal.

"Você não sabe o que tá falando...", digo na defensiva. E acho que Arthur não sabe mesmo.

"Charles, todo mundo tem percebido que algo está rolando entre vocês dois. Você a olha como se fosse apaixonado por ela. E sinto lhe dizer, mas acho que essa paixão é de ambos os lados. E aí, o que você vai fazer? Vai deixar a pessoa que pode ser a mulher da sua vida escapar, e ter que vê-la com outro? Ou você vai acabar com essa palhaçada por agora e dizer o que sente?"

"Para. Você tá complicando as coisas para mim. Eu prometi que não ia deixar isso passar de um caso, e que éramos livres para sair com outras pessoas. Isso não vai mudar nossa amizade! Não se eu não deixar". Arthur, como o idiota que é, começa a ri do meu desespero.

"Olha, essa é a primeira e a última vez que vou te falar isso: acorda! A amizade de vocês já mudou, e nunca mais vai ser a mesma. O que você acha que vai acontecer se um dia ela entrar em outro relacionamento, casar e ter filhos? As prioridades serão outras, você não vai ser mais o centro da vida dela,  e ela não será mais o seu. Ou você acha que o futuro relacionamento dela iria gostar de não ser a prioridade dela?". Ai

"Eu não ia gostar de estar com ela, mas outro homem ser sua prioridade. Por mais que seja amigo..."

"E conhecendo a Marcella, ela sacrificaria qualquer coisa para te ver feliz, nem que pra isso ela tenha que sacrificar outros relacionamentos e ficar sozinha, por sua causa"

"Eu to confuso. Isso me assusta pra caralho"

"Tudo bem, mas trata de se decidir rápido, pois algum Callum da vida pode a  levar embora da sua vida. Para de ser medroso e enfrenta as consequências dos teus atos. A decisão é sua, e apenas sua."

Um ataque de pânico tem como sintomas tontura, falta de ar, coração acelerado, medo excessivo e a sensação de morte eminente. Acho que neste exato momento estou tendo um, pois as palavras de Arthur acabaram de abalar tudo o que eu acreditei até agora.

Respira, inspira. Respira, inspira. Vai ficar tudo bem.

O meu melhor amigoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora