Vila Magnólia, São Paulo — 15.10.1989
Querido desconhecido de camisa xadrez,
Desisti de arranjar desculpas para lhe escrever. Talvez, se um dia eu descobrir o seu endereço, eu envie todas essas cartas por correio. Isso pode demorar. Até lá, talvez você esteja com cabelos brancos e rodeado de crianças pentelhas. Se a mais nova dentre elas puxar seus cabelos, sei que vai sorrir em resposta, mesmo que eu não o conheça. Porque, na minha imaginação de jovem observador, você me parece gentil.
É egoísmo demais da minha parte desejar ver um sorriso seu?
Espero que não ache estranho se, depois de tanto tempo escondido atrás desse amontoado de palavras, eu decida entregá-las. Espero que trate com algum carinho esse garoto que você nunca conheceu. E espero, sinceramente, que você não esteja sozinho nesse futuro não muito distante.
Eu espero que tenha alguém para segurar a sua mão no final do dia.
『▪▪▪』
O clube de teatro ganha vida todas as terças e quintas-feiras.
Foi naquela casa simples, afastada da cidade e com o aluguel mais barato da região, onde seis jovens descobriram que podiam ser eles mesmos. Sem rótulos, sem expectativas. Onde, além de tudo, podemos ser quem quisermos. No começo da semana, posso ser o Gene Kelly de Vila Magnólia, brilhando sobre aquele palco improvisado. Ou posso apenas ser um Caio que ama dançar ao som de uma música que ninguém mais ouve. Posso até ser um cantor, se eu quiser. Mas não garanto que serei dos bons.
Hoje quem está dançando é a Babi. A garota puxou uma cadeira para perto da mesa onde costumamos jogar cartas, quase se desequilibrando ao fazer uma pose digna de fim de coreografia, imitando John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite. Agora, ela move seu corpo como se não se importasse de estar passando vergonha. Ben liga o rádio, mas sou eu que começo a bater palmas primeiro. Felipe coloca as mãos em concha perto da boca e grita um elogio, incentivando os outros a fazerem o mesmo.
De repente, todos estão dançando, e não sei ao certo como Henrique foi parar lá em cima. Ele se remexe de um jeito engraçado, mesmo que dançar em cima da mesa não seja um de seus desafios semanais. Até a semana seguinte, o rapaz deve frequentar uma igreja e evitar comer pastel. Fico feliz por ele ter sorteado uma das minhas sugestões, já que não é nada impossível de ser feito.
Quando a música para, tiro do bolso os meus dois papéis sorteados — um de algo que preciso fazer, outro de algo que não posso fazer — e me pergunto por que, de todas as pessoas, é no garoto da estação de trem em quem penso ao ler a primeira frase.
"Eu nunca beijei um garoto"
A segunda, tão difícil quanto a primeira, foi escrita pelo garoto dos cabelos de tigelinha, Henrique Bittencourt.
"Eu já menti"
Só então compreendo o quanto sou um mentiroso nato, tendo em mente o quanto dizer apenas a verdade por uma semana inteira será difícil.
Felipe também parece preocupado com um de seus desafios, e algo me diz que não se trata de escalar o Monte Everest. Ele tira do bolso da jaqueta um maço de cigarros — o último daquela semana — e se despede do seu vício da pior forma possível: alimentando-o ainda mais. Ele prende o cigarro entre os dedos daquele jeito descolado que só ele consegue fazer, e logo desaparece porta afora para que a fumaça não incomode.
— Acho que veremos o corpinho esbelto do Huang na semana que vem — comenta Carlos, arrancando de Babi uma risada. — Ele pode até escalar o Everest, mas aposto que não fica nem três dias sem o cigarro.
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Querido Bernardo
RomanceSão poucas as pessoas que tiveram a oportunidade de vivenciar um grande amor, e menos ainda as que tiveram a chance de compartilhá-lo. Nas cartas amareladas e em sua máquina de escrever, Caio conta sobre o herói, e também sobre o clube de teatro. Co...
