— O seu lado da história? — soltei uma risada irônica, cruzando os braços para esconder que minhas mãos tremiam. — Deixa eu adivinhar: você usou uma garota, inventou uma gravidez falsa e tentou me transformar num pião na briga entre vocês. Muito poético, Dean.
Ele deu mais um passo. A sombra dele cobriu a minha.
— Ok, mas a farsa da gravidez foi mais ideia da própria Luiza. Ela estava desesperada por dinheiro e por atenção, e eu só... dei um empurrãozinho na direção certa — ele deu um sorriso de canto, sem um pingo de remorso. — Mas a parte em que você é a vítima indefesa do Steven? Essa não é uma invenção minha, Katherine. É a pura realidade.
— O Steven assumiu o problema e resolveu — rebati, erguendo o queixo.
— Resolveu? — Dean soltou um riso anasalado, inclinando a cabeça. — Ele te contou o motivo real que se apaixonou do nada pela amiguinha esquecida de anos atrás?
Fiquei em silêncio por um segundo. A informação bateu no meu peito como um peso morto.
— A família do Steven precisa da sua família para não ir à falência — Dean continuou, a voz baixando para um sussurro conspiratório. — O Steven precisava dessa garotinha meiga, que vive em um dos maiores circuitos das famílias ricas do Rio. Para mostrar à imprensa e aos acionistas que ele é um cara centrado, maduro, pronto para assumir a presidência. Você não é um refúgio para ele, Kath. Você é uma estratégia de imagem.
— Você está mentindo — disse, mas a minha própria voz soou vacilante. Minha mente começou a me pregar peças. — Testa ele — Dean sugeriu, dando um passo para o lado e desobstruindo a passagem do corredor. — Volta lá para a mesa e diz que você quer ir embora agora, que não quer mais se envolver na vida dele. Veja como o "príncipe encantado" reage quando a peça dele ameaçar querer sair do tabuleiro.
Antes que eu pudesse responder, o som de passos pesados ecoou no início do corredor.
— Sai de perto dela, Dean. — A voz do Steven cortou o ar como uma lâmina. Ele apareceu com os punhos fechados, a postura rígida e os olhos faiscando de uma raiva contida que eu nunca tinha visto nele.
Dean nem se abalou. Apenas ajeitou as mangas do sobretudo e sorriu para o Steven com um deboche elegante.
— Relaxa. Só estava tendo uma conversa amigável com a Katherine. Coisa que você parece não saber fazer sem envolver um batalhão de advogados.
— O nosso assunto é outro, e você sabe disso — Steven avançou até ficar a poucos centímetros de mim, colocando-se estrategicamente entre mim e o Dean. O calor do corpo dele era intenso, mas o ar entre nós dois estava congelado. — Sai daqui antes que eu resolva isso de um jeito que os dois vão ficar manchados nessa cidade. Será que isso vai deixar seu pai feliz?
— Não precisa se alterar — Dean piscou para mim por cima do ombro de Steven. — A gente se vê em breve, Katherine. Afinal, nossa conversa ainda não acabou totalmente.
Ele deu as costas e sumiu, deixando para trás um silêncio sufocante.
Fiquei encarando as costas de Steven. O peito dele subia e descia rápido. Quando ele se virou para mim, a preocupação em seu rosto parecia real — mas agora, depois do que Dean disse, eu já não sabia mais o que era atuação e o que era verdade.
— Ele te tocou? Te disse alguma coisa? — Steven segurou meus ombros, me analisando da cabeça aos pés.
— Ele me disse que a sua empresa está em crise — soltei de uma vez, sem desviar o olhar do dele. — E que você está me usando para parecer o filho perfeito para os acionistas.
Os dedos de Steven nos meus ombros congelaram por uma fração de segundo. Ele fechou os olhos, soltando um suspiro pesado e doloroso, como se aquelas palavras tivessem sido um golpe físico.
Quando abriu os olhos novamente, havia um medo genuíno e transparente que fez meu coração dar uma volta no peito.
— Ele é um... — a voz do Steven saiu rouca, trêmula de raiva e mágoa. Ele aproximou o rosto do meu, segurando minhas mãos com uma delicadeza quase súplice. — Kath, me escuta. Olhe nos meus olhos, por favor.
Eu tentei desviar o olhar, a cabeça fervendo com as palavras venenosas do Dean, mas o calor das mãos do Steven e o tremor sutil em seus dedos me prenderam ali.
— A minha família está passando por momentos difíceis, sim. Houve pressões, conselhos de acionistas, conversas sobre imagem... meu pai me cobrou mais decência— ele admitiu, sem esconder a verdade, o que só deixou sua vulnerabilidade mais evidente. — Mas eu juro, pela minha vida, que nada disso tem a ver com o que eu sinto por você! Eu não te procurei por causa de empresa, de imprensa ou de conselho nenhum.
— Steven... o Dean falou com tanta certeza... — murmurei, sentindo uma lágrima teimosa ameaçar escapar.
— Porque o Dean é um sociopata invejoso! — ele desabafou, a voz fraquejando. — Ele sabe exatamente onde pisar para me ferir. Ele sabe que a única coisa que realmente me importa agora é você. Kath, o Dean já tentou me destruir na empresa e não conseguiu. Agora ele está tentando me destruir tirando você de mim, porque ele sabe que isso sim me destruiria de verdade.
A sinceridade nas palavras dele caiu sobre mim como um choque de realidade. O tom do Steven não era o de um homem pego no pulo; era o de um homem aterrorizado com a ideia de perder a mulher que está apaixonado por causa do seu próprio primo.
Ele se aproximou mais, colando a testa na minha na penumbra daquele corredor, a respiração descompassada roçando nos meus lábios.
— Se você quiser ir embora agora, eu te levo. Se quiser gritar comigo, pode gritar. Se quiser testar o que o Dean disse e mandar eu sumir da sua vida... — ele engoliu em seco, e pude ver seus olhos marejarem. — Eu vou respeitar, mesmo que isso acabe comigo. Mas não duvida do que eu sinto por você. Por favor. Ontem à noite, hoje de manhã... cada segundo do seu lado não foi um jogo. Foi a coisa mais real que já me aconteceu.
O nó que cobria meu peito se desfez. A dúvida plantada pelo Dean derreteu diante do desespero verdadeiro do Steven. Ele não estava me usando; ele estava tentando me proteger de um mundo podre ao qual ele era forçado a pertencer.
Levei minhas mãos até o rosto dele, sentindo sua pele quente e a mandíbula tensa relaxar devagar sob o meu toque.
— Eu não vou embora — disse baixinho, olhando bem no fundo dos olhos dele. — E eu não vou deixar o Dean vencer esse jogo ridículo dele.
Um suspiro gigante de alívio escapou dos lábios de Steven. Ele fechou os olhos por um segundo, encostando a boca na minha testa em um beijo longo, puxando minha cintura para bem perto, como se precisasse se certificar de que eu ainda estava ali.
— Eu prometo que vou acabar com essa palhaçada do Dean de uma vez por todas. Ninguém vai usar você contra mim. Nunca mais. — ele diz, passando a mão por uma mecha do meu cabelo.
— Como você vai fazer isso? — perguntei, sentindo meu coração acelerar com a firmeza do tom dele.
Steven se afastou o suficiente para olhar no meu rosto, e um sorriso determinado, mas ainda assim doce, surgiu em seus lábios.
— O Dean quer criar um circo. Pois então ele vai ter um espetáculo. Só que o final não vai ser o que ele planejou.
Ele me deu um selinho demorado, cheio de promessas e de uma química indiscutível que fez minhas pernas fraquejarem.
— Agora — ele pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos com força — vamos voltar para a nossa mesa. Não vamos deixar aquele babaca estragar a nossa noite.
Enquanto caminhávamos de volta para a mesa com a mão dele firmemente presa à minha, tive certeza de uma coisa: a guerra entre o Steven e o Dean estava longe de terminar, mas agora nós éramos um time. E o Dean não tinha a menor ideia do que o esperava.
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De Volta ao Começo
RomancePara Katherine, uma garota do Rio de Janeiro, com 17 anos, a vida parecia seguir o roteiro planejado. Dona de um coração bondoso e de uma alma sonhadora, ela acreditava ter encontrado tudo o que precisava: uma rotina tranquila, uma família unida e u...
