Juliette decidiu não refletir sobre os inúmeros acontecimentos da noite anterior, sendo ativista a muitos anos, noites de protesto geralmente rendiam, mas aquela noite rendeu mais que qualquer uma.
Seguiu sua rotina matinal diária, mais nervosamente do que de costume, tomara um café preto puro sem sentir fome, escovou os dentes e saiu de casa.
A rotina seguia normalmente até o momento que passou da recepção chegando na área comum também usada como refeitório da ONG que trabalhava.
_Gente! Chegou a musa da corporação!_ Lucas afirmou abrindo um sorriso que sempre era capaz de melhorar o dia de Juliette mas nesse momento deu a ela a vontade de se enterrar.
_O-oi?_ Juliette corou aos olhos de todos presentes, Lucas, Thaís e Carla.
_Ju, eu tava falando de ontem! _ Lucas a convidava a complementar a história, provavelmente sedento pelas partes que o mesmo desconhecia.
_Vai Ju! Fala tudo!_ Foi a vez de Thaís incentivar.
_Eu não me lembro!_ Disse, torcendo pra que ninguém percebesse a mentira. Claro que ela se lembrava de tudo mas seu melhor amigo não sabia da maior parte da noite.
_Então gente como eu tava dizendo, parece que uma ligação da Ju pode livrar alguém da prisão...
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FLASHBACK
Horas antes
_Ju! Eu só tenho uma ligação e pra quem mais eu ligaria? A loucura é que eu imaginei que você estaria aqui! Mulher, pra onde te levaram?_ Lucas disse num rompante enérgico que Juliette assimilou apenas a metade das informações.
_Lucas, olha, eu estou em outro lugar, mas espera, vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, né?_ Sarah entendeu que a confirmação era com ela e silenciosamente fez que sim com a cabeça.
_Enfim, me espera! Pra que ter uma melhor amiga advogada não é mesmo?_ Juliette riu sem humor e Lucas do outro lado não sentia a mínima confiança.
_Amiga, eu só quero saber se você está bem. Eu tô fodido, aliás eu sempre estive não é mesmo?_ Juliette conhecia Lucas bem o suficiente para filtrar o desespero mas para qualquer desavisado seu tom pareceria quase irreverente.
_Eu tô! Nós estamos, aliás, nós vamos ficar bem! Eu prometo!_ Juliette dava o melhor de si em promessas que ela não sabia se seriam realmente cumpridas.
A ligação fora cortada abruptamente e Juliette supôs que era o tempo determinado.
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Haviam duas coisas que Sarah aprendera a odiar em todos os anos como policial, a primeira era pedir um favor e a segunda era dever um favor.
De alguma forma Juliette a fizera passar pelas duas provações no mesmo dia.
_Delegada Karol Conká. _Sarah dera o seu melhor para parecer agradável e casual apesar da bizarrice da situação.
_Sarah Andrade, a que devo a honra?_Karol atendera rápido e Sarah não se sentiu melhor com isso.
_ Então, acredito que meus homens, Caio, Rodolffo, talvez o Dilson, tenham levado um rapaz praí, Lucas Penteado o nome dele.
_Oi, Sarah. Tem muita gente aqui você sabe como é dia de protesto, mas o Rodolffo passou por aqui sim. Ele vem sempre que pode né.
Sarah decidiu ignorar a insinuação óbvia.
_Então, eu vou ter que pedir pra você liberar o rapaz, ele é amigo de uma grande amiga minha, foi bobeira, vinagre na mochila. Aliás, nunca querendo desmerecer o trabalho dos meus homens mas ele é alguém que poderia ser melhor instruído e você sabe como são essas coisas, né Karol?_ Sarah se esforçava pra não permitir que Karol percebesse sua preocupação, Karol se aproveitaria disso se percebesse.
_Entendi, olha Sarah você vai ficar me devendo uma, fala de novo o nome do rapaz._ Karol parecia totalmente entediada.
Sarah repetiu o nome de Lucas e encerrou a ligação agradecendo a delegada.
Na delegacia Karol solicitou que trouxessem Lucas até a sua sala. O rapaz estava muito nervoso e evitava contato visual. Sentou-se na cadeira em frente a delegada e parecia a ponto de tremer.
_Você deve ter bons amigos lá fora, a Sarah Andrade pediu pra te liberar e eu só vou fazer isso como favor pra ela.
_Quem é Sarah Andrade? _ Lucas se questionou erguendo o olhar e se arrependeu segundos depois da pergunta, afinal não era bom questionar alguém que tinha acabado de salvá-lo.
_Não interessa. Tá dispensado, e olha, tenta não voltar aqui.
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_Você confia em mim?_ Sarah estava séria com aquele olhar penetrante que faria Juliette esquecer o próprio nome.
Pela milésima vez na noite Juliette se encontrava incrédula. Sarah havia feito uma ligação após a ligação que a mesma recebera e essa era a única garantia que tudo ficaria bem com Lucas e contra todas as possibilidades Juliette se sentia inclinada a confiar.
_Sim, eu quero confiar em você._ Juliette optou pela sinceridade.
_Eu entendo que o clima morreu, mas, eu posso levar você em casa?_ A postura de devoradora de Sarah desaparecera e ela beirava a insegurança.
Juliette estava esgotada do carrossel de emoções, ela só queria ir pra casa, dormir e ignorar tudo que acontecera.
_Não, me deixa aqui mesmo._ Disse sem pensar no lugar onde se encontravam.
_Eu meio que te trouxe pro meio do nada, tudo bem não querer me dizer onde você mora mas deixar uma mulher indefesa é contra tudo que eu acredito._ Sarah disse desviando o olhar e coçando a cabeça e foi o mais próximo de estar sem graça que Juliette já a vira.
_Ok, eu vou te dizer a minha rua, existem três prédios muito próximos, mas você vai dar meia volta sem ver qual é o meu, ok?
_Isso não faz sentido, eu posso pedir pra qualquer funcionário do TI me dizer onde você mora a hora que eu quiser_ Sarah não queria soar como stalker mas a mesma imaginava que era ingenuidade de Juliette não imaginar que ela poderia ter a informação que desejasse.
_Mas o ponto não é esse, é? Eu nunca te procurei em nenhuma rede social, mesmo sabendo seu nome todo, eu sempre pensei que se você realmente quisesse algo não exigiria tanto esforço. _Juliette agora soava magoada.
Sarah se sentiu atingida por uma bala de canhão, primeiro porque nunca pensara nos efeitos de suas sumidas repentinas e segundo porque nunca pensara que poderia possuir e perder tão rápido uma mulher como essa.
_Ok._ o silêncio era retumbante.
Como prometido ela levara Juliette até a esquina de casa e seguira de volta para o batalhão sem olhar para trás.
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Ilegal
Roman d'amourOnde Juliette Freite, advogada e militante dos direitos humanos tem sua vida virada de cabeça pra baixo depois de se apaixonar por Sarah Andrade, major da polícia militar, será o amor capaz de superar as crenças pessoais de ambas?
