MARCOS
No percurso para o jardim, sou presenteado pela bela visão do traseiro de Luiza, capaz de hipnotizar um homem. Aliás, se as coisas continuassem nesse rumo, eu ficaria hipnotizado. Essa bruxinha tem o poder de me tirar da minha zona de conforto, agitar meu espírito, coração e corpo. Tudo nela é vida. Animação é com ela. Ninguém fica imune aos charmes de Luiza. Estou sendo enredado por esse desejo louco de beijá-la.
— Bem… chegamos! — ela diz toda alegre, arrancando-me dos pensamentos.
— E agora? — perguntei, querendo saber o que ela aprontou para mim.
— Agora, vamos fazer um piquenique! — ela fala, apontando para a toalha, juntamente com uma cesta, que ela havia colocado debaixo de uma árvore. A animação faz seus olhos brilharem. Eu não consigo dizer não para tudo isso. Mas não deixo barato, continuo provocando-a:
— Quero só ver como você vai fazer para me tirar dessa cadeira e me colocar na toalha…
— Está duvidando de mim?
Levanto uma sobrancelha e torço os lábios em deboche.
— Pois saiba que tenho muita força! Como é que acha que eu fiz para pagar os cursos de fotografias para me tornar fotógrafa profissional? Trabalhei muito no estoque das fábricas, carregando sacos em caminhões. Era o único serviço que eu encontrava vaga pela minha cidade natal, que é pequena.
— Eu não sabia disso — a frase escapa de meus lábios, antes que eu possa mudar meu tom de pesar.
Ela engole seco, olha para mim orgulhosa e diz:
— Nem precisava saber. Deixe isso para lá e vamos nos divertir, ok? É para isso que o trouxe aqui. Venha, vou ajudar você a sentar na toalha.
Luiza estende as mãos, me apoia em seus braços e, quando vai me colocar na toalha, perde a força e o equilíbrio, me deixando cair deitado no chão. Eu a seguro pelo braço e ela cai estirada sobre mim, olhos nos olhos, corpo a corpo. Sua boca é tudo o que penso nesse momento. Cinco dias foram demais sem vê-la. Agarro-a e beijo-a com toda a paixão que surge de dentro de mim. Nossas respirações se aceleram, nossas mãos passeiam pelos nossos corpos, o calor do desejo aumenta a cada segundo em que nossas línguas se encontram. Minhas pernas estão mortas, mas outras coisas não estão…
Tomada de susto e ainda no controle da razão, Luiza deixa meus lábios e sai de cima de mim. Sentada sobre a toalha, os olhos virados para o gramado, ela respira fundo. Fico observando-a por alguns minutos e acabo com o silêncio.
— Luiza…
— Não diga nada — ela interrompe, voltando seus olhos para mim. — Esquece isso.
— Ok.
Luiza pega rapidamente sua máquina fotográfica e tira uma foto minha de surpresa.
— Ei! Venha cá sua bruxinha! — digo, pegando-a pelos braços, derrubando-a ao meu lado.
Ela começa a rir feito criança. Sabe que não gosto de fotografias. Não resisto e faço cócegas em sua barriga. Sua risada aumenta mais ainda. No final das contas, estamos nós dois rindo feito crianças.
Aos poucos, vamos ficando sem fôlego de tanto rir. Ficamos sérios e nos fitamos. Sentimentos complexos se confundem dentro de mim.
— Você não acha que uma risada dessa merecia uma foto? — ela pergunta.
— Tarde demais. A risada acabou — respondo.
— Será mesmo que acabou?
Mal ela me provoca com essa pergunta, já vem me fazendo cosquinhas. Não aguento e começo a rir. Ela tira uma foto rápida de meu sorriso.
— Prontinho — ela diz, sorrindo.
— Ah, não! Pode apagar! Sabe que detesto fotos! — resmungo.
— Sei? É mesmo?
— Ora, não me provoque! Pelas minhas reações, você deveria saber, não é?
— Sei agora, porque você está me contando. Bem que você podia me contar mais sobre você. Eu gostaria de saber — ela fala, com um olhar pidão direcionado a mim.
Oh, céus! Onde fui me meter! Não resisto a nada que venha dessa mulher.
— O que quer saber? — pergunto, impaciente.
— Você tem namorada?
— Como é que você acha que eu poderia ter? — respondo, brutamente. O que ela quer? Humilhar-me? Ela sabe muito bem que as mulheres não querem metade de um homem. E é isso que sou, nessa maldita cadeira de rodas, sem poder mexer as pernas! Nem sei se outras partes minhas não foram afetadas também.
— Calma, Marcos! Não precisa ser assim tão mal humorado! Por acaso, você acha que não poderia ter uma namorada?
— Mas é claro! Até parece que você não acha! Qual é a mulher que vai querer metade de um homem?
— Metade de um homem? Eu vejo um homem inteiro em minha frente.
Ela diz essa frase, olhando em meus olhos com uma ternura que nunca vi em mulher alguma. Sinto a emoção atingindo meu coração.
— É isso o que acha? — pergunto, querendo sua confirmação. Não posso acreditar no que ouvi.
— Não. É isso que é.
O que? Como ela pode dizer uma coisa dessas? Ela não vê que eu estou preso numa cadeira de rodas? Tenho vontade de dizer tudo o que está em minha mente, mas não o faço.
— Você não entende — digo, apenas.
— Não. Você não entende — ela responde. — Você tem sua mente, alma e coração. Você tem vida.
— Vamos parar de falar nisso, tá? Não quero brigar de novo com você.
— Tudo bem. Por hoje.
VOCÊ ESTÁ LENDO
De Volta à Vida
Short StoryEle, um cadeirante revoltado e isolado. Ela, vem para "balançar seu mundo". Juntos, viverão uma história de amor e superação.
