Recomeço

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Encarei a cidade que se descortinava à minha frente, envolta nas brumas do início de manhã. Os prédios comerciais se destacavam contra as construções mais baixas ao redor, mas o verde era o que dominava a cidade na forma de parques e praças bem cuidadas, deixando a cidade grande com cara de interior.

Um arrepio percorreu todo o meu corpo enquanto eu encarava o lugar que eu moraria ao menos pelos próximos cinco anos. O nervosismo retorcendo meu estômago dizia que eu não tinha a menor ideia do que poderia encontrar e isso era incrivelmente excitante.

Um recomeço.

Respirei fundo apertando o vidro da janela do ônibus com os dedos como se assim ele pudesse andar mais rápido e me deixar logo na rodoviária para iniciar a nova jornada, uma que me levaria não só a conhecer aquela cidade, mas a mim mesma.

Respirei fundo e continuei olhando pela janela enquanto a cidade se aproximava mais e mais.

Depois de algum tempo andando pela cidade que me era totalmente desconhecida, o ônibus parou no imenso terminal rodoviário e tratei de pedir um Uber para o endereço onde eu passaria a morar.

Paramos diante do prédio azul sem grandes atrativos com pequenas varandas e um estacionamento coberto com capacidade para vinte veículos. Apenas três vagas estavam sendo usadas, em uma havia um carro branco e grande, em outra um sedan preto e na última tinha um carro vermelho que mesmo parado dava a impressão de ser muito veloz e caro, destoando bastante da construção simples e do bairro majoritariamente universitário.

Toquei o interfone do apartamento que procurava e uma voz feminina atendeu depois de eu ter apertado o botão cerca de trinta mil vezes.

— Oi — murmurou, sonolenta.

— E aí, vai me deixar plantada aqui fora? — cutuquei com um sorriso e esperei. Por três segundos, tudo o que ouvi foi o silêncio abissal.

Logo em seguida, uma cabeça com o que parecia um turbante roxo apontou em uma das janelas do terceiro andar.

YASMIN! — berrou tão alto que os pássaros empoleirados nas árvores na calçada alçaram voo, desaparecendo na direção do sol nascente.

A minha amiga olhou para baixo e deu mais um gritinho antes de voltar para dentro. Ela apertou o botão que liberaria a minha entrada e a porta de metal fez um som engraçado ao abrir.

O prédio era bastante simples, com um pequeno saguão pintado de branco,  piso de pedra fria e a escadaria do mesmo material que levava para andares idênticos com quatro portas em cada.

Tati me encontrou no meio do caminho para o apartamento que passaríamos a dividir e me abraçou com força, rindo. Ela me soltou e se afastou um passo.

— Meu Deus, você tá linda — elogiou me analisando de cima a baixo e eu também ri.

— Depois de quase vinte horas de viagem? Devo estar linda mesmo — brinquei soltando o cabelo do coque bagunçado e ajeitei a franja com a ponta dos dedos.

Tatiele gargalhou com sua risada alta e gostosa, me fazendo sorrir ainda mais.

— Mas você tá linda mesmo — elogiei Mordi o interior da bochecha, mas não conseguiu impedir o sorriso. — Até com esse negócio na cabeça.

Ela riu e fez um bico com os lábios fartos, posando como se para uma foto de capa de revista e eu ri outra vez. As coisas não eram tão engraçadas assim, mas eu estava eufórica de reencontrar a minha amiga depois de oito anos desde a última vez que nos vimos pessoalmente. Conversar pela internet era legal, mas nada se igualava à sensação de estar a meros centímetros de uma amiga querida.

Rosas Azuis [CONCLUÍDA]Histórias para pegar e não largar. Descubra agora