Prólogo - Fragmento

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 Três anos antes.

 Eu dormia profundamente, perdida no sonho desenhado em meio as cores vivas de um mundo mágico. Fadas, com suas asas douradas e finas como papel, dançavam, rodopiando por todos os lados ao redor da clareira da floresta encantada, felizes ao som da música. Os gnomos, com sua pele esverdeada, ofereciam bebidas para as belas princesas que conversavam alegremente umas com as outras, cada uma trajando um maravilhoso vestido cintilante de uma única cor: Azul-marinho decorado com conchas, laranja pôr-do-sol como as folhas de outono, um rosa bebê decorado com pérolas.

Nada de príncipes. Eles eram estritamente proibidos.

Exceto um; um intruso de cabelos escuros que adorava invadir não só os limites da floresta, como também meus sonhos. Meus tão aguardados e preciosos sonhos.

Eu amava sonhar. Esperava com ânsia pela hora de dormir todos os dias, me perguntando em qual cenário eu cairia dessa vez.

Sonhos como esse, mágicos, eram os meus preferidos. Um mundo repleto de fantasia, onde nada de ruim acontece. Nenhum monstro, bruxa ou gigante que pudesse nos ameaçar. Que pudesse nos machucar.

E mesmo quando apareciam, não era um problema para mim. Eu era forte. A mais poderosa dos reinos. Invencível, com poder o suficiente para acabar com qualquer mau que ousasse perturbar meus sonhos.

Só que sonhos não duram para sempre. E, uma vez que você acorda, não importa quantas vezes volte a dormir, nunca é o mesmo. Ele muda constantemente.

Muitos que acreditam, dizem que os sonhos são imagens dos desejos guardados no subconsciente da nossa mente. Sigmund Freud foi um desses. Ele dizia em seu livro A interpretação dos Sonhos, que o sonho nada mais é do que, de uma forma simples, ''a satisfação de que o desejo se realize''.

O que me leva para a pergunta: Se sonhos são nossos desejos mais profundos, o que os meus significavam?

Demorei muito para encontrar a resposta.

Acontece que, a não ser pela morte, você sempre será obrigado a voltar para a realidade, por mais dura e difícil que fosse. E já estava chegando a minha hora.

De repente, o sonho mudou: uma imensa nuvem negra surgiu, cobrindo o vasto e caloroso azul do céu, anunciando a tempestade. Foi quando surgiu o primeiro raio, um rojão de luz e força, derrubando e destruindo qualquer coisa que tocava. Outros se manifestaram, seguindo o exemplo do primeiro, e logo todos corríamos em busca de abrigo. O caos se alastrou. Um raio maior se materializou no centro, deixando um enorme buraco na terra. Fumaça saía dele. Eu observei, em choque, a grama encolher a partir dos meus pés, adquirindo um tom amarronzado, murchando e se espalhando pelo resto da floresta. Árvores podres e quebradas caíam.

Morte pairava por todos os lados.

Eu escutei os gritos de socorro das princesas e vi cada uma sendo perseguida por gnomos enlouquecidos. Eles avançavam com os dentes a mostra, prontos para enfiá-los em suas carnes. Não demorou muito para que os únicos resquícios de que realmente existiram fossem seus vestidos, transformados em trapos rasgados. Uma por uma, as fadas viraram pó de cinzas, sobrevoando na grama morta.

Nenhum príncipe a vista.

As imagens do sonho começaram a desbotar, derretendo, como lágrimas de tinta-á-óleo escorrida na tela de uma pintura. Eu estava paralisada no lugar, sem conseguir mexer um músculo. A sensação de pavor e desespero tomando conta de mim.

Meu sonho se tornou um pesadelo.

Um grito se formou em minha garganta, e eu berrei como nunca antes.

Sob Céu e EstrelasOnde histórias criam vida. Descubra agora