Anahi
- Espero que um dossel faça parte das coisas antiquadas das quais gosta - Alfonso disse logo após empurrar a porta branca para me dar passagem.
Aquele Alfonso repleto de gentilezas estava sendo desconcertante.
- Obrigada - murmurei, antes de tomar a dianteira e entrar no quarto.
O lustre refletindo contra o espelho que cobria toda a parede da cabeceira foi a primeira coisa que notei. Depois disso, o dossel moderno e branco, caindo delicadamente ao redor da cama de madeira clara.
Era o quarto mais bonito que eu já havia visto. Com janelas amplas que permitiam a entrada do pôr do sol.
- É lindo - admiti.
Eu ia acrescentar mais alguma coisa, mas minhas palavras sumiram
quando vi Alfonso pelo espelho. Ele estava parado atrás de mim, muito mais
perto do que eu tinha imaginado, e seu olhar estava concentrado na cama. Por
um momento, sua mão pareceu se erguer um pouco e toda minha pele se
arrepiou na expectativa de um toque.
E, de repente, uma visão inesperada de nós dois juntos naquela cama e diante daquele espelho consumiu minha mente.
Mas Alfonso recuou no instante em que seus olhos encontraram os meus
no nosso reflexo.
- A viagem foi longa. É melhor que tome um banho e descanse. - Foi tudo que ele emitiu.
E depois de um suspiro longo, Alfonso se afastou.
- Mas e você? - As palavras saíram da minha boca quando o vi alcançar a maçaneta da porta. Quando os olhos verdes me fitaram, sérios, eu me perdi por alguns instantes.
- Quero dizer, não devia descansar também, senhor Herrera?
Que pergunta absurda. E que sentimento absurdo aquele de não querer vê-lo afastar-se.
Um sorriso inclinou com charme sua bochecha direita.
- A resposta está na sua pergunta.
Franzi o cenho, confusa.
Ele pareceu achar aquilo ainda mais divertido.
- Não se preocupe comigo. Apenas descanse um pouco. Tudo ficará bem, esposa.
Mas quando ele saiu, fechando a porta suavemente, não consegui
acreditar nas palavras dele. A imagem de nós dois diante do espelho ainda dominava a minha mente e parecia o prenúncio de dias complicados.
Quatro semanas, Any. Concentre-se nisso. Quatro semanas.
Aconselhei a mim mesma.
E então concordei com Alfonso. Um banho seria muito bem-vindo.
Talvez levasse pelo ralo todas as ideias mal pensadas que eu vinha tendo. Era exatamente de uma magia assim que eu estava precisando.
Entretanto, quando me levantei da banheira sofisticada, minutos depois,
e tirei o tampão, eu estava mais convicta ainda de que meus problemas do momento não desceriam pelo ralo.
Na verdade, as coisas pareciam pior.
O que estava acontecendo comigo? Por que aquele homem conseguia ter
um efeito tão incomum sobre mim?
Claro que minha irmã tinha culpa em toda aquela situação. Mas a maior
culpada era eu mesma. Duas vezes. Primeiro: por sempre encobrir os caprichos impensados de Giovanna desde a nossa infância e continuar fazendo-o.
E segundo: por ter dito sim a Alfonso. Naquele escritório, com os lábios dele no meu pescoço e com suas mãos imorais em mim. E depois na frente de um oficiante, mesmo sabendo que não devia fazê-lo.
Eu tinha decidido dar um basta em tudo, quando estávamos no carro.
Mas temia pela minha decisão de me manter firme se Alfonso continuasse
sendo gentil e lançando garotinhas doces no ar com seus braços fortes.
A cena dele com a irmãzinha adorável surgiu na minha mente, mas a empurrei depressa.
Não queria pensar muito sobre nada daquilo. De qualquer forma, não
havia outra solução. Eu estava ali para redimir uma dívida e já tinha concordado em entrar naquela história. Agora precisaria levá-la até o final.
Qual é, Anahi. Você não é nenhuma adolescente. Não vai pular em cima de Alfonso Herrera apenas porque estão no mesmo quarto.
Era verdade. Eu não era mais uma adolescente. Tinha até assustado um homem por ser virgem aos vinte e cinco anos de idade. Eu poderia lidar com aquilo. E depois, Alfonso havia dito que tudo poderia acabar em quatro
semanas. Não era tanto tempo assim.
Além disso, eu não poderia passar quatro semanas fazendo algo ridículo como fugir e me esconder. Eu já havia feito aquilo por tempo demais. Na verdade, tinha sido fugindo e me escondendo que havia esbarrado em Alfonso
e terminado naquela confusão dos diabos.
Com um suspiro resignado, mas sentindo que ser sincera comigo mesma me deixava com as rédeas de tudo aquilo nas mãos, enrolei-me em uma toalha e meus pés encontraram o chão gelado de marfim.
Enquanto colocava minhas roupas usadas debaixo do braço, escutei pingos de chuva bater contra a janela de vidro. A Inglaterra e seu clima chuvoso de sempre. Era estranho, mas eu gostava. E por isso estava sorrindo
quando empurrei a porta e dei de cara com Alfonso. Ele estava sentado na
beirada da cama, de frente para mim e usando apenas as calças casuais de antes.
Forcei-me a parar, mas isso não o impediu de erguer o rosto do carpete e
me flagrar. Em seguida, ele refez o caminho com tranquilidade. Demorando
seu olhar nas minhas pernas úmidas e depois no nó atado perto dos meus seios.
Fiquei toda quente. E Alfonso percebeu, porque sorriu de um jeito sexy antes de falar:
- Apenas queria avisá-la de que poderá ficar tranquila com relação à sua privacidade.
- É sério? - falei, arqueando a sobrancelha e esperando que ele compreendesse a ironia de suas palavras na situação.
Ele entendeu. E soltou uma risadinha profunda. Tentei não olhar muito para aqueles músculos bem definidos que tremeram com o som.
- Sim. - Ele passou a mão pelos cabelos, despenteando-os como um
modelo em uma propaganda de colônia masculina cara - Nós não vamos dormir juntos.
Era a segunda vez que ele me dava a notícia no mesmo dia. E pela segunda vez, apesar de todo o meu esforço para não pensar daquela forma,
não consegui conter meu sentimento de insatisfação. Entretanto, fiz questão
de demonstrar o contrário:
- Sabe, pode ser uma surpresa para o seu ego de bon vivant. Talvez o
senhor até caia se debatendo no chão com o fato, mas não gasto cada segundo do meu tempo pensando em transar com o senhor. -Mentira! - Não precisa começar a acreditar que é algum deus do sexo fazendo favor às mortais.
Cruzei os braços e me encostei à porta do banheiro. Como se estivesse completamente segura dentro de uma toalha cara de algodão.
Alfonso abriu ainda mais seu sorriso e também se encostou despojadamente no pilar que sustentava o dossel.
- É mesmo? - Ele imitou a minha expressão, movendo a sobrancelha.
- Eu posso assegurar, senhor Herrera.
Os olhos dele pareceram ganhar um brilho malicioso após as minhas
últimas palavras. Alfonso percorreu meu corpo com ainda menos cerimônia desta vez.
Não consegui fugir da resposta daquele olhar, e minhas coxas se aproximaram uma da outra antes que eu pudesse pensar direito. Tentei disfarçar, desencostando-me do limiar da porta.
- Isso seria uma pena - concluiu por fim, ao voltar a me olhar nos olhos.
- Para o seu ego de bon vivant? - provoquei-o.
Alfonso não respondeu. Ele endireitou o corpo e veio na minha direção. A surpresa da ação me fez recuar um passo.
- Não, senhorita Portilla. - Ele parou diante de mim, mas muito mais próximo do que deveria - Seria uma pena, porque comigo acontece justamente o contrário.
Ele brincou com um fio de cabelo úmido que se desprendia da minha nuca e tinha ficado colado ao meu ombro. Seus dedos me tocaram de leve,mas eu me ouvi ofegar.
- A mentira é muitas vezes tão involuntária quanto a respiração, senhor Herrera. - Tentei manter a cabeça no lugar.
- "Bon vivant" e uma passagem de Machado de Assis. - Alfonso me
surpreendeu ao conhecer um autor brasileiro, enquanto continuava a enrolar
meu cabelo nos dedos, prendendo a atenção de nós dois no seu movimento -
Não sei o que mais corrompe o meu juízo, senhorita Portilla. Sua beleza ou
sua inteligência. Mas desconfio que seja essa combinação perigosa dos dois.
Ele finalmente me olhou. Fiquei muda quando a mão dele colocou a mecha de cabelo, com gentileza, sobre o meu ombro outra vez.
- Por isso vou dormir no quarto adjacente e estaremos seguros. Unidos e separados por uma porta de ligação.
E então, Alfonso deu dois passos para trás. Deu-me as costas musculosas e agarrou a camisa que estava sobre a cama. Mas antes de abrir o que presumi ser a porta de ligação da qual falara antes, ele voltou a se virar na minha direção.
- Se precisar de mim, é só bater. Vou pedir para que o jantar seja servido no quarto - avisou e depois soltou um suspiro que parecia carregado de tensão
- E apesar de ter concordado com seus termos antes, acredito que seja melhor nos tratarmos pelo primeiro nome. Do contrário, nenhuma porta de ligação nos salvará até o fim de tudo isso, Anahi.
Devia ser mais de meia-noite. Mas, ainda assim, eu tentei a décima chamada do dia para Giovanna.Nada.
Desistindo, coloquei o telefone sobre o aparador ao lado da cama e enterrei a cabeça no travesseiro, mesmo sabendo que não conseguiria pregar
os olhos por causa de todos os pensamentos que rondavam a minha cabeça.
Minha preocupação com Giovanna aumentava a cada dia. No início,preservar sua carreira tinha sido a minha prioridade. Não era como se fosse a primeira vez que minha irmã desaparecia. Mas nunca tinha feito isso levando junto uma joia que não era sua. Uma parte de mim tinha medo de que
estivesse acontecendo alguma coisa séria com ela e queria simplesmente ligar
para a polícia. Entretanto, isso significaria deixar o roubo se tornar conhecido
e escandalizar a carreira dela para sempre...
Todas as decisões pareciam erradas e arriscadas naquela situação complicada.
Fechei os olhos e tentei me concentrar em dormir. Ficar remoendo não adiantaria nada. Assim como ficar pensando na recepção fria da avó de Alfonso. Eu apenas precisaria parecer "a esposinha" por quatro semanas.
Depois não veria mais aquelas pessoas. Então, que diferença fazia se iriam
gostar ou não de mim?
Depois de mais alguns minutos arrastados e quando o sono parecia finalmente estar chegando, o barulho de uma batida na porta me fez acordar, assustada. Nos primeiros momentos, sentada sobre o colchão macio, até considerei que fosse um sonho. Mas a batida se repetiu. Uma, duas, três
vezes.
Saltei da cama e corri até a porta de ligação.
- Alfonso - chamei, e foi a minha vez de bater contra a madeira, nervosa.
Ele não tinha me dito nada sobre possíveis visitas noturnas. Talvez a avó dele tivesse percebido nossa farsa mal ensaiada e viera tirar satisfação.
O pensamento me fez pressionar e bater ainda mais vezes, sem parar.
Até que o nó dos meus dedos deixou de bater na porta fria para encontrar músculos duros, mas quentes.
- O que está acontecendo? - Alfonso me perguntou com a voz rouca.
Afastei a mão dele de imediato, mas não consegui afastar meu olhar da
cueca box preta.
Ele devia estar tendo um sonho bom.
- Sua avó - calei meus pensamentos com esforço - Acho que ela está na...
Uma nova batida na porta encerrou minha frase.
- Merda! - O nervosismo ficou claro no verde dos olhos dele, apesar da penumbra. As mãos dele avançaram para a minha camisola. - Rápido,tire isso.
Dei um salto para trás.
- Você ficou maluco? Não vou tirar nada, seu tarado!
- Nós somos um casal de recém-casados e deveríamos estar trepando como coelhos. Essa tenda branca que você está usando é uma confissão de celibato!
Abri a boca, ofendida.
- Minha mãe me deu essa camisola!
- E ela pretendia que você fosse para algum convento? - ele ironizou
- Pelo amor de Deus, Anahi. Não há nada aí que eu não tenha visto e eu sou seu marido.
Eu ainda não tinha pensado na palavra "marido" até ali. E a solenidade que Alfonso deu a ela me agradou de forma inesperada.
Ainda bem que a batida na porta, bastante impaciente dessa vez,
interrompeu minhas ideias absurdas.
- Tudo bem. Apenas se deite na cama e deixe o resto comigo - Alfonso disse depois de tirar um robe do closet. Depois começou a caminhar na direção da porta.
Não discuti.
Corri para a cama e remexi as cobertas ao meu lado para que parecesse que havia mais alguém ali.
Então fiquei quieta, apenas esperando, com os olhos colados na porta.
Entretanto, quando Alfonso acendeu a luz e a abriu, não vi ninguém. Tudo se transformou em silêncio de uma hora para outra. Confusa, empertiguei-me na
cama para tentar ver melhor o que estava acontecendo.
Meu marido de conveniência se abaixou, e dessa forma eu consegui enxergar. Bracinhos delicados rodeavam o pescoço de Alfonso e de uma das mãos pendurava-se um Sr. Cabeça de Batata. Mas os olhinhos nada acolhedores estavam em mim.
E eles não se afastaram em momento algum.
- Você precisa voltar para o seu quarto, Maite. - Alfonso a colocou no chão.
Mas Maite negou com a cabeça e apontou para mim. Ou para a cama.
Não dava para ter certeza.
- Não pode dormir aqui - Alfonso negou com a cabeça enquanto falava na língua de sinais.
Mesmo de onde eu estava, pude ver a garotinha se encolher e seus olhos se encheram de água.
- Não seja tão duro, Alfonso. Ela pode ficar - falei, já saindo da cama.
- Não, não pode. Ela sempre dorme na cama dela, e não se devem estimular maus hábitos.
O tom dele era tão paternal que me fez sorrir enquanto me aproximava.
- Não são maus hábitos - Toquei o ombro dele, mas recuei ao perceber tê-lo feito. Olhei para a garotinha e seu olhar se tornou desconfiado
mais uma vez - Ela apenas deve estar com saudades de você.
Minha simples frase deixou Alfonso desconcertado por um instante.
Decidi deixá-lo de lado por algum tempo e me abaixei para falar com Maite
- Oi,Maite - Ela se concentrou nos meus lábios. - Sou Anahi. Tudo bem?
Ela apenas ficou quieta, observando-me. Mas então, o barulho de um trovão a fez apertar com aflição o Sr. Cabeça de Batata.
Eu sabia pouco sobre surdez, mas já tinha lido sobre a capacidade de certos barulhos serem ouvidos. E Maite, com certeza, detestava aquele.
- Ah, querida... - Tentei tocá-la.
Mas ela se desviou de mim e escondeu-se atrás de Alfonso.
- Deixe-a ficar aqui no quarto com você. - Levantei-me e olhei para
Alfonso - Ela parece estar assustada com a chuva.
Sequer permiti que ele me contradissesse. Fui até a cama e puxei um dos
cobertores para mim.
- Eu posso ficar no outro quarto.
Mas quando atravessei os aposentos até a porta adjacente e a empurrei,
percebi que ali não se tratava de um quarto. Era apenas um cubículo com uma
cama apertada. Eu consegui imaginar perfeitamente a sensação que me traria
quando a porta estivesse fechada. Ficar em lugares pequenos e fechados era
insuportável para mim desde a minha infância no orfanato.
Memórias ruins tentaram me alcançar, mas eu as abafei depressa.
- Melhor. Irei dormir no divã. - Recuei até o móvel diante do lado direito da cama e dispus meu cobertor.
- Está falando sério? - Alfonso parecia incrédulo enquanto eu me acomodava.
- Tanto que já me deitei. - Suspirei depois de ajeitar uma almofada atrás da nuca - Não se preocupe comigo. Maite precisa da sua atenção.
Ele hesitou por alguns instantes, mas quando olhou para a irmã, percebi
seus músculos relaxarem em rendição.
- Uma noite, querida.
Maite sorriu, mostrando os dentinhos em idade de troca. Alfonso sorriu de volta, mostrando outra vez aquela personalidade tão distinta. Ele ergueu a menina nos braços e a levou para a cama.
Virei-me para o canto para dar privacidade aos dois e tentei resgatar o sono. Não sei quanto tempo se passou, mas sei que estava quase dormindo,quando uma voz suave me trouxe de volta.
Demorei algum tempo para perceber e precisei me virar para conferir com meus próprios olhos para acreditar.
Alfonso realmente estava cantando. Baixo e profundo, enquanto embalava a irmã nos braços grandes e fortes.
Quando ele terminou a canção, seus olhos encontraram os meus.
- Você sempre a faz dormir assim? - A pergunta saiu espontânea.
Ele assentiu e depois aconchegou Maite na cama. Havia cuidado e adoração em cada um dos seus movimentos.
- Ela sente a vibração quando canto.
Foi a minha vez de assentir com a cabeça.
Alfonso ergueu a mão e desligou o abajur, deixando-nos na escuridão. E,de alguma forma, a confidencialidade da escuridão me encorajou. Ou talvez fosse a sonolência que parecia me deixar um pouco zonza, como um vinho de
uma boa safra.
- Estou começando a achar que você pode ser melhor do que tenta aparentar, Alfonso Herrera - falei depois de bocejar e enquanto sentia
minhas pálpebras pesarem.
O som de uma risada masculina abafada ressoou.
- Boa noite, Anahi - foi tudo o que ele me respondeu.
- Boa noite, marido.
Falei sem ter mais qualquer consciência do que saía da minha boca.
Ainda bem que tudo sumiu em seguida.
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Algemas de Diamante.
RomanceSinopse: Anahi e Giovanna são irmãs gêmeas. Idênticas na aparência e diferentes na alma. Anahi sempre muito correta e doce. Giovanna caprichosa e ambiciosa. E por serem tão diferentes Anahi poderá pagar um preço muito caro por causa das ambições de...
