Anahi
Por vários segundos, tudo o que pude fazer foi olhar para o rosto do homem bonito que tinha feito meu corpo queimar de desejo como nunca antes.
— O que você disse?
Ele não me respondeu. E aqueles olhos, que antes estavam repletos de desejo ardente ao me fitarem, agora pareciam frios como as calotas polares do Ártico.
— Esse plano estúpido acaba aqui — Ele disse baixo, mas num tom tão cortante que eu me vi dando dois passos para trás — Eu já te dei um
orgasmo, e é o máximo que vai obter de mim, portanto, agora devolva as joias que usou no desfile da minha avó.
Alfonso estendeu a mão na minha direção.
— Joias da sua avó? Mas as joias do desfile são da Blackwood’s.
Ele me olhou, impaciente.
— Sim. Portanto, as joias da primeira coleção da minha avó.
O quê? A avó dele... Então ele era...
O passo para trás que fui obrigada a ceder, desta vez, foi pela vertigem súbita.
— Você é Herrera? — Era a pergunta mais tola que eu poderia fazer,
mas ainda precisava dela.
— Alfonso Herrera— Ele sorriu, amargo. Mas suas palavras foram
ainda mais acres: — Mas você já sabia melhor do que ninguém. Por isso me
seguiu até aqui e se ofereceu nua na minha cama como um cordeirinho inocente.
Eu não sabia o que responder.
Como eu podia simplesmente não ter percebido antes? Não era como se eu nunca tivesse ouvido o primeiro nome dele. Devia ter ouvido algumas
parcas vezes, mas todos chamavam o poderoso CEO inglês apenas de Herrera. E isso era tão forte que eu não havia guardado o primeiro nome na memória.
— Eu não sabia. — Foi tudo o que consegui produzir em minha defesa.
E senti-me uma idiota completa por isso. Como eu podia ter tido contato
com a publicidade da Blackwood’s e jamais ter tido curiosidade alguma em
olhar a foto do seu CEO?
O homem moreno e impecável diante de mim riu sem vontade alguma.
— Depois de me perseguir nas últimas duas semanas, você poderia ter pensado em uma desculpa melhor para esse momento.
— Não é uma desculpa, eu juro que...
Ele deu um passo ameaçador em minha direção.
— Devolva as joias, Giovanna — ele rosnou.
— Devolver as joias? — falei, confusa. De que diabos o homem falava?
— Espere, você está entendendo tudo errado. Eu não sou Giovanna. Sou a irmã
gêmea dela.
Alfonso não esperou mais. Sua mão se fechou no meu punho, sem força,mas ainda assim prendendo-me como uma algema.
— Essa é a melhor desculpa que pode pensar, Angel? — A palavra carinhosa, que tinha me feito delirar, agora parecia um punhal, disposta a ferir. Seus olhos dominaram os meus — Uma irmã gêmea? O quão tolo acha que eu sou?
A outra mão dele prendeu a minha cintura, puxando-me na direção dele e fazendo-me lembrar de que não tinha voltado o vestido para o lugar certo e que apenas o lençol me cobria dos quadris para baixo. Ele também pareceu
notar isso, porque sua mão desceu e agarrou-me na altura dos glúteos.
— Solte-me — ofeguei.
Ele pareceu se divertir com a situação.
— Devolva as joias, Giovanna — ele disse com voz baixa, mas perigosa —
Ou acredite, por mais que eu sinta vontade de me enterrar em você até fazê-la
gritar, isso não vai me impedir de destruí-la depois. Porque é isso o que faço
com mulheres do seu tipo. Eu as uso, e se ficam no meu caminho, eu as destruo.
Foi o estopim para mim. Eu nunca tinha sido tão destratada na vida.
Nem mesmo por Rodrigo. Por isso, não pensei mais. Ergui o joelho, e num movimento rápido, acertei o ponto exato das joias mais preciosas dele.
Alfonso se encolheu e afastou-se de imediato, urrando de dor.
— Seu bastardo! Cretino!
— gritei.
Afastei o lençol do corpo e arranjei o vestido de volta no lugar. Minha calcinha era uma tira de tecido vergonhosamente rasgado sobre a cama dele.
Desviei o olhar rapidamente e apenas agarrei minha bolsinha preta.
Eu precisava ir embora daquele antro o mais rápido possível.
Mas quando eu estava perto da porta, um braço forte me envolveu pela cintura.
— Você não vai fugir sem devolver o colar que me tirou. — Ele me jogou sobre o largo ombro direito.
— Me solte, seu Neandertal! Me solte agora! — Bati com a bolsa nas costas largas dele.
— Onde está o colar? — Ele me ignorou completamente.
— Que colar?
— Esconder o colar não vai atrair nada além da minha ira, garota.
Meu Deus, nada mais fazia sentido.
— E onde você acha que eu esconderia um maldito colar? — berrei —
Nem calcinha eu tenho mais!
Golpeei-o uma última vez com a bolsa antes que esta caísse no chão.
Meu pequeno perfume caro se espatifou em cima dos meus documentos de
identificação, meu batom e meu celular.
A imagem era o que faltava para drenar minhas forças, e eu não pude mais me conter. Subitamente, comecei a soluçar e meus olhos se nublaram com as lágrimas.
— Eu não estou... Não estou com nenhum maldito colar...
Era patético, mas eu não podia mais me conter. Na única vez em que
tentei ser espontânea na vida, eu tinha que terminar em uma situação ainda
mais humilhante?
Alfonso Herrera não me respondeu. Ele apenas se abaixou, comigo ainda nos ombros, e puxou minha carteira de identidade da pequena poça perfumada.
— Anahi Portilla
— ele falou sem entonação alguma.
— Essa é você
— Any— corrigi — Mas, não. Eu sempre saio para grandes eventos com o documento de identificação de outra mulher.
Foi o sarcasmo mais ridículo e choroso que eu já tinha tentado fazer uso na vida. No entanto, era tudo o que eu tinha.
De repente, fui afastada dos ombros dele e meus pés tocaram o chão. Os olhos verdes agudos correram do meu rosto para a terrível foto três por quatro no meu documento.
— Gosh! — Ele deixou escapar, e eu vi quando a derrota surgiu em seu
olhar. Provavelmente no exato momento em que uma pequena vitória nascia
no meu — Você é mesmo a irmã gêmea.
Tirei o documento das mãos dele um instante depois.
— Sou. A irmã gêmea gorda — ironizei — Como o Fofoca Hit costuma
sempre salientar.
Não o olhei. Ajoelhei-me diante da poça do meu perfume e recolhi o
batom e o celular. Além dos meus outros documentos de identificação.
Entretanto, quando avancei para a porta e girei a maçaneta, uma mão
grande espalmou a madeira, forçando-a de volta para o lugar.
— Lamento, mas se é a irmã de Giovanna Portilla, nossa conversa ainda não terminou.
— Eu não vou ficar aqui para escutar mais ofensas e coisas sem sentido
— insisti, tentando forçar a maçaneta sólida da porta.
Senti quando o corpo dele se aproximou do meu. Seu peito quase se encostando às minhas costas. Tentei me afastar o máximo da eletricidade que me atraía para aquele homem Bom Deus. Onde é que eu havia me metido?
— Acredito que você não tenha muitas escolhas.
E então, suas mãos firmaram-se na minha cintura e fui girada com
agilidade para ficar de frente para ele.
— Sua irmã me roubou. — Seu olhar era implacável — Se sair por essa
porta agora, senhorita Portilla, terá a escolta solícita da polícia.
Abri a boca em choque.
— O quê? O que você está dizendo? — gaguejei.
— Sua irmã, senhorita Anahi. Ela acaba de desaparecer do meu evento com um colar que me pertence. Um colar de um milhão de libras.
Agora aquilo fazia ainda menos sentido.
Minha irmã? Com os próprios cofres abarrotados, roubando? Por um
momento, considerei a hipótese de estar realmente numa realidade paralela.
— O senhor deve estar enganado, senhor Herrera...
Tentei começar, porque aquilo só poderia ser um engano sem cabimento, mas ele me interrompeu com um puxão forte na minha cintura,prendendo-me junto ao corpo dele.
— Chega desse joguinho estúpido. Não sei por que vocês duas planejaram isso, mas minha paciência já chegou ao limite. Devolvam o que me roubaram. Agora.
Empurrei-o de mim com força.
— Eu nunca roubei ninguém! E nem a minha irmã! — defendi com
lealdade.
Mas passei as mãos pelos cabelos. Alfonso Herrera não parecia ser do tipo que brinca com coisas como roubo. Eu tinha visto o rosto dele se transformar numa máscara de ira enquanto discutia o episódio ao telefone.
No entanto, Giovanna roubar...
Parecia um absurdo inconcebível. Giovanna não seria capaz disso. Não
quando ela tinha seu próprio dinheiro e podia bancar todos os luxos que seu
coração desejasse. Não. Minha irmã tinha um temperamento instável e muitas vezes seus caprichos beiravam ao escândalo. Eu já tinha perdido as contas de
quantos incêndios precisei apagar, mas desaparecer com um colar de diamantes...
De qualquer forma, meu pensamento conturbado foi interrompido
quando uma mão grande se fechou no meu pulso direito.
— Chega disso. — Alfonso disse enquanto começava a me conduzir.
— O quê? Solte-me! O que está fazendo?
Tentei me afastar, mas ele não permitiu. Ao invés disso, ele parou e se virou. Seu rosto, de uma expressão fria e nada amigável, pairou a centímetros do meu.
— Nós vamos voltar à maldita festa e você vai dar fim a essa estratégia
degenerada de sedução. Ou asseguro, senhorita Portilla, eu farei com que
odeie para sempre o minuto em que cruzou o meu caminho.
— Como assim ela simplesmente desapareceu?
O pânico fechava a minha garganta.
Tudo tinha parecido muito surreal dentro daquela suíte de hotel. Mas depois de vários telefonemas sem respostas, e agora, diante de Dulce Maria, uma das modelos do desfile e melhor amiga de Giovanna, a realidade era como um soco forte no estômago.
— Eu não sei o que aconteceu, Any— A garota franzina e ruiva tentou
explicar. — Eu apenas a vi pouco antes do desfile.
— E vocês conversaram alguma coisa? — O desespero na minha voz deveria ser palpável.
Dulce apertou a barra do vestido rosa curto. Depois seus olhos vaguearam para o fundo da sala privativa.
— Ela apenas parecia um pouco desapontada por não ter visto ele — Ela
sussurrou a última palavra — Giovanna parecia muito interessada.
— Mas ela não te disse nada, Dulce? — insisti.
Mil coisas me passavam pela cabeça. Eu temia pelo estado da minha irmã. E se alguém a tivesse levado? E se alguém a tivesse ferido?
A amiga da minha irmã apenas deu de ombros.
— Ela disse alguma coisa sobre ser notada... — Dulce divagou — Ah,sim. Lembrei-me. Ela disse: “Ele veria se ela não se faria ser notada”.
Ela se faria ser notada...
O nó no meu estômago desapareceu. Subitamente, tive certeza de que
Giovanna estava bem. Mas o alívio durou pouco, porque um sentimento de raiva
borbulhante começou a pulsar em minhas veias.
— Está tudo bem, senhorita Dulce Maria. Pode ir agora.
Escutei Alfonso dispensando a modelo, mas não consegui prestar atenção.
Fui até uma cadeira e agarrei o encosto dela com as mãos, numa tentativa fraca de dissipar a ira que parecia prestes a me implodir.
Eu não podia acreditar que Giovanna tivesse cometido um capricho tão
estúpido. Meu Deus, ela estava tão certa, em sua mente egocêntrica, de que o
mundo a perdoaria graças ao seu rostinho bonito, que não tinha mais noção alguma sobre limites.
Provavelmente, onde quer que ela estivesse, não desperdiçava um
segundo pensando que sua carreira como modelo estava arruinada.
— Devo presumir, pela expressão em seu rosto, que não sabia de nada
disso.
A voz dele era cética. Eu não podia culpá-lo por não dar crédito algum à
situação. Eu mesma ainda não queria dar.
— Ela não roubou o senhor. — Ainda assim, minha lealdade foi incapaz
de se manter silenciosa.
— Se meu colar não está atrás de um desses móveis que você já revirou várias vezes, não considero qualquer outra denominação.
Respirei fundo e me obriguei a olhá-lo.
Alfonso estava diante de mim.
Nem parecia que havíamos passado duas horas juntos, após o final abrupto da festa, a fim de investigar a situação. Ele continuava impecável em
seu smoking, como quando o vi pela primeira vez. Apenas uma pequena mancha do meu batom vermelho maculando o alto da gola perfeitamente engomada.
Era quase bizarro pensar que meus lábios estiveram ali. Principalmente
diante do olhar implacável dele.
— Ela apenas queria chamar a sua atenção — forcei-me a me concentrar
novamente — Minha irmã é caprichosa. Talvez imaginasse que fosse atrás
dela.
Afinal, vários haviam feito isso, não? Vários como Alfonso Herrera.
— Isso não foi um capricho. Foi uma estupidez. Uma infantilidade —
ele respondeu, inflexível. — E ela deveria presumir que eu não gastaria meu
tempo com isso. É a polícia quem deve lidar com bandidos.
— Minha irmã não é uma bandida! — defendi — Eu sou sua assessora e sei que ela não precisa de dinheiro. É uma modelo com fama internacional.
Tenho certeza de que vai voltar com o seu colar, tão logo perceber que seu
plano não funcionou.
Ele riu, de um jeito amargo.
— E o que sugere, senhorita Portilla? Que eu perdoe o escândalo e toda desestruturação do evento de hoje? — Alfonso fez um gesto para a poltrona
que eu agarrava — Quem sabe eu deva me sentar aqui, como um tolo desocupado, e esperar que meu milhão de libras volte aos meus cofres no tempo em que ele achar melhor? Não. Acho que prefiro mesmo colocar a
polícia atrás dela.
E sem hesitar, Alfonso me deu as costas.
— Não! Por favor!
Antes que eu pudesse raciocinar, eu tinha agarrado o pulso dele.
— Por favor, senhor Herrera. Não destrua a carreira da minha irmã assim.
Os olhos dele primeiro se concentraram em minhas mãos. Depois,aquele verde gélido estava no meu rosto.
— Eu posso conseguir abafar o escândalo do desfile inacabado na mídia,
para a sua joalheria. E posso encontrá-la... — comecei — Eu vou encontrá-la.
E vou fazer com que ela devolva ao senhor o colar. Giovanna não é má, ela
apenas não...
— Não se importa — ele concluiu — Sim. É possível presumir isso também. Afinal, ela não se preocupou com os problemas que causaria ao
desaparecer.
— Não é isso — tentei rebater. — É que Giovanna é impulsiva e está
acostumada com o fato de eu sempre...
— E ela também não se importou com você
— Alfonso me cortou pela
segunda vez — Se está acostumada a ver a senhorita arcar com consequências que são dela.
A afirmação astuta me fez recuar. Mas foi a vez de Alfonso se aproximar
de mim, com um único passo dominador.
— Então me diga, senhorita Portilla, por que eu devo me importar? —Seus olhos prenderam os meus
— Melhor, por que você se importa?
Ele tinha razão. Por que eu tinha que seguir me importando? Por que eu
tinha que continuar cuidando dos desastres da minha irmã? Seria muito mais fácil deixar essa vida cansativa que eu tinha há sete anos. Eu tinha esquecido
boa parte dos meus sonhos, como abrir meu próprio antiquário perto da praia...
E, no entanto, eu não conseguia evitar. Mesmo quando concordava com
o fato de Giovanna merecer uma punição por seus atos impensados.
Giovanna era a minha família. E não se abandonava a família. Jamais.
— Ela é minha irmã. — Não saberia dizer se as lágrimas que vieram aos
meus olhos foram de exaustão ou angústia — E não se abandona a família.
Ele não se moveu. Nenhum músculo do seu rosto demonstrou qualquer
comoção diante das minhas palavras. Mas quando eu estava prestes a desmoronar, o queixo anguloso dele se
ergueu:
— Quatro dias. É o que posso oferecer, senhorita Portilla. Quatro dias
para que encontre sua irmã e a faça devolver meus diamantes.— E então,
Alfonso Herrera me deu as costas. Mas se a primeira frase me injetou
alguma esperança, a segunda foi devastadora: — Depois disso, entretanto, considerarei o débito como seu.
Congelei.
— O quê?
Ele não se abalou antes de sair pela porta.
— Bem-vinda ao hostil mundo dos meus negócios, Angel.
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Algemas de Diamante.
RomanceSinopse: Anahi e Giovanna são irmãs gêmeas. Idênticas na aparência e diferentes na alma. Anahi sempre muito correta e doce. Giovanna caprichosa e ambiciosa. E por serem tão diferentes Anahi poderá pagar um preço muito caro por causa das ambições de...
