Aí está você! — Minha mãe brotou no corredor do segundo andar bem na hora em que eu guardava o Gloss na bolsa. — Vamos, Kath, faltam cinco minutos para a virada!
Antes que eu pudesse processar, ela me puxou pelo pulso em direção às escadas. Eu estava tão aérea, pensando no caos da foto do Dylan, que meus dedos escorregaram. Meu iPhone voou da minha mão, quicando pelos últimos degraus de carpete.
— Droga... — resmunguei, me abaixando rápido para pegar.
Mas outra mão, bem maior e mais ágil, alcançou o aparelho um segundo antes de mim.
— Valeu... — ergui os olhos e o agradecimento quase travou na garganta.
Era o garoto do lavabo. De perto, ele parecia ainda mais alto.
Ele me estendeu o celular com o mesmo sorrisinho enigmático de antes, me encarando fixamente por dois segundos antes de se afastar em direção à sala.
Peguei o iPhone de volta, sentindo minhas bochechas esquentarem. Assim que ele ficou a uma distância segura, cutuquei minha mãe e cochichei:
— Quem é esse garoto, afinal?
Minha mãe olhou discretamente na direção dele e depois para um homem de terno que conversava com meu pai perto do bar.
— É o filho do Dr. Albert, querida. Você não lembra? — Ela me olhou de relance, surpresa. — Vocês dois eram grudados, brincavam o tempo todo quando você tinha uns sete anos. O nome dele é Steven. Steven Harper.
Ah, claro, mãe. Com certeza eu vou lembrar de um garoto com quem dividi brinquedos há mais de dez anos, pensei, enquanto meus olhos buscavam o tal Steven no meio da sala.
Ele devia ter uns vinte anos agora. Olhando bem, a ficha tentava cair. Ok, nossos pais eram amigos de longa data e a gente tinha um histórico de infância, mas o menininho das minhas memórias definitivamente não batia com aquele cara de maxilar marcado e postura autoconfiante. Além do mais, ele provavelmente nem lembrava da minha existência.
— Um minuto para a meia-noite! — Meu tio Rafael gritou, erguendo uma garrafa de espumante como se fosse um troféu.
A multidão de parentes e convidados começou a sair em direção à área externa da casa. Me enfiei no meio dos familiares, ficando ao lado da minha prima Amanda e do marido dela.
— Dez! Nove! Oito!... — A contagem regressiva ecoou em coro.
Meus primos puxavam o grito, e eu tentei entrar no clima, mesmo sentindo um nó gigante no estômago.
— ...Três! Dois! Um! Feliz Ano-Novo!
O céu explodiu em uma sinfonia de luzes coloridas e estrondos. Clap! Pop! As rolhas dos espumantes voaram e o cheiro da bebida se misturou ao ar quente da noite. Amanda me entregou uma taça, e eu a segurei firme, esperando o momento dos brindes oficiais.
— Que neste novo ano todos os nossos sonhos se realizem e a nossa família continue unida! — Minha avó Ellen ditou as regras, levantando sua taça.
Todas as taças se chocaram no ar. Tim-tim.
"É, e que neste ano o Dylan crie vergonha na cara e pare de me trair", pensei, e precisei morder o lábio para não soltar uma risada puramente irônica e nervosa com o meu próprio pensamento.
— Ora, ora... — Uma voz masculina e grave soou logo atrás de mim — Quase não te reconheci senhorita Katherine Rosmore...— Steven levantou sua taça. — Um brinde à ironia de ano-novo!
Olhei para a taça dele e depois para os seus olhos. Tim-tim. O vidro estalou suavemente entre nós, e, pela primeira vez naquela noite, o nó no meu estômago pareceu ceder lugar a um tipo de frio completamente diferente.
O som do brinde pareceu isolar nós dois do resto da festa barulhenta. Encostei a taça nos lábios, fingindo beber apenas para desviar o olhar do dele por um segundo e tentar recuperar o fôlego.
Até cinco minutos atrás, minha mente era um turbilhão obsessivo focado no Dylan, na traição e na humilhação que eu estava engolindo a seco. Mas agora, olhando para o Steven, aquele peso parecia ter sido empurrado um pouco para o fundo da gaveta. Haviam se passado mais de dez anos, e aquele garotinho tinha se tornado um homem instigante, que lia minhas reações como se fossem um livro aberto.
Porém logo apoia um segundo de alívio, já me entristeci novamente. Dei as costas para a badalação da piscina, entrei na casa e subi os degraus da escada praticamente correndo, impulsionada por aquela pressa ansiosa que aperta o peito. Buscando o lugar mais isolado e silencioso possível, abri a porta do quarto da minha tia Rachel e entrei, fechando-a num baque surdo atrás de mim.
Finalmente sozinha no silêncio do quarto, com o coração batendo na garganta, me joguei na cama de casal e, com os dedos trêmulos, disquei o número do Dylan, rezando desesperadamente para ele atender.
CAPA: KATHERINE E STEVEN
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De Volta ao Começo
RomantizmPara Katherine, uma garota do Rio de Janeiro, com 17 anos, a vida parecia seguir o roteiro planejado. Dona de um coração bondoso e de uma alma sonhadora, ela acreditava ter encontrado tudo o que precisava: uma rotina tranquila, uma família unida e u...
