Vila Magnólia, São Paulo — 15.11.1989
Querido Bernardo,
Sinto sua falta. Como nunca senti de ninguém.
Demorei cerca de vinte minutos só para escrever essas três primeiras frases, porque estou ocupado demais olhando para o teto e pensando em você. É difícil escrever com as folhas amassadas contra as coxas, nessa posição esquisita de joelhos dobrados, mas eu simplesmente não posso evitar. Eu gosto de pensar em você. E me pergunto se você está pensando em mim também.
Me pergunto que música você coloca para tocar em seu Walkman ou no rádio quando faz isso, ou se fecha os olhos como eu faço. Eu estou sempre tentando formar a imagem do seu rosto na minha cabeça, e às vezes me assusto quando não consigo enxergá-lo com clareza. Mas, na maioria das vezes, eu consigo vê-lo muito bem.
Eu imagino nossos beijos. Vejo seu sorriso. Me perco por vários minutos lembrando da sensação da sua mão na minha. É incrível, Bernardo.
Acho que estar apaixonado é assim. Incrível de muitas maneiras diferentes. Você se sente leve, e ao mesmo tempo mais pesado, por estar carregando um outro alguém dentro do peito. E você começa a ver beleza onde não via antes. Nas luzes coloridas da cidade à noite, ou em um pôr-do-sol alaranjado quando volta para casa no fim da tarde, olhando a paisagem da janela do trem.
Eu me lembro de colocar meus fones de ouvido pela primeira vez ao pensar em você. Estava tocando All My Loving. Os raios de luz escapando das persianas num domingo de manhã nunca me pareceram tão bonitos como naquele dia. Eu ouvi outra, e outra, e outra.
E, de repente, todas as músicas de amor pareciam ser sobre você.
『▪▪▪』
Theo está sentado na calçada com seu caminhão de brinquedo. Parece uma eternidade desde que eu o vi pela última vez.
Ele faz sons de aceleração e roncos de motor conforme arrasta o veículo de plástico pela rua pavimentada, para frente e para trás. Ele é ótimo naquilo. Quando me sento, ocupando um espaço nada discreto ao seu lado no meio-fio, ele rapidamente deixa o caminhão e avança sobre as minhas costas, tentando se pendurar em meu pescoço.
Aquilo me deixa feliz. Crianças não abandonam seus brinquedos por qualquer um.
— Como vai, garotão? — eu cumprimento, rindo enquanto tento segurar suas pernas escorregando pelas laterais do meu corpo, antes que ele possa cair. — Sentiu minha falta?
Ele não responde, mas posso senti-lo balançando a cabeça. Theo não admite seus sentimentos com facilidade. Tento olhar para ele, mas o garotinho ainda está agarrado às minhas costas. Preciso utilizar métodos mais eficazes para chamar a sua atenção.
— Eu trouxe um presente pra você — digo, e ele rapidamente me solta e dá a volta, sentando sobre uma das minhas pernas. Ele parece mais interessado do que nunca no embrulho prateado escondido no bolso do meu moletom. — Mas... — eu continuo, apenas para provocá-lo. — Em troca do presente, você vai ter que me dar o seu nariz.
Eu estico a mão e aperto seu nariz de leve com os dedos, como se quisesse roubá-lo. O rapazinho faz uma careta engraçadinha e tenta me afastar, empurrando meu braço para longe.
— Não, não pode. Você não pode pegar o meu nariz.
— Por quê? — pergunto, ainda rindo. Ele cruza os braços e faz uma expressão emburrada, como se estivesse muito bravo. Como ele não responde de imediato, eu o cutuco na barriga algumas vezes. — Por que, hein, Theo? Você precisa dele pra respirar?
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Querido Bernardo
RomanceSão poucas as pessoas que tiveram a oportunidade de vivenciar um grande amor, e menos ainda as que tiveram a chance de compartilhá-lo. Nas cartas amareladas e em sua máquina de escrever, Caio conta sobre o herói, e também sobre o clube de teatro. Co...
