26 - Visita inesperada

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Instalei telefone e internet, leio imenso sobre hortas, jardinagem, animais de quinta mas é muito complicado, já retirei todas as ervas daninhas e um dos meus queridos vizinhos, um senhor com idade avançada que conheci na loja onde compro a ração para os animais, foi um amor e passou por aqui esta manhã, deu-me alguns conselhos para começar a preparar a terra, vou semear legumes e frutas. Amanhã a minha mobília vai chegar e preciso da concentrar-me em retirar os antigos móveis da casa, mas como farei isso sozinha? Decido que no primeiro andar eu só vou mexer quando contratar alguém disposto a ajudar-me por umas horas, no andar de baixo tudo o que posso, o mais pesado eu apenas afasto para poder guardar as minhas coisas, terá de ser assim, não tenho alternativa. Olho para o chão de madeira, o pobre coitada grita por um tratamento, irei fazer isso. Eu sentia falta de tudo e de todos, mas eu estava bem comigo mesma e com o caminho que escolhi, levanto cedo empolgada com a chegada das minhas tralhas, tomo o pequeno-almoço sentada no exterior, o calor já se fazia sentir e antes de tudo vou deixar que as vacas pastem e os cavalos saiam do celeiro, abro o portam e aguardo um par de horas.

Consigo ouvir o barulho de um motor e a poeira vinda da estrada de terra, vejo-os parar perto do portão, caminho energeticamente na direção do camião, aceno um olá e os dois homens descem para me cumprimentar...

- Bom dia, fizeram boa viagem?

- Um pouco longa, precisamos começar o quanto antes para regressar ainda hoje. - Eles não pareciam satisfeitos com a tarefa que teriam pela frente.

- Vamos a isso, não há nada a saber, coloquem tudo na sala que eu depois peço a alguém para me ajudar com o primeiro andar.

Eles abrem as portas traseiras e começam a carregar tudo, pego numa caixa de papelão para os ajudar, sinto algo, uma sensação de estar a ser observada, olho para trás, parado perto do portão estava um carro desconhecido, foi impossível não ter medo que seja Bruce, para a minha surpresa o condutor sai do mesmo acompanhando por outro homem, era Raphael, acompanhando de Dylan, primeiro senti alívio por serem eles, mas logo fiquei nervosa, se o meu cunhado sorria ao olhar para tudo, Dylan estava com um ar frio, espero que se aproximem sem saber como reagir, Raphael abre os braços, era o que precisava para correr até ele, sempre me tratou como um irmão mais velho, salto para o agarrar, é a minha família e é importante saber que me apoia e perdoa, de volta ao chão olho finalmente para Dylan, ele não consegue esconder o quanto está chateado comigo...

- Aposto que trabalho não te vai faltar! - Raphael quebra o silêncio.

- Sim, isso é verdade, mas se era para recomeçar então que tal fazê-lo de uma forma completamente diferente?

- Só tenho de pena de ser tão longe, um espaço assim será o ideal para as crianças.

- Julia está grávida? - Meu Deus ela não me vai perdoar de eu ter partido quando ela mais precisa de mim.

- Ainda não, mas um dia isso vai acontecer.

- Como me encontraram? - Olho para os dois e mais uma vez Dylan continua sem abrir a boca.

- Dylan conseguiu saber a data em que a transportadora traria as tuas coisas, então foi só seguir o camião.

- Querem beber ou comer algo? - Estava imenso calor e eles conduziram por horas.

- Talvez após ajudarmos-te, que dizes Dylan?

- Vamos lá!

Ele não quer falar comigo, então, porque veio afinal? Algumas horas depois os homens da transportadora vão embora e Dylan aproveita para estacionar o carro do meu cunhado aqui na porta...

- Ele não vai falar comigo?

- Ele tem muito para te dizer, mas talvez esteja a espera de o fazer sem explodir Kendra. - Na verdade, também não quero estar por perto no dia em que Dylan perder a cabeça já que é tão calmo.

- Não preciso de alguém assim perto de mim.

- Julia também está magoada, todos estamos, somos teus amigos, a tua família e vamos ajudar sempre, deverias ter contado connosco em vez de fugir. - Raphael comenta enquanto montamos a cama do quarto de hóspedes.

- Vocês já ajudaram de mais, fizeram isso desde sempre quanto aos outros eu não quero carregar os meus problemas nos ombros de quem não merece, a escolha foi minha e assumo a minha decisão.

- A Rebecca não nos contou o motivo, mas se eu não me engano há um Morris metido nisso, certo?

- Como sabes? - Paro de fazer a cama de lavado e olho para ele curiosa.

- Agora sei, o que foi que ele fez desta vez? - O meu cunhado para de pendurar o quadro na parece e olha para a porta.

Merda Dylan deve estar atrás de mim, não preciso virar o corpo para saber, dá para ouvir a sua respiração mais pesada. O telemóvel do meu cunhado começa a tocar e ele sai de casa para atender, ótimo agora eu fiquei sozinha com a fera...

- Qual deles? - Eu fico com medo só de o ver assim.

- Não Carter, esquece isso!

- Esquecer o quê se eu não sei o que se passou? - Ele cruza os braços de uma forma ..

- Foi isso que quis evitar até agora!

- E fugir a vida toda é a solução?

- Se eu fugi foi principalmente para proteger quem amo. - Falo com raiva por me estar a fazer confessar o que não quero.

- Mentira, foi para te protegeres a ti Kendra, porque eu sempre enfrentei os meus problemas e a tua família também.

- E perdeste sete anos naquela prisão, queres voltar para lá? Eu não vou deixar e muito menos por minha culpa. - Eu não ia mesmo, prefiro que nunca mais me fale mas esteja em liberdade.

- Quem proteges afinal? A ele? A ti?

- A quem amo, a ti Dylan!

Passo por ele com os olhos inundados, eu só quero protegê-lo, sei que se falar a verdade, ele não vai deixar passar em branco.

Kendra ArdenOnde histórias criam vida. Descubra agora