24 - Monstro n°2

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Esse dia ia chegar mais tarde ou mais cedo, iria cruzar Bruce a qualquer momento e fico até surpreendida que ele não me tenha procurado antes. Entro no seu carro, fazemos o caminho em silencio algo que nunca acontecera antes, entramos no seu escritório, o clima estava pesado...

- Qual a razão desta proposta Bruce? - Um de nós teria que dar o primeiro passo desta conversa.

- Porque eu quero ter-te por perto.

- Não sei se destes por isso mas tenho mantido a distância. - Ele está calmo, sentado na sua grande cadeira de chefe com um ar superior.

- Ilusão tua, eu deixei-te pensar um pouco sem pressões. - Do que é que ele está a falar?

- Não tens curiosidade em saber o motivo?

- Eu sei o motivo, não é preciso ser um génio para saber que ouviste a minha conversa naquele jantar. - Para quem percebeu o motivo ele não está nem um pouco decidido a tentar desculpar-se.

- Porquê?

- Agora que te conheci e gostei de te ter por perto, não vou abrir mão disso para ninguém. - Este não é o Bruce que conheço.

- Posso processar-te!

- Podes tentar mas sejamos honestos eu tenho o dinheiro, a fama e o poder. Achas que irias até onde com um processo? - Ele sabia o que dizia, não tinha muita saída.

- Talvez o passado de Billy não conte a teu favor!

- Estás a falar daquelas festas?

- Das violações Bruce, tu não sabes...

- Eu patrocinava essas festas ao meu irmão por isso sim, eu sei de tudo. - Naquele momento eu fiquei apavorada, como ele conseguiu enganar-me tanto?

- De mim também?

- Soube quem eras quando nos cruzamos com Billy na galeria.

- Vocês Morris têm o poder de enganar e manipular as pessoas! - Fico de com raiva daquele seu jogo doentio.

- Tu soltaste um suposto violador que esteve numa dessas festas... Ainda achas que queres continuar a lutar ou vamos falar de trabalho?

- Trabalho? - Ele acha que depois do que eu sei vou ficar perto dele, deve ser louco.

- Trabalharás exclusivamente para mim, salário alto, carro, telemóvel, tudo o que está nesse papel.

- Só isso? Sem segundas intenções?

- O resto virá com o tempo. - Veremos.

- O resto?

- O nosso relacionamento Dra Arden.

- Isso não vai acontecer! - Só morta ele iria ter algo de mim.

Pego na minha bolsa e saio daquele lugar quase a correr, pego num táxi e ligo para Rebecca...

- Então essa proposta? Vais ser a minha próxima chefe?

- Podes ir ter comigo a minha casa?

- O que é que aconteceu? - O seu tom de brincadeira muda para um mais sério e preocupado, senti-me mal por lhe obrigar a lidar com os meus problemas também.

- Rebecca!

- Sim posso vou o mais rápido possível.

Desligo a chamada de lágrimas nos olhos, aquela família irá perseguir-me para sempre. Saio do táxi e vejo que Rebecca sai do carro com Blake, Dylan está a porta da garagem, parece que tinha uma plateia a minha espera, aceno á minha amiga e corro para casa, ela vem logo atrás com um ar preocupado...

- Que cara é essa Kendra?

- Cara de quem tem a vida destruída e não sabe como sair desse buraco. - Atiro com a bolsa para o sofá e escondo a cara na bancada da cozinha.

- O que foi que aconteceu?

- Os Morris, eles simplesmente nasceram para me enfernizar!

- O que é que o Billy fez agora? - Rebecca iria atrás dele disso tinha certeza.

- Bruce, é um monstro como o irmão.

- O que foi que ele te fez amiga?

Conto a história com tanto ódio que podia matar alguém daquela família sem qualquer sombra de remorsos. Rebecca pergunta o que eu tenciono fazer? Fugir! É a única solução e desta vez para bem longe daqui, qualquer lugar daqueles onde não há nada, um deserto seria ótimo. Começo a fazer as malas, sim talvez seja precipitado mas eu não quero ficar e afundar-me numa vida ainda pior que a que vivi anos atrás. Rebecca assiste a tudo sem palavras...

- Pela primeira vez não sei o que dizer!

- Vou deixar-te as minhas chaves, vamos pedir ao notário com quem trabalhamos para autenticar a procuração, vendes a casa com tudo e depois envias-me o dinheiro.

- Mas tu vais para onde?

- Eu não sei, vou levantar todo o dinheiro da conta, colocar todos os objetos pessoais no carro e vou ver onde fico. - Continuo a amontoar roupa e sapatos nas malas de viagem.

- Kendra talvez a Júlia te possa ajudar.

- Ela fez isso a vida toda, chega disso, ela é minha irmã e não minha mãe. - Se eu falar com Júlia vai ser bem pior para todos.

- Eu não estou com um bom pressentimento.

- Eu dou notícias quando encontrar um lugar fixo, não te preocupes eu vou comprar um telemóvel pré-pago porque com as novas tecnologias nunca se sabe e não digas nada a ninguém por enquanto.

- A tua irmã vai ficar preocupada e Dylan... - Rebecca não sabe como lidar com isto, coitada.

- Darei notícias quando me sentir preparada, agora ajuda-me por favor!

Espero que fique bem tarde, que toda a rua durma para carregar o carro, não quero ser vista, não irei dar satisfações sobre as minhas decisões. Não olho para trás, preciso manter a pouca confiança que me resta acima de qualquer outro sentimento, passo na primeira bomba de gasolina, abasteço o carro e começo mais uma jornada na minha vida. Conduzo o mais que posso, por horas com ajuda de café e bebidas energéticas, hei-de encontrar um destino que satisfaça as minhas necessidades mas enquanto isso não acontece eu continuo sem rumo.

Perdi a noção das horas, de quantas paragens fiz para abastecer, ir a casa de banho ou dormir por algumas horas, neste momento posso dizer que vivo no meu carro.

Kendra ArdenOnde histórias criam vida. Descubra agora