Oh, flor.
Desculpe, mas eu não me arrependo.
Eu estava olhando para as fotos, os fatos, relembrando as felicidades... Um ano. Eu não me arrependo.
Poderíamos discutir nossos por menores, resolver nossos problemas, mas deixamos tudo isso para trás junto com a poeira quando ela abaixou.
Eu tive tanto para dizer, para me arrepender e para chorar por me sentir pequena ou grande demais. Agora, é mais fácil admitir. Nós deixamos isso para trás, e sempre soubemos que não voltaria.
Eu não me arrependo!
Eu sei, parece loucura. Não foi uma troca equivalente, pensamos – pensamos sim, pois eu pensei isso com você quando você me disse sobre – e eu quis dizer que você estava certa. Eu disse, inclusive. Mais vezes do que a veracidade me permitia e isso foi meu erro.
Eu deixei você acreditar que isso não ia acontecer, mas eu deixei porque estava com medo de você. Da sua reação, da sua descarga, dos seus conceitos e dos julgamentos. Hoje eu sei porquê, no entanto, antes? Antes eu me mijei de medo. Eu balancei-me na cama, sem sono, chorando algo que eu não sabia o que era, era a perda? A sensação de que eu era uma puta buscando uma rola? De que eu estava trocando algo inestimável por um momento adolescente?
Acontece, flor, que nossa relação não era um jardim do Éden. Eu achei o máximo que era em uma ilusão de que estava vivendo o melhor que a vida tinha a me oferecer, mas sabemos que éramos bem menos do que essa utopia. Humanos, eu diria.
Eu até avisei, disse que estávamos buscando pelo que era certo para cada um de nós: eu, você, ele. Mas eu digo seu erro também: você não quis saber. É, você sabe disso. Você se sentiu traída e no direito de querer explicações sem querer recebê-las. Você quis desculpas, eu disse o que você queria ouvir, então depois você me chamou de mentirosa. Flor, você também fez isso. E você sabe.
O problema é que você é uma pessoa de bem, não é? E eu, bem, eu sou eu. Apenas eu, uma pessoa de não muito bem. Uma não amiga, uma antítese, um paradoxo, uma mentira.
O erro foi nosso, mas não fui eu que não quis ouvir. O erro foi nosso: meu, seu e dele. Você não quis saber. Você quis fingir essa porra de papel de uma pessoa de bem, ou ser esse papel do jeito tapado que só você sabe fazer.
E quer saber, flor? Eu não me arrependo. Porque agora eu sei muitas coisas: minhas, suas e dele. Agora eu sei bem o que estava em nosso caminho e, no fim, não, não era ele.
Eu pensei várias vezes em lutar contra a vontade de não querer falar mais sobre, mas quer saber? Faz um ano e eu não me arrependo. Eu não quero mentir mais, não quero fingir mais e não quero me submeter mais. Eu sou mais do que você sempre achou, ou rejeitou sem querer – ou querendo, desconsiderando que você é uma pessoa de bem. Eu sei que vou tratá-la esquisito, flor, e você vai rir de mim deixando tudo passar. Você nunca foi igual a mim e a ele, para você isso não é um fardo nas suas costas mesmo que você fizesse minha preocupação esperar isso.
Eu queria que você me dissesse que é mentira e me provasse o contrário. Mas eu não quero mais tanto assim – eu não preciso mais disso. Eu não me arrependo. Eu esperava que você me dissesse mais e que mostrasse a profundidade do peso das suas palavras do começo: "ambiente familiar", "nunca exige nada para provar sua amizade", "não reconheço mais você, e tento achar quem você era". Mas você só levou tudo na brincadeira depois, na leveza da sua "felicidade".
É, flor, os privilégios de nascer você e não eu. Por esses e mais, eu não me arrependo. Sabe porquê? Eu achei algo que você não poderia me dar mesmo que quisesse: eu mesma. Eu cresci como prometi que cresceria. Estou crescendo como prometi, aos meus trancos e barrancos.
É, eu, infelizmente, não me arrependo nenhum pouco.
Eu ganhei a mim e a ele.
Sim, o problema nunca foi ele. E você talvez saiba disso.
Não, não foi ele.

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Freedom
Non-FictionOnde o grito surge como o uivo de um lobo. Uma busca insaciável por ser livre de correntes que prendem palavras. Coletânea de desabafos. #1 liberte-se 27 de maio de 2021