Alfonso
Eu sei que fui um bastardo egoísta e que a usei, mas eu me apaixonei por você.
Não era possível que eu tivesse acreditado na possibilidade de uma frase como aquela corrigir tudo. Que meus sentimentos anulariam o tamanho do erro cometido. A confiança quebrada.
Com um suspiro, permiti que meus músculos se recostassem na minha
poltrona enquanto fitava a pequena pilha terrível diante dos meus olhos.
Reunidos, agora com a assinatura de Anahi, estavam os papéis do nosso divórcio. Sobre eles, os dois anéis que dei a ela.
“Anahi, você é a mulher que eu amo e que escolhi.”
Aquelas tinham sido as minhas palavras quando deslizei a esmeralda
pelo dedo delicado dela. Sem imaginar a possibilidade de vê-las voltarem-se
contra mim um dia. Ou atormentarem minhas noites de sono na minha cama vazia demais.
Se bem que a cama era apenas um mero reflexo do meu coração. Eu
sempre achei que essa parte de mim estivesse perdida para sempre, mas tinha me enganado. Anahi o tinha resgatado de alguma forma. Ela tinha lançado luz nas partes mais sombrias de mim, e quando enxergara todas as imperfeições, simplesmente as aceitara. Ela me aceitara, mas, em troca, eu a tinha ferido.
Eu odeio você.
Fechei os olhos, como se essa ação fosse o suficiente.
Nada vinha sendo suficiente nos últimos dias. Nada. Mas, ainda assim,eu continuava a olhar os papéis e os destroços de nós dois.
Uma batida suave na porta me trouxe de volta.
— Alfonso, querido — Yolanda me deu um sorriso ameno. Vinha sendo apenas esse sorriso nas últimas três semanas
—Maite está esperando seu beijo de boa noite.
Sim. Outra tradição criada por Anahi. Ela estaria em cada parte do meu lar. Para sempre.
— Tudo bem, eu já irei subir — avisei.
Minha avó deixou o limiar da porta.
Aguardei alguns minutos, ainda olhando para os papéis na minha mesa
de nogueira. Então suspirei e deixei a biblioteca. Quando cheguei ao segundo
andar, tentei não deter minha atenção na porta do quarto que dividira com Anahi naquele último mês.
Ainda bem que agora eu passava boa parte da noite acordado na minha
biblioteca. Bebendo scotch e depois caindo de qualquer jeito no estofado que ainda tinha o cheiro do perfume dela.
— Maite — chamei quando abri a porta branca, incrustada de detalhes
em forma de folhas secas outonais.
Mas não obtive resposta.
Quando me aproximei, percebi que minha irmã já dormia sob a tênue luz
do abajur ao seu lado. Abraçada com o Sr. Cabeça de Batata. Curvei-me e
beijei sua testinha.
— Boa noite, querida — disse com carinho.
Entretanto, quando me virei para desligar o abajur, algo sobre o aparador prendeu minha atenção. Puxei a folha, e o que quer que estivesse por baixo,deslizou para o chão. Ainda assim, continuei concentrado em analisar o desenho.
“Família Herrera ” estava inscrito em cima. De um jeito orgulhoso e
ornamentado por corações irregulares.
Eram quatro seres humanos em formato de palito. Um deles usava o que deveria ser um chapéu azul elegante de fitas, comuns na cabeça de Yolanda durante o verão e a primavera. O outro usava terno. Ao lado dele, duas
garotas com vestidos estrelados e longos cabelos escuros davam as mãos.
As minhas garotas.
— Ela sente falta dela. Todos nós sentimos. Inclusive você. — A voz de Yolanda soou da entrada do quarto. — Ou vai ser tolo mais uma vez e negar isso?
Não a respondi.
Coloquei o desenho de volta no lugar e me curvei para pegar o pedaço
mais grosso de papel que tinha caído no chão antes, então fui até minha avó.
— Não se atreva a passar por mim sem me responder, Alfonso Herrera.
Com calma, parei a alguns passos diante dela no corredor.
— É claro que sinto falta dela — Uma falta dolorosa. Corrosiva — Mas eu menti para ela. E toda essa história começou do jeito errado.
Minha avó já conhecia todo o enredo.
Anahi fizera questão de que tudo fosse esclarecido antes que ela fosse embora. Exatamente vinte e seis horas depois de saber a verdade.
Vinte e seis horas, trinta e oito minutos e doze segundos. Fora o tempo
que eu levei para descobrir que meu coração agora batia fora do peito.
Yolanda se aproximou e segurou meu braço.
— Mas pode terminar do jeito certo, querido.
— Não sei se isso é possível — neguei com a cabeça — Posso tê-la perdido para sempre.
Eu já havia tentado contatá-la. De todas as formas possíveis. Até mesmo através de Giovanna, mas Anahi não voltara a falar comigo. Devolvera o
dinheiro com o qual eu quis compensá-la, em silêncio. Ela não queria aceitar minhas palavras. Como eu poderia ter qualquer chance de ver aceito o meu coração?
— E eu... Eu não a mereço — Simplesmente deixei a verdade daquelas
três semanas se esvair.
— Por Deus, Alfonso Herrera! — Yolanda colocou uma mão na cintura, sobre seu robe elegante — Eu o criei para ser mais inteligente e corajoso que isso, não?
— Yolanda...
— Nunca se tratou de merecimento. Sempre se tratou do coração,
Alfonso. Se não enviou aqueles papéis de divórcio, depois de todo esse tempo,é porque não é o que o seu coração quer de verdade — ela prosseguiu. E
então, suas mãos seguraram meu rosto — Amar alguém não é uma promessa de que vamos ser perfeitos e não iremos machucar essa pessoa nunca, Alfonso.
Mas é a certeza de que vamos estar lá para tratar as feridas que causarmos.
Sempre.
Não soube o que responder diante daquelas palavras sábias.
Yolanda não parecia querer resposta, entretanto. Ela beijou minha bochecha e afastou-se.
— Pense nisso, querido. E lute pelo que quer — orientou e pousou a
mão com o rubi sobre o meu peito —Mas precisa deixar o passado para trás e seguir o que sente, se quiser ter um futuro feliz, meu neto. A escolha sempre foi sua.
E com esse último conselho, minha avó se foi.
Fiquei parado no corredor iluminado. Repassando todas as últimas palavras dela. Assistindo-as se misturarem com todo o restante na minha mente.
Não sei por quanto tempo permaneci naquela mesma posição. Mas em
algum momento, me dei conta de que ainda tinha um papel grosso nas mãos.
Virei-o e percebi que era um cartão.
Na verdade, um cupom de inauguração. E devia ter vindo pelo correio,
atravessando os atlânticos sul e norte no método mais antiquado possível.
Típico dela.
Apertei-o entre os dedos.
Yolanda tinha razão. A escolha sempre foi minha. Mas talvez fosse o
momento, pela primeira vez na minha vida, de realmente escolher pelo meu coração.
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Algemas de Diamante.
RomanceSinopse: Anahi e Giovanna são irmãs gêmeas. Idênticas na aparência e diferentes na alma. Anahi sempre muito correta e doce. Giovanna caprichosa e ambiciosa. E por serem tão diferentes Anahi poderá pagar um preço muito caro por causa das ambições de...
