Anahi
Estava escuro e úmido. As paredes que me cercavam tornavam o espaço estreito e estavam pegajosas. Tão pegajosas que minhas mãos pequenas não conseguiam segurar as frestas entre os tijolos decrépitos.
Ainda assim, eu me esforçava para agarrá-los e me içar para cima. O esforço, entretanto, apenas fazia minhas unhas se partirem e arrancava sangue dos meus dedos. Gritei, mas minha dor não teve som. Assim como o meu desespero e nem mesmo a voz de Giovanna, acima da minha cabeça.
E então, o som apareceu. Preencheu meus ouvidos de forma metálica,como se várias moedas estivessem caindo no chão ao mesmo tempo.
— Giovanna! — Minha voz enfim se fez ouvir.
Meus olhos também enxergaram. Não as paredes cheias de musgo de um poço, mas um travesseiro macio. Depois um belo cobertor de estampa indiana.
Eu estava de volta à cama.
Fiquei aturdida por alguns instantes e precisei piscar os olhos para encontrar a minha coerência. Mas quando o fiz, encontrei um papel destacado às pressas sobre o travesseiro.
Puxei-o.
“Espero que tenha dormido melhor depois que a coloquei na cama.
Deixei Maite no quarto com você, porque tive medo de acordá-la quando precisei sair para ir à Londres. Volto pela tarde.”
Alfonso.
Era um bilhete conciso e informativo. Sem rosas para acompanhá-lo ou um simples “Com carinho” antes da assinatura. Mas o cuidado de Alfonso me pegou desprevenida. Tanto em relação ao bilhete quanto ao fato de ele ter me carregado de volta para a cama. Eu costumava ter o sono leve, principalmente em vista dos últimos acontecimentos, mas não sabia dizer em que momento Alfonso tinha me tirado do estofado.
E isso demonstrava com clareza a delicadeza com a qual ele tinha realizado a ação.
De repente, os sons claros de mais moedas caindo no chão mudaram minha atenção de lugar de forma instantânea. Descobri que viam da minha
bolsa, que estava sobre o aparador desde a tarde anterior. As moedas caíam
enquanto Maite a virava e tentava tirar dela alguma coisa.
Observei-a encontrar o meu melhor batom e o mais barato que eu já havia comprado na vida, uma prova incontestável de que marca de maquiagem não era tão relevante sempre. Maite não perdeu tempo, ela se
colocou de pé e deixou o Sr. Cabeça de Batata para trás para ir até o espelho
do outro lado do quarto.
Ela passou o antebraço pela boca e depois começou a saga. E por mais incrível que fosse, estava indo muito bem, até chegar ao arco do cupido.
Maite acabou criando um contorno muito maior e terminou tudo com um
belo borrado clássico.
Ri e me levantei da cama, indo até ela.
— A primeira vez é sempre a mais difícil — falei a alguns passos dela,mas já diante do espelho.
Maite se virou para mim, com os olhos arregalados e batom também nas bochechas.
— Oh, não. Nessa parte passamos blush — sorri enquanto me curvava
diante dela para limpar sua bochecha.
Considerei uma grande vitória quando ela não se afastou de mim.
Quando me afastei um pouco, entretanto, Maite deu um passo para trás. Seus olhinhos foram para o chão, de forma que o cabelo quase cobriu todo o seu rosto. Em seguida, ela me ofereceu o batom de volta.
Ao invés de aceitá-lo, eu afastei seu longo cabelo para trás de uma das orelhas.
— Seu cabelo é muito bonito — Maite ergueu o rosto novamente e seus olhos castanhos se concentraram nos meus lábios
— E acho que combina mais com esse batom do que o meu. Pode ficar.
Fechei meu batom na mãozinha dela.
Ela olhou para mim e depois para o batom. E então, um sorriso luminoso e manchado de vermelho se abriu para mim. Sorri de volta, completamente
encantada pela meiguice no seu olhar.
— Sabe, eu tenho mais coisas na minha mala — falei devagar. Já tinha percebido que ela conseguia ler os lábios. Mas me arrependi de não ter ido ao curso de língua de sinais que recebi em um panfleto no centro de Cancún,certa vez. De qualquer forma, não teria adiantado, já que a língua de sinais britânica era diferente da mexicana
— Posso te mostrar mais maquiagem.
Você quer ver?
De imediato, Maite meneou a cabeça com animação.
Eu não estendi minha mão, mas ela a agarrou mesmo assim e me olhou como se eu fosse a sua pessoa favorita no mundo. Exatamente como Alfonso me olhara, pouco antes de me beijar às portas de sua mansão.
Minha consciência me alertou de que eu não deveria me envolver
demais com aquela família. Ela não seria minha de verdade. Tudo acabaria
em um piscar de olhos.
Entretanto, eu não tinha forças para resistir.
Por isso, apenas abri um sorriso ainda maior para Maite e nós fomos
até minha mala. Juntas, nos sentamos com as pernas cruzadas no chão e
espalhamos a minha maquiagem cara como se estivéssemos em alguma
colônia de férias da Barbie.
— Você tem certeza de que eu estou ficando bonita,Maite?
Ela assentiu com a cabeça enquanto passava um blush terrivelmente rosa na minha bochecha. Blush esse que não devia combinar em nada com a sombra azul do olho esquerdo e a verde do olho direito. Nem mesmo com o
batom vermelho que dei a ela.
Eu devia estar entre o Patati e o Patatá. Mas não estava realmente me importando.
O olhar desconfiado que Maite dirigira a mim, quando nos encontramos no dia anterior, tinha simplesmente desaparecido. Ela parecia
tão animada. Divertindo-se com aquelas paletas de cores e me tendo como modelo.
Pela primeira vez, nos últimos quatro anos, eu consegui me lembrar da
minha mãe sem tristeza.
Isabela Portilla. Ela deixava que Giovanna e eu fizéssemos os penteados
mais horrorosamente elaborados em seu longo cabelo cacheado. Minha irmã e eu adorávamos brincar com seus cachinhos escuros e amarrar fitas ou colocar uma série de presilhas de borboletas coloridas.
Meu pai, Fernando Portilla, ao voltar do seu consultório com as roupas impregnadas do cheiro dos produtos de limpeza que apenas os dentistas possuíam, sempre entrava pela porta da frente no final da tarde e nos
encontrava nesse nosso pequeno SPA.
— Estão torturando a sua mãe com o que hoje, pequenas lagartinhas? —
Ele perguntava enquanto tentava escapar escada acima.
Mas, no final,Giovanna acabava o convencendo a fazer tranças no seu
cabelo ondulado que batia no queixo e era um resquício do jovem hippie que ele havia sido, anos atrás. Depois, tanto ele como a nossa mãe ia para a cozinha cuidar do jantar, com seus cabelos horríveis. Minha mãe era do tipo
que preparava a comida e lavava a louça e meu pai sempre a ajudava a limpar
tudo. E no final, ela nunca se esquecia do beijo de recompensa dele.
Aquilo tinha sido o meu ideal de felicidade a dois por muito tempo.
Lembro-me de pensar que queria crescer e ter uma vida igual. Com um marido com cheiro de esterilização bucal e que me beijasse com um sorriso no rosto enquanto tirava o molho grudento do macarrão dos pratos.
Engraçado como eu não podia estar mais longe daquele quadro no momento.
Mas talvez, se não fosse por aquele acidente aéreo, eu não estivesse naquela situação de casamento de conveniência. Não. Minha mãe teria parado os caprichos de Giovanna muito antes e meu pai teria me dado um de seus
conselhos sábios que vinham com moedinhas de cinquenta centavos.
— As pessoas dizem que se conselhos fossem bons, não seriam de graça. Cinquenta centavos validam qualquer coisa — ele explicava, exibindo seus dentes brancos e perfeitos. Mesmo que o gesto não tivesse muito
sentido, já que tecnicamente eu era quem deveria pagar pelo conselho
—Principalmente se você o encontrar na rua, virado com a coroa para cima validará sua sorte o dia todo.
Eu nunca tinha encontrado cinquenta centavos na rua para me trazerem sorte. Mas tinha guardado cada uma daquelas moedas que ele me dera. Quase quinhentos dólares, ao longo de treze anos de amor e proteção.
De repente, o barulho de algo se quebrando cortou minha linha de pensamento.
Maite tinha ido até minha mala e estava com a minha escova de cabelo nas mãos. Entretanto, minha caixinha azul com as lentes de contato estava destroçada no chão. Uma bela perda.
A irmã de Alfonso me olhou cheia de medo e seu lábio inferior tremeu.
— Ah, não se preocupe, Maite. — Saí da minha posição sentada e fui até ela. Acariciei seus cabelos e sorri — São apenas lentes chatas de usar.
E eu não estava mentindo. Sempre preferi meus óculos de lentes redondas, mas Giovanna não queria comparações que começariam conosco e que
terminariam com Harry Potter. Porém, eu não estava perto dela naquele
momento. Poderia tirar umas férias e usar meus confortáveis óculos. Se
Alfonso não gostasse... Bem, ele já tinha se casado comigo mesmo. Suas escolhas tinham se limitado no momento em que ele considerou uma boa
ideia colocar uma aliança no meu dedo.
De repente, me pareceu uma ideia atraente ser uma esposa horrível para Alfonso. Se ele achava que uma camisola de convento era o pior que eu
poderia ter... Mas não tive tempo para pensar no assunto, porque uma voz
quase aristocrática soou às minhas costas.
— Senhorita Anahi — A avó de Alfonso disse em um espanhol perfeito.
Virei-me de imediato e Maite me acompanhou.
Muito bem. Yolanda Herrera estava tendo outra visão nada satisfatória de mim, com o rosto completamente borrado por maquiagem.
Mesmo se eu quisesse refutar o ditado sobre a perseverança da primeira
opinião, todas as minhas outras chances de impressioná-la, com o mínimo de dignidade, tinham acabado de descer pelo ralo.
— Gostaria que almoçasse conosco — Yolanda acenou para Maite, que foi até ela — Em vinte minutos.
— Será um prazer. — Limpei as mãos na minha camisola. Claro, antes de me lembrar que elas deviam estar sujas de batom.
O olhar da avó de Alfonso caiu para onde eu apertava o tecido.
— Esperaremos pela senhorita nos jardins superiores. — Ela voltou a se concentrar no meu rosto com uma expressão severa — Gwen a levará até nós.
Assenti com a cabeça e apenas me lembrei de agradecer o convite depois
que ela se afastou da porta com Maite.
Se bem que não parecia um convite. Pensei enquanto corria para o banheiro, a fim de tirar todas as camadas de Anastasia Beverly Hills que
estavam no meu rosto. Estava mais para um ultimato antes da guilhotina.
— Espero que não se importe com os meus cachorros — Yolanda disse quando já estávamos sentadas no suntuoso jardim.
Eu tinha conseguido tirar toda a maquiagem, exceto por uma complicação com o batom permanente que tinha ido parar, de alguma
maneira, na minha testa. No final, acabei desistindo de esfregar a pele já avermelhada e apliquei um corretivo.
O céu azul límpido estava diante de nós, e mais uma vez, eu estava impressionada com a inconstância do tempo de Londres. Não tinha notado tão bem isso em minhas outras passagens pelo país. Mas também estava
sempre com muito trabalho, para notar qualquer coisa.
— Na verdade, eu me dou muito bem com cachorros — respondi, sincera
— Adoro animais.Como que para validar minhas palavras, o setter irlandês, que estava cheirando o pé de Maite, aproximou-se e colocou a cabeça na minha perna.
Um filete de baba escorreu na minha calça jeans enquanto ele me olhava de
um jeito meigo. Afaguei suas orelhas e vi seu rabinho balançar, animado.
O almoço tinha decorrido em silêncio e nós tínhamos deixado a bonita mesa branca coberta, no centro do jardim verdejante, para nos sentarmos em poltronas macias no que parecia ser uma área própria para tomar chá. Portas francesas brancas iam até as sancas em gesso, a altura completa do pé direito alto. E a vista atrás do vidro era magnífica.
Mais imponente que em um dos resorts de luxo que eu já estivera com Giovanna, uma piscina de águas turquesa dominava a paisagem de forma magnânima, cercada por verde e espreguiçadeiras brancas.
Eu tentava parecer não impressionada com tudo, mas estava ficando difícil, com toda a arquitetura daquela casa.
— Alfonso a construiu depois de ir a um hotel em South Beach — A avó de Alfonso disse enquanto também olhava pela janela. — Ele nada todas as manhãs, antes do sol nascer.
Não consegui evitar a imagem das costas musculosas de Alfonso,
salpicadas de água e tocadas pelos raios fracos do nascer do sol, enquanto ele deixava a piscina.
— É tudo de muito bom gosto — elogiei e voltei meu olhar para Yolanda.
Ela não se moveu. Continuava segurando a bengala e olhando a
paisagem além das portas.
Maite tinha deixado a poltrona ao nosso lado e se sentado no chão com Lady.
— Não é o que Alfonso acha — ela quase sorriu — Na verdade, ele sempre achou tudo nesta casa muito antiquado e exagerado. Mas, ainda assim, assumiu todas as obrigações quando percebeu que eu não conseguiria aguentar mais.
Procurei algo para dizer e não encontrei por alguns minutos. Então, estava prestes a falar de algum aspecto da arquitetura da casa, quando Yolanda me surpreendeu:
— Peço desculpas por ter me recolhido cedo ontem e não ter dado um jantar de boas-vindas a vocês.
Ela finalmente me olhou. Mas não parecia estar arrependida de qualquer
coisa. Ainda assim, apressei-me em aceitar as palavras dela:
— Está tudo bem, eu...
— Eu sei a razão verdadeira por trás do seu casamento com o meu neto,senhorita Anahi.
Meu coração parou por um instante, apenas para bater mais acelerado em seguida.
Yolanda Herrera, entretanto, prosseguiu com um semblante tão implacável como o do neto:
— Alfonso me disse toda a verdade.
Engoli em seco.
Alfonso tinha me passado segurança ao garantir que sua avó não sabia de
nada. Mas o olhar de Yolanda indicava claramente que ele estivera enganado.
Era provável que soubesse do desaparecimento do colar e que eu era irmã da mulher que o levara.
— Senhora Herrera, eu posso explicar...
Ela me dispensou com um aceno da mão que portava o anel com o rubi.
No entanto, foram suas palavras que me fizeram calar.
— Eu estou profundamente agradecida, meu bem — E então, os olhos verdes dela se encheram de lágrima. A mão com o elegante rubi pousou sobre a minha no descanso para braço da poltrona. — Não apenas eu, claro. Toda a
nossa família.
Eu não sabia o que fazer diante da cena.
Pelo que a avó de Alfonso estava agradecendo? Alfonso tinha me dito que
nosso casamento de fachada seria para simples fins jurídicos. Seria o problema tão grave assim? A ponto de afetar toda uma família?
Imediatamente, me arrependi de não tê-lo deixado contar os detalhes quando se mostrou disposto no carro.
— Se não fosse a senhorita, nós poderíamos acabar perdendo Maite. E
não suportaríamos isso. — Yolanda girou a cabeça e olhou para Maite, que
brincava com Lady, alheia à nossa conversa naquele momento — Alfonso sempre fez tudo pela irmã. Desde que Maite veio para casa, logo que saiu da maternidade, quando a mãe a rejeitou por ter nascido surda.
O som que saiu da minha garganta foi involuntário diante da revelação cruel.
Foi a minha vez de olhar para Maite. Ela usava uma jardineira e uma
blusa adornada por pequenos Snoops. Seu longo cabelo estava preso em um
rabo de cavalo por um elástico de unicórnio, deixando à mostra o aparelho auditivo em cada uma das orelhas enquanto ela coçava, feliz, a barriga de Lady.
Como qualquer pessoa poderia rejeitar um anjinho tão lindo?
— Quando Tessa não a quis, após a morte infeliz do pai de Alfonso, ele trouxe a nossa garotinha para casa — Yolanda prosseguiu — Ele tinha apenas vinte e quatro anos. A melhor época da vida de qualquer jovem. Mas
Alfonso não pareceu se importar com nada disso. Ele passou por cada noite
sem dormir. Passou pelas cirurgias de implante coclear e pelas sessões com
fonoaudiólogos. Cada um dos melhores do país.
A emoção que se ajuntava na minha garganta era impossível de controlar.
— Tessa não tinha se interessado pela criança, até o último ano. Depois
que se divorciou do último marido. No começo, eram apenas ameaças para extorquir dinheiro. Aceitamos, para manter Maite longe daquela mulher, mas agora ela parece querer conseguir mais. Então decidiu aproveitar-se do
meu infarto recente para salientar que não tínhamos condições de cuidar de
Maite e requerer a guarda pelos tribunais.
Eu estava em choque. Na minha mente, tinham passado diversos problemas jurídicos para os quais um casamento de conveniência poderia ser útil no mundo dos bilionários. Mas eu não esperava por aquilo. Não esperava que Alfonso Herrera, o homem irascível que conheci naquela noite
escandalosa no Oxford Palace, pudesse ser tão... Nobre.
A mão de Yolanda quebrou meus pensamentos.
— Então, muito obrigada, querida. — Ela sorriu para mim.
— Alfonso me disse como você foi bondosa e aceitou casar-se com ele, apesar de vocês terem um relacionamento bastante recente.
E ele ainda tinha pintado uma versão da história onde eu era um anjo salvador. Não uma garota cuja irmã resolveu roubá-lo.
Olhei para a gratidão nos olhos daquela mulher e vacilei.
— Eu... Eu... — As lágrimas enchiam cada vez mais a linha dos olhos verdes de Yolanda. No fim, eu disse a única coisa que achei correta e sincera:
— Estou muito feliz em ajudar— apertei a mão de Yolanda. — De todo o coração, muito feliz, e farei o que for possível. Prometo.
Foi a vez dos meus olhos se encherem de água.
Qualquer possibilidade de soluço foi interrompida, entretanto, quando
uma frase nada satisfeita e arrogante ecoou pela sala.
— O que está acontecendo aqui?
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Algemas de Diamante.
RomanceSinopse: Anahi e Giovanna são irmãs gêmeas. Idênticas na aparência e diferentes na alma. Anahi sempre muito correta e doce. Giovanna caprichosa e ambiciosa. E por serem tão diferentes Anahi poderá pagar um preço muito caro por causa das ambições de...
