Início

781 44 5
                                        

Aconteça o que acontecer, o tempo e as horas sempre chegam ao fim, mesmo do dia mais duro dentre todos os dias.

— Macbeth

Forks nunca fora um lugar de sol ardente ou de calor sufocante. Ali, a chuva caía como sentença durante mais da metade do ano, e o resto era entregue a névoas, dias úmidos e ventos frios. Por isso, não me surpreendi quando decidiram permanecer por mais tempo na cidade. A desculpa era buscar uma residência fixa, mas a verdade era outra: havia chegado a hora de me reintegrar.

Passei meses no Alasca, isolada entre os Denali, em um exílio que me foi imposto após a transformação. Uma espécie de quarentena para domar a sede, o caos, o impulso incontrolável de rasgar o mundo com os dentes. Alastor e Gillian, embora não fossem meus pais, estiveram comigo nesse período de sombras — cuidando, vigiando, certificando-se de que eu estava pronta antes de regressar. Agora, eles apenas me acompanhavam até Forks.

— Você pegou tudo? — Gillian se aproximou, tirando as duas bolsas de minhas mãos com uma delicadeza enganosa, como se o peso não existisse para ela. O porta-malas se fechou com um estalo metálico, e eu prendi a respiração por um instante, temendo que o vidro tivesse trincado.

— Sim. — Murmurei, puxando a mala de rodinhas que arrastava atrás de mim. As pedrinhas do caminho estalaram sob as rodas, misturando-se ao farfalhar dos galhos agitados pelo vento. Sempre gostei desse som. Mesmo antes da transformação, quando ainda era humana, o sussurro da floresta me trazia calma. Agora, era apenas memória.

— Alastor! — A voz chamou de súbito, firme e amistosa. O homem que esperava no alto da escada abriu os braços em saudação. Ao seu lado, uma mulher de expressão terna irradiava um calor quase impossível de compreender. — É muito bom vê-los.

Carlisle Cullen. O médico de Forks. Seu nome já me era conhecido antes, mas só quando sua presença se ergueu diante de mim é que compreendi a razão de tantos sussurros.

— Carlisle. — Alastor o cumprimentou, estendendo os braços. — Obrigado por nos receber.

Carlisle sorriu, e seu olhar dourado deslizou de Alastor até Gillian, que o saudou em silêncio, e então repousou sobre mim. Havia uma sombra de reconhecimento em seus olhos.

— Estávamos ansiosos para chegar — anunciou Alastor, indicando a mulher ao seu lado. — Ela não parou de falar sobre como os ursos nessa região são saborosos.

Carlisle inclinou levemente a cabeça, como quem revisita lembranças de uma noite marcada por sangue e tragédia.

— Tenho certeza de que sim. — Sua mão repousou em meu ombro, firme, acolhedora. — Seja bem-vinda de volta a Forks, Alina.

Ao seu lado, Esme Cullen nos observava com aquele sorriso maternal, suave e luminoso, como se carregasse em si a capacidade de amparar o mundo. Quando tomou minha mala, bastou um gesto silencioso para que eu a seguisse para dentro da casa.

Era a primeira vez que eu cruzava aquelas portas como parte da família Cullen. Não apenas hóspede, mas algo mais. Carlisle e Esme me haviam aberto o lar e o seio de sua eternidade.

A casa se erguia como extensão da própria floresta: madeira e vidro, linhas firmes que se perdiam entre as árvores. De onde eu estava, uma parede inteira transparente deixava a floresta à mostra, como se nos lembrasse de que a natureza ainda vigiava.

E então, o peso me atingiu. Estar de volta era doloroso. Doloroso demais. Não deveria ser, não para alguém que já não sentia dor. Mas eu sentia — como se as lembranças pudessem rasgar carne que não sangra.

Nos primeiros meses, quando tudo em mim era apenas sede e selvageria, desejei destruir e ser destruída. Romper regras, matar sem pensar, acabar com tudo. Mas a existência vampírica era feita de códigos, e minha nova família me forçara a segui-los. Beber sangue humano não era permitido; apenas animais. Gillian me alertara: havia que se cuidar para não arruinar a fauna local. Regras, limites, contenção. Eu odiava tudo isso.

Felicidade nunca foi parte de mim. Pelo menos não depois daquela noite. O que ficou foi a lembrança de olhos negros me encarando no último instante — desespero, tristeza, súplica.

"Não me deixe..."

Sua voz ainda ecoava em minha mente, como uma corrente que me despedaçava todas às vezes.

Ele não cumpriu a sua promessa.

𝐁𝐥𝐨𝐨𝐝𝐲 𝐒𝐮𝐧 - 𝐓𝐡𝐞 𝐓𝐰𝐢𝐥𝐢𝐠𝐡𝐭 𝐒𝐚𝐠𝐚Onde histórias criam vida. Descubra agora