Capítulo 12

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Alfonso

Por um segundo, pensei que todo o meu esforço tivesse ido por água abaixo, ao ver Yolanda se desmanchando em lágrimas.
Congelei.
Será que eu tinha confiado demais no meu poder de controle sobre as coisas naquela manhã?
Merda.
Como eu podia encontrar um problema atrás do outro? Eu precisava apenas de quatro semanas. Quatro malditas semanas para colocar as coisas em ordem, mas as complicações pareciam nunca terminarem.
— Ah, querido. Não se preocupe. Eu apenas estava contando à sua linda esposa a história dos meus molares.
Por um segundo, fiquei perdido diante das palavras de Yolanda.
— A história dos seus molares? — repeti, sem saber que tipo de entonação dar à pergunta que não parecia ter qualquer sentido dentro da situação.
— Sim, sim. Eu estava dizendo como foi complicada aquela obturação,e apenas ao me lembrar da dor tive vontade de chorar.
Muito bem, aquela era, obviamente, a pior desculpa para a qual eu já tinha visto a minha avó recorrer. Yolanda, entretanto, não pareceu nem um pouco preocupada com isso. Ela afastou as lágrimas do rosto e me lançou um olhar que dizia que não aceitaria ser questionada sobre o assunto. Eu reconhecia bem aquele olhar, porque tinha aprendido com ela.
De qualquer forma,Maite não me deu muito espaço para questionamentos. Ela deixou Lady e veio até mim. Suas mãozinhas ávidas foram diretamente para os meus bolsos, à procura dos chocolates de sempre.
— Desculpe, querida. Esqueci-me completamente dos seus chocolates.
— avisei, culpado.
Era uma tradição trazer doces de Londres para Maite, mas depois da
conversa com Christian e da notícia que ele trouxera naquela manhã, que me obrigara a agir como o pior dos canalhas, eu tinha ficado tão nervoso e disperso, que sequer havia me lembrado de passar em alguma loja de chocolates.
Maite se afastou de imediato. Ela cruzou os bracinhos diante do peito e projetou o beicinho inferior para revelar sua grande insatisfação.
— Não se preocupe, Alfonso. As Roses of Queen sempre trazem aqueles bolinhos de chocolate que Maite adora. E, esta tarde, eu sou a anfitriã da reunião para a organização do baile beneficente.
As palavras de Yolanda deviam trazer alívio para a minha culpa. Mas
não aconteceu. As Roses of Queen formavam um grupo de mulheres maduras e críticas da alta sociedade londrina. Todas se vestiam como se ainda
estivéssemos em 1950. Entretanto, a pior parte eram as netas solteiras que dariam ótimas esposas e que todas elas possuíam aos montes.
— Roses of Queen? Quem são? — A voz de Anahi surgiu na conversa, no momento exato para relembrar-me de que eu não teria mais que
lidar com aquele tipo de coisa.
Eu era um homem casado agora e minha bela esposa acariciava um dos
meus cães, curvada na poltrona verde musgo. Ignorando-me completamente,
mesmo depois da minha entrada intempestiva e acusatória na sala de chá,minutos atrás.
Quando ela se inclinou um pouco mais, eu me lembrei do momento em
que a ergui do divã para colocá-la na cama, no meio da noite. Ela tinha
reclamado e deixado escapar alguns sons engraçados enquanto eu realizava o movimento. Tinha até mesmo emitido meu nome com certa dose de desaprovação.
E aquilo havia me feito sorrir, mesmo que involuntariamente. Assim
como o “boa noite, marido” balbuciado em um bocejo na noite anterior.
Ambas as reações tinham me feito pensar, no meu carro a caminho de Londres, naquela manhã, sobre o quão delicadas seriam aquelas quatro semanas que passaríamos juntos. Porque era muito fácil confundir as coisas com a proximidade.
A convivência poderia ser traiçoeira e poderia me levar a pensar em como Anahi tinha se adequado perfeitamente ao cenário da minha casa.
Sorrindo para Yolanda enquanto ela tagarelava sobre as Roses of Queen,
como se as duas fossem conhecidas de muitos anos, e não de algumas horas.
Mas não era apenas isso.
O sol que entrava pelas portas francesas emprestava um brilho dourado à pele e ao cabelo castanho dela. Minha esposa parecia quase etérea, vestida com jeans simples, jaqueta azul surrada e all stars que já haviam tido dias melhores.
Eu deveria estar cuidando melhor de você, Angel. Seria o mínimo.
Era a segunda vez que a mesma pontada de culpa me atingia. Mas claro,agora era muito pior do que antes. Na nossa noite em Cancún, eu já tinha optado por colocar uma distância segura entre mim e Anahi, desde aquele desastre. No entanto, essa decisão parecia insuficiente após a situação que eu havia vivenciado no meu escritório, horas atrás.
Você é um maldito filho da puta, Alfonso.
Em vista do que eu estava exigindo de Anahi, eu deveria estar fazendo muito mais para me redimir com aquela garota.
— Alfonso não gosta de nenhuma delas, é claro.
— A menção ao meu
nome, entretanto, quebrou toda a minha linha intrincada de pensamento e o tormento que ela tinha despertado— Ele sempre foge para Dorset e diz que prefere atravessar a braçadas o canal da mancha.Anahi riu, hipnotizando-me com o som livre novamente, por um instante. Desta vez, no entanto, forcei-me a recuperar a sanidade logo.
Ela nunca poderia ser minha. Qualquer chance, por menor que já fosse antes, tinha se desfeito como fumaça naquela ligação de menos de cinco minutos. Então era melhor não perder tempo com sonhos impossíveis.
— Não tenho receio em afirmar que seria uma atividade mais proveitosa. — Acariciei Rhone, nosso Setter Irlandês mais velho.
Quando me ergui, encontrei o olhar de Anahi sobre mim. Finalmente.
Entretanto,surpreendi-me quando não vi nenhum traço da usual reprovação naquele azul límpido. Não havia nem mesmo um sutil erguer do canto dos lábios em sinal de desgosto ou o gesto irônico de sempre, revelado por aquele arquear de sobrancelhas delicadas.
Era quase como se ela estivesse enxergando outra pessoa.
Não. Era outra coisa. Talvez como se ela estivesse enxergando algo com exatidão. Anahi parecia estar me lendo, e por um momento, ela não me deixou qualquer alternativa de fuga. Tive um medo hediondo de que ela estivesse enxergando cada um dos meus pecados mais sombrios.
— Por que você não as leva até Dorset, querido? Eu posso ficar tranquila por aqui
— Yolanda cortou seja o que for que acontecia naquele momento. O ar voltou aos meus pulmões — Vigiada por aquele séquito de
enfermeiras que você contratou — ela não deixou de reclamar — Vocês podem ir a Poole e encontrar o doce de Maite lá. Além disso, você não pode deixar sua esposa enfiada nessa casa com aura de moléstia o dia inteiro.
A perspectiva de fazer uma viagem, mesmo que de alguns quilômetros,
não me soava muito atraente, depois do dia desagradável. E, infelizmente, eu
devia ter deixado isso nítido no meu rosto, porque Anahi apressou-se a dizer:
— Ah, não. Não se preocupe comigo, senhora Herrera.
— Yolanda, querida — minha avó a corrigiu, doce.
Anahi sorriu, tão carinhosa quanto.
— Acredite, eu estou bem — ainda assim, ela recomeçou. — Não
precisamos ir até Dorset.
E ela parecia realmente sincera e satisfeita.
No entanto, eu não estava. Porque no momento em que Anahi sorriu daquele modo tão inocente, meus tormentos se tornaram ainda mais evidentes dentro de mim.
Percebi que meu plano inicial, redigido mentalmente enquanto eu voltava para casa, não iria funcionar. Enterrar-me no escritório com um belo scotch não aplacaria em nada o meu martírio.
Além disso, um passeio seria o mínimo, diante das circunstâncias...
Foi então que o estalo aconteceu.
Diante do empurrão sutil de Yolanda, eu encontrei um plano para aliviar
ao menos os pecados cometidos naquela manhã. Parecia o de praxe, mas não havia solução muito melhor.
Naquelas quatro semanas, eu ofereceria a Anahi todas as barganhas do meu mundo. E também qualquer coisa que ela desejasse, por menor que fosse. Ofereceria a ela qualquer coisa que não fosse aquilo que tínhamos que aparentar ser durante aquele tempo perigoso: nós.
Tão logo a decisão estava formalizada na minha mente, as palavras já saltavam dos meus lábios:— Muito bem, que seja — Maite, que parecia ter entendido que toda a nossa conversa tinha terminado em passeio, abandonou Lady no chão e abriu um sorriso contente. Quando concentrei minha atenção em Anahi, não
dei tempo para que ela retrucasse — Estejam prontas em meia hora.
Era o melhor que eu poderia fazer, considerei, enquanto virava as costas e saía.
E não ajudava em nada. Na verdade, eu tinha a impressão de que apenas
me tornava ainda mais babaca.
— Você não precisava fazer isso. — Anahi disse tão logo descemos do carro, próximos ao porto de Poole.
Ela também não precisava ter feito aquilo. Melhor. Ela não devia ter feito aquilo. Era um infortúnio para o meu juízo o bom tempo inglês. Por causa dele, Anahi tinha soltado os longos cabelos castanho mel e colocado um belo vestido azul de alças finas.
Eu não queria responder tão imediatamente à bela visão daquelas pernas
torneadas. Mas o meu autocontrole tinha sido sabotado desde o momento em que coloquei os olhos nela pela primeira vez.
Entretanto, quando eu pensava já ter chegado ao meu limite, Anahi
tinha conseguido me pressionar ainda mais, coroando tudo aquilo com óculos de grau sérios.
— Nós não precisávamos ter vindo até aqui — ela continuou depois que
Maite deixou o Bentley preto e segurou a mão dela. Observei a aproximação espontânea e rápida da minha irmã, completamente impressionado — Você
deve estar cansado depois de sair tão cedo, Alfonso.
Não tão cedo quanto eu gostaria. Tinha tido dificuldades de dar as costas à visão dela na minha cama.
— Está tudo bem — garanti. E me forcei a procurar por mais palavras quando ela ajustou os óculos, fazendo seus seios perfeitos se moverem de uma maneira sexy. Por sorte, a presença da minha irmã funcionava como um bom inibidor do rumo complicado dos meus pensamentos
— Vamos encontrar os doces de Maite primeiro.
Não houve qualquer objeção.
Acenei para Hugh, o motorista da família, indicando para que ele nos esperasse no local.
Nós três então caminhamos pela rua mais ou menos movimentada e não demoramos muito a encontrar uma loja de chocolates. Maite interessou-se
por uma caixa com doces em formato de dinossauros. Ela voltou a esconder a sua mão na de Anahi, enquanto caminhava, satisfeita, por sua compra.
O que me levou a pensar na satisfação da minha esposa temporária.
— Nós podemos ir a algumas lojas de grife, no centro
— ofereci, certo
de que ela entenderia que meu cartão de crédito estava incluso no pacote.
No início, eu tinha receado pelo guarda-roupa de Anahi, temeroso de seu estilo simples, exceto na noite em que nos conhecemos, gerar qualquer desconfiança por parte da minha avó. Mas não aconteceu. Apesar de Yolanda ser extremamente crítica com relação a vestimentas, ela não pareceu importar-se com isso.
Na verdade, minha avó e minha irmã tinham acolhido Anahi tão
bem, que eu não sabia o que pensar daquilo.
— Oh, não! Aquilo é um antiquário?
Como minha pergunta tinha sido respondida com outra pergunta, fiquei
confuso por alguns instantes.
Deixei de fitar a praia diante de nós e olhei para ela.
Anahi tinha os olhos fixados na placa de um antiquário com cores desbotadas pelo tempo e pelo sal do mar.
— Sim — respondi simplesmente.
Os olhos dela se ampliaram.
— Podemos ir até lá?
Podemos. Foi inédito ouvi-la falar daquela forma. Podemos. De um jeito suave e quase doce. Nada parecido com boa parte das nossas últimas conversas, com exceção daquela prosa sonolenta na noite anterior.
Ela estava sendo gentil comigo. E não havia momento em que eu
mereceria menos um gesto como aquele.
— É claro.
Em alguns segundos, nós três entrávamos pela porta. Que anunciou nossa entrada através de uma sineta antiga e monótona no alto. Por dentro,tudo atendia ao esperado. Objetos velhos entulhados, abraçados pelo cheiro de poeira e coisas guardadas no mesmo lugar por tempo demais.
Anahi tropeçou no degrau que dava acesso à loja, mas minhas mãos
a firmaram rapidamente contra o meu corpo.
— Desculpe — ela murmurou, tentando girar um pouco o rosto na
minha direção.
O perfume da sua nuca atordoou todos os meus sentidos.
— Tudo bem — tentei repetir de forma mecânica — Nada aconteceu.
Nada aconteceu. Você ainda terá de contar essa mentira por longas semanas.
Anahi afastou-se, mas meu desejo por ela permaneceu. Aquelas nádegas firmes tinham mandado uma mensagem direta à minha virilha. Não ajudava em nada a visão que eu ainda guardava do traseiro dela empinado para mim. Do corpo dela como um todo.
Eu tinha me esforçado para exorcizar, com cuidado, cada uma daquelas imagens, ainda no banho. Reconhecia que agora, mais do que nunca, eu precisava esquecer de tudo. Da cor no rosto dela, da surpresa em seus olhos enquanto ela descobria o próprio prazer, da sua voz entregue.
Sim, senhor Herrera.
Se eu teria mentiras para contar para mim mesmo nos próximos dias, ali
estava uma verdade da qual eu precisava me livrar. Mas não imaginava como.
Maite puxou a manga do meu paletó, salvando-me do olhar perigoso que eu lançava a Anahi e, por conseguinte, de mim mesmo.
— Claro, querida — permiti em nossa língua comum — Mas lembre-se
de que já temos animais o suficiente.
Ela sorriu, feliz, e correu até a caixinha, perto do velho balcão de madeira maciça. A caixa estava com filhotinhos de gatos para doação. Fiquei
a observando por alguns momentos, feliz por tê-la comigo. Justificava em
partes a decisão nada honrada que eu tinha tomado.
— Boa tarde.
Um rapaz, surpreendentemente forte e com um visual de surfista de araque, saiu de dentro de uma das portas da loja. Quando seus olhos pousaram em Anahi, ele abriu um sorriso predador. Meu sangue congelou em uma reação primitiva e completamente estranha para mim.
— Em que posso ajudá-la, senhorita? — Ele mudou o tom de voz de forma ridícula.
Anahi sorriu de um jeito inocente, sem notar como o homem a devorava com o olhar. Ela estava visivelmente mais encantada com o lugar do que qualquer coisa. Analisava toda a loja como se não tivesse visto algo tão incrível na vida. De um jeito quase possessivo, na verdade.
— Ah, eu estou apenas olhando. Você tem coisas muito bonitas aqui. De
onde elas vieram?
Ela mexeu nos óculos, e o babaca deve ter feito a mesma leitura daquele
movimento que eu, porque os olhos dele caíram diretamente no decote de Anahi.
— Fique aqui, Maite — ordenei com gestos mais ríspidos do que eu
gostaria.
Enquanto me aproximava, entrei primeiro no campo de visão do surfista.
O idiota ainda teve a ousadia de me lançar um claro olhar de “afaste-se”,
como se já tivesse algum direito sobre a minha esposa.
Filho da puta.
Mas, ainda assim, eu me concentrei em abrir um sorriso tranquilo
enquanto tomava possessivamente a cintura de Anahi. Foi melhor ainda quando ela arfou ao ser prensada contra o meu corpo.
— Está tudo bem, querida?
Ela me olhou, confusa. Não resisti à proximidade daqueles lábios e os
toquei de leve. Não era um mal maior. Nada além do que eu já havia feito.
Anahi parecia um pouco torpe quando eu me afastei, e não consegui evitar um sorriso.
— O senhor... — o homem gaguejou e eu me lembrei da presença dele,
mas não afastei o olhar de Anahi — O senhor é Alfonso Herrera?
Com um suspiro de pesar, direcionei minha atenção a ele.
Todo o ar de afronta havia se dissipado do rosto dele. No lugar, havia uma expressão de choque temerário.
Em geral, eu detestava toda a publicidade que meu rosto e nome carregavam. Mas, naquele momento, saboreei o suor frio que brotou na testa
do rapaz. Ele sabia quem eu era, e o mais importante: reconhecia que não era um adversário à altura.
— Sim — emiti.
E foi a minha vez de enviar uma mensagem curta, com o olhar “Fique longe dela, garoto”.
O surfista de meia-tigela deu um passo para trás.
— É claro. Fiquem à vontade.
Sorri, cordial.
— Eu e minha esposa ficaremos.
Ele empalideceu e afastou-se como o diabo foge da cruz.
Ri. Mas minha diversão durou muito pouco. Apenas até Anahi me empurrar dela.
— Que idiotice foi essa?
— Idiotice? — Fiz-me de desentendido, como todo homem esperto.
— Sim. — Ela me encarou, irritada — Você está estranho desde que chegou e agora resolve surtar assim? Faltou pouco fazer xixi em mim para marcar território, Alfonso!!
Ela estava adoravelmente vermelha. As bochechas se tingindo mais a
cada segundo, mas quando achei que fosse explodir, Anahi apenas suspirou e me deu as costas. Verifiquei Maite com os olhos antes de segui-la. Anahi caminhou um pouco e depois parou. Pegou um prato de sobremesa. Uma velharia pintada a mão.
— Sabe, suas oscilações de humor estão acabando comigo — ela revelou, mas sem me olhar. Sua atenção estava concentrada na análise do prato — Primeiro é quente, depois frio. Então faz insinuações sensuais,
depois se recusa a me tocar. Eu não consigo mais entender o que você quer.
Tive vontade de dizer. Mas sabia que não poderia. Assim como sabia que Anahi estava certa. Eu não estava sendo justo com ela. Na verdade,estava bem longe disso. Mas estava me esforçando para fazer o melhor que podia dentro da situação.
Ela suspirou pesadamente mais uma vez, enquanto tocava o prato com
certa reverência.
— Você pode apenas... Ser sincero sobre o que espera de mim? Só
seja... sincero, Alfonso.
Eu não esperava nada. Mas queria tudo. Queria sua boca, seus braços e pernas em torno de mim, cada centímetro daquela pele macia. Mas eu era
ferrado demais para ela.
Por isso, fui sincero sobre a única coisa que poderia no momento.
— Você deveria levar o prato.
Anahi me olhou e piscou os longos cílios várias vezes.
— É tudo o que tem para me dizer? — Assenti. — Não vou levar. É caro demais, obrigada.
Obstinada, ela colocou o prato de volta ao lugar, mas quando tentou
afastar-se, eu a segurei pelo braço.
— Anahi, estou fazendo o melhor que posso por nós. É melhor não nos envolvermos. Acredite em mim. Você ficará aliviada depois que descobrir que...
— Descobrir que você fez tudo isso para salvar a sua irmã? Eu já sei,
Alfonso. Sua avó me disse. E você ainda me fez parecer um anjo salvador para ela, não a irmã da pessoa que a roubou.
Eu estava surpreso diante de suas palavras, mas fiquei sem reação quando as mãos dela seguraram meu rosto.
— Você é um homem bom, Alfonso. — Aquela era uma acusação que
ninguém ainda havia feito. — Por que está tentando esconder isso?
Afastei as mãos dela com delicadeza.
— Não, Anahi. Você não sabe do que está falando.
— Então me deixe saber — ela insistiu — Deixe-me ser sua amiga. Nós podemos ser amigos, não? Ao menos durante essas semanas.
Era um pedido legítimo. Também era comum demais para ser negado.
Mas a minha consciência alertava-me de que poderia não ser um caminho seguro.
Entretanto, Anahi tinha escolhido um péssimo dia. Meus ombros pesavam mais do que nunca, graças à culpa, e diante daquele olhar tão cheio de expectativas, eu me senti fraquejar.
Aquilo estava dentro do que podia oferecer a ela, não estava? Era claro
que Anahi não se interessava por coisas mais simples. Coisas como joias e roupas caras. Não. Ela queria uma droga de amizade. E eu não estava mais em posição de controle.
— Tudo bem. Podemos ser amigos, Angel.
Ela sorriu.
E nós selamos o acordo com um aperto de mãos. Mas considerei que um
beijo no rosto cairia melhor.
Retrataria a inevitável traição.

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