Às quatro da tarde eu já estava completamente pronta para encontrar a Cel. Pedi um táxi, já que o Agnaldo precisou levar minha mãe à nutricionista.
O Rio de Janeiro é tomado por táxis — essa frota amarela com a plaquinha iluminada no teto sempre me lembrou as grandes metrópoles no exterior, e eu sinceramente adoro esse charme urbano.
— Qual o destino? — perguntou o taxista, me observando pelo retrovisor.
— Barra Shopping, por favor — respondi.
Quando o táxi finalmente encostou na entrada do shopping, paguei o motorista às pressas sem nem receber o troco. Corri direto para o Starbucks.
— Que demora! — reclamou Celeste no instante em que puxei a cadeira para me sentar.
— Então...? — Apoiei as mãos na mesa, tentando recuperar o fôlego. — Desembucha...
— Kath... — Celeste segurou minhas mãos com força. A expressão em seu rosto era tão grave e abatida que meu estômago embrulhou na hora. O pior passou pela minha cabeça. — Eu estou doente!
Puxei minhas mãos de volta quase num reflexo. Meu coração parecia ter saltado pela boca.
— D... doen... doente...? — Meus lábios tremeram, e a voz mal saiu. — O que você tem?
— Eu tenho dor! — Celeste cobriu o rosto com as mãos, dramatizando cada segundo.
Ver Celeste encolhida na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos e quase esmagando os meus dedos, me deixou num estado de tensão absurdo. Achei que mal conseguiria pronunciar uma palavra sem gaguejar.
— Eu estou apaixonada! — Ela fechou os olhos com força.
O suspiro que soltei quase me esvaziou os pulmões. Parecia que tinham tirado uma tonelada das minhas costas. Não era uma doença terminal, não era uma tragédia familiar. Ela só estava apaixonada.
— Cel... — chamei baixinho. — Ela abriu levemente o olho direito, encolhida na cadeira. — Olha para mim — pedi.
Ela abriu os dois olhos devagar. Por um segundo, vi em seu olhar uma vontade imensa de levantar e sair correndo de pura vergonha. Celeste nunca tinha se apaixonado; ninguém no nosso grupo jamais imaginou que isso aconteceria com ela, e acho que nem ela mesma acreditava que esse dia chegaria.
— Não precisa ter vergonha — continuei, como se estivesse lendo exatamente o que se passava na cabeça dela. Não havia razão para aquilo. — Você não precisa ter vergonha alguma. Eu sei que essa coisa de amor nunca foi muito a sua praia, mas quando você descobre... é mágico. Você sabe que é a pessoa certa, sabe que quer passar o resto da vida ao lado dele. Isso é motivo de se orgulhar, não de se esconder.
Sinceramente, não conheço ninguém melhor do que eu para tentar acalmá-la nesses momentos, mas a resposta dela me cortou o coração.
— Dói tanto... — Os olhos dela encheram de água, e por alguns segundos achei que ela fosse desabar no meio do Starbucks. Sofrer por amor parecia uma humilhação para Celeste, algo que ela jurava que nunca passaria. — Parece que tem um monte de gente pisando e apertando meu coração.
Lágrimas finas começaram a descer pelo rosto dela. Ela olhou ao redor, claramente arrependida de ter escolhido um lugar tão público para desabafar.— Eu não achei que fosse me apegar tanto... Você, mais do que ninguém, sabe que eu não me apego a ninguém!
Fiquei ali, escutando cada palavra com a maior atenção do mundo. Vendo que eu estava totalmente entregue à conversa, Cel decidiu finalmente me contar a história de como tudo começou.
— Bom... eu estava ficando com o Patrick, aquele loiro gatinho da escola que eu já comentei com você. Aí, quando eu fui para a casa dele...
A encarei séria, com o olhar focado, e a interrompi antes que ela continuasse:
— Vocês não fizeram aquilo, não, né?
Celeste me olhou como se eu tivesse acabado de confessar um crime. Ou como se eu fosse a pessoa mais ingênua da Terra.
— Hellouuu?! — Ela estalou os dedos bem na frente do meu rosto, soltando um sorrisinho debochado ao ver minha reação. — Estamos no século 21, Katherine! Eu faço sexo, mesmo!
A franqueza dela me pegou totalmente desprevenida.
— Continuando... — Cel revirou os olhos e retomou o fio da meada. — Eu fui para a casa dele e nós fomos para o quarto. Rolou uns beijinhos daqui, dali... Só que alguém bateu na porta. Afe! Eu, sinceramente, queria matar a pessoa que estava incomodando! Então dei uma ajeitada no cabelo enquanto o Patrick foi abrir a porta. Quando ele abriu, eu tentei olhar por cima do ombro dele para ver quem estava ali. E foi aí que eu vi um garoto bem parecido com o Patrick, só que um pouco mais velho. Kath, eu fiquei encantada como nunca tinha ficado antes! Minha vontade era de parar o tempo e ficar olhando para ele até o mundo acabar... Mas enfim, depois de uma conversa que eu nem prestei atenção, o Patrick fechou a porta e começou a vir pra me beijar de novo, só que eu lá tinha pique para fazer qualquer coisa depois do que eu tinha acabado de ver... e de sentir? Não. Fingi uma dor de cabeça e saí do quarto para ir embora. O Patrick ficou todo emburrado e continuou por lá mesmo. — Ela fez uma pausa, tomando um gole no café antes de continuar: — Desci as escadas para ir embora e, de repente, o garoto — que agora eu sei que é irmão do Patrick, trombou comigo e derrubou meu celular no chão! Eu nem tive voz para brigar com ele, e você sabe que meu celular é meu xodó, meu bebê! Mas ele, todo educado, pegou o celular do chão e me pediu desculpas. Eu estava tão no mundo da lua que ele começou a rir, e eu só consegui falar que já estava indo embora. Quando dei um passo para passar por ele, senti uma mão no meu ombro. Me congelei inteira! Olhei para ele e ele me disse que o trânsito estava terrível e que, se eu quisesse, podia me dar uma carona. Na hora eu pensei: "Qual a diferença do meu motorista vir me buscar e você me levar?", mas não falei nada, né? Imagina... Entrei no carro dele e fomos devagar... devagar até demais para o meu gosto. Ele começou a puxar assunto: "Você é namorada do meu irmão?". "Não, estamos só... ficando", eu respondi. Ele logo ficou mudo. Então eu decidi puxar assunto também: "Quantos anos você tem?", perguntei como quem não quer nada. "23... e você?", ele perguntou de volta. "17", respondi. Fiquei meio sem graça, achando que ele nunca se interessaria por uma garota da minha idade. Mas, Kat, a conversa fluiu tão bem! Ficamos conversando mais ou menos duas horas em frente à minha casa. Eu só entrei porque minha mãe me ligou perguntando onde eu estava, senão teria ficado mais horas e horas lá dentro com ele... — Ela deu outra pausa, soltando o ar como se tivesse tirado um fardo das costas.
— E eu não me cansaria de contar isso mais umas três vezes para você... — acrescentou, com um brilho diferente nos olhos.
Ajustei minha postura na cadeira, um pouco confusa com a falta de malícia da história.
— Só? — perguntei. — Não beijou nem nada? Que milagre...
— Não, bobinha! — Cel me deu um tapinha leve no ombro. — Ele pegou meu número e eu vou sair hoje com ele. Mas não espero que role nada de cara. Eu gostei mesmo dele como pessoa.
— Como é o nome dele? O que ele faz? E o Patrick sabe que você o trocou pelo próprio irmão?
— Ai, quantas perguntas, baby! — Ela revirou os olhos, mas não escondeu o sorriso. — O nome dele é Alejandro. Chiquérrimo! Ele está no quinto ano da faculdade de Direito. E eu não devo satisfações para o Patrick, não, meu bem! Só falei que queria terminar tudo e ele levou numa boa.
— E você acha que esse Alejandro gostou mesmo de você, Cel?
— Kath, eu não sei... Só sei que gostei muito dele. Muito mesmo! Ele me tratou tão bem, não tentou nada comigo e, ao mesmo tempo, demonstrou tanto interesse pela minha vida... Quer dizer, se isso não é estar nem um pouco a fim, ele tinha que seguir carreira de psicólogo, porque realmente teve uma paciência de leão para me ouvir. E você sabe que não é fácil me ouvir! Mas, além de tudo isso, quando eu olho para ele, sinto uma explosão dentro de mim. Parece que a qualquer segundo eu vou sair voando... E o olhar dele é tão sincero, Kath. Parece que posso ver a alma dele sempre que me deparo com aqueles olhos...
Olhei bem nos olhos da minha amiga. Era visível o quanto conhecer esse cara a fez bem.
— Cel, eu apoio ao máximo isso entre vocês dois e estou muitíssimo feliz de ouvir tudo isso vindo de você. — respondi, segurando a mão dela com carinho e firmeza. — Só não quero que você se machuque. Mas saiba que eu estou aqui para tudo. Para te consolar quando você chorar, para sorrir com você quando estiver feliz... Você sabe que pode contar sempre comigo, não sabe?
— Eu sei, Kath — ela sorriu, com a sinceridade que só nós duas conhecíamos. — Não tenho a mínima dúvida disso.
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De Volta ao Começo
RomancePara Katherine, uma garota do Rio de Janeiro, com 17 anos, a vida parecia seguir o roteiro planejado. Dona de um coração bondoso e de uma alma sonhadora, ela acreditava ter encontrado tudo o que precisava: uma rotina tranquila, uma família unida e u...
