Anahi
Todas as minhas esperanças de conseguir um pouco mais de prazo e da paciência de Alfonso Herrera se foram assim que ele me deu as costas,inquestionavelmente irritado.
— Venha comigo. Agora.
Como eu podia ter despertado a ira do homem com menos de três palavras?
No entanto, eu não podia fazer nada, senão segui-lo pelo mármore escuro.
Aquele era o escritório mais claro que eu já tinha visto na vida. As paredes eram de um branco frio e impessoal. Os detalhes em aço e vidro
também deixavam a atmosfera ainda mais intimidante.
Na verdade, eu já estava intimidada desde que cheguei ao edifício
Safira. Minhas pernas tremiam enquanto eu ouvia as instruções que a moça
de olhos orientais e pele chocolate me enunciara na recepção.
E não era para menos. Eu sentia que estava prestes a ser destroçada.
“Depois disso, entretanto, considerarei o débito como seu.”
Aquelas palavras tinham me atormentado durante os últimos quatro dias.
Quatros dias em que também procurei por Giovanna desesperadamente.
Primeiro através do celular dela, mas o número parecia fora do ar. Depois passei aos seus amigos mais próximos. Socialites, herdeiras e outras modelos.
Nenhuma delas sabia qualquer coisa sobre a minha irmã.
Na tarde anterior, meu desespero tinha alcançado níveis extremos.
Entrei em contato com todos os ex-namorados de Giovanna. Dos mais
escandalosos aos encontros de apenas uma noite. Eles também não sabiam
dela. Era como se Giovanna tivesse simplesmente desaparecido.
Naquela segunda fase, toda a raiva pela minha irmã havia se transformado em mágoa. Giovanna sabia que, como sua assessora e irmã, seus
problemas sempre se tornariam os meus. Como ela poderia ter me colocado
em uma situação daquelas e não se importar? Como Giovanna podia simplesmente desaparecer com um milhão de libras e me deixar em seu lugar
para arcar com todo aquele desastre?
— Sente-se — Alfonso disse quando passei por ele e entrei no que
parecia ser uma sala de reuniões.
Tinha uma mesa escura e redonda, com cadeiras de couro dispostas.
Atrás delas, as luzes da cidade brilhavam contra a noite escura.
A vista me tirou o fôlego por um segundo.Ainda estava olhando para ela, quando o perfume amadeirado dele me
envolveu.
— O que o senhor...
— Vai mantê-la aquecida — Ele respondeu simplesmente e deixou o terno caro sobre meus ombros.
Olhei para a peça, incrédula.
Aquele homem estava prestes a arruinar a minha vida, mas antes tinha
decido fazer uma gentileza?
— Deseja beber algo? — Ele já se encaminhava para o pequeno bar.
— Não — respondi rápido.
Já tinha me enfiado em desastre o suficiente na última vez em que fiquei
bêbada perto dele.
Alfonso então simplesmente mudou de rota. Numa economia elegante e
invejável de movimentos, ele se sentou na outra ponta da mesa, diante de mim. Depois reuniu suas mãos grandes sobre o vidro.
O pânico fechou a minha garganta assim que aqueles olhos verdes oliva
concentraram-se nos meus. Percebi que se eu não falasse logo, correria o
risco de simplesmente não conseguir falar nada mais tarde.
— Eu não a encontrei — atirei.
Seu rosto não expressou nada por um longo tempo. E então...
— Eu sei que não.
Foi cortante. Soube de imediato que meus dias e os de Giovanna no mundo
difícil da moda tinham se encerrado.
— E o que... — minha garganta estava seca
— E o que senhor pretende
fazer? Vai registrar uma queixa por roubo?
Meu queixo tremia, mas lutei para manter a cabeça erguida.
Ele não me respondeu de imediato. E quando falou, nem uma das palavras fez sentido por alguns instantes.
— Existe algum namorado na sua vida, senhorita Portilla?
A tranquilidade da pergunta deixou tudo ainda mais confuso para mim.
— Namorado?
— Sim, senhorita Portilla. Alguém que a leva para jantar e compra flores. Que a leva para uma suíte de hotel.
Abri a boca, ofendida.
— Quem o senhor acha que eu sou? Eu jamais teria permitido que me
tocasse daquela forma se tivesse algum namorado.
O canto esquerdo daqueles lábios sensuais se ergueu.
— Ótimo. — Ele se ergueu da poltrona com agilidade — Isso era tudo que eu precisava saber.
— E por que minha vida amorosa interessa ao senhor?
Alfonso me respondeu com outra pergunta:
— Está interessada em manter sua irmã longe de alguns anos de prisão?
Era o assunto que eu tinha vindo discutir, mas quando as palavras saíram
ríspidas da boca dele, meu susto não foi menor.
— Você pretende mandá-la para a prisão?
Alfonso deu de ombros, antes de enfiar as mãos despojadamente nos
bolsos da calça social. Precisei me esforçar para não me concentrar em como
seus músculos se expandiam por baixo da camisa branca.
— Não é uma pretensão. É uma realidade simples, já que ela me roubou.
— Tenho certeza de que não foi essa a intenção dela. Ela apenas queria ser notada pelo senhor.
Ele me olhou com descrença.
— Sejam quais fossem as intenções da sua irmã, ainda continua sendo um roubo.
Eu sabia que ele tinha razão.
Mas era Giovanna. Se eu não lutasse por ela, quem o faria? Nós éramos tudo o que possuíamos.
— Se o senhor puder esperar um pouco mais...
Comecei a implorar, mas ele me interrompeu:
— Não pretendo esperar mais nem um segundo.
— Por favor, senhor Herrera. Ela é minha irmã —continuei
tentando apelar
—Não é uma pessoa má e não precisa de dinheiro. Foi uma
estupidez, sim, mas talvez... — Dei a volta na mesa para ficar diante dele
—Talvez eu possa pagar pelos diamantes.
— Tem um milhão de libras em alguma conta que possa transferir ainda hoje?
Era óbvio que não. Eu não era a supermodelo. Era apenas a simples assessora.
— Não — admiti.
Alfonso sorriu, vencedor.
— Foi o que imaginei.
— Quem sabe, se o senhor dividir em prestações?
Sim. Prestações de uma vida inteira, quem sabe.
— Não estou disposto. — Ele me encarou, implacável.
A exaustão me atingiu.
Finalmente e depois de quatro dias.
— Não posso suportar vê-la cair em desgraça —desabafei.
Porque o que Giovanna faria sem sua carreira? Aquela era a vida dela.
Apesar de seu gênio intempestivo e de suas atitudes impensadas, eu sabia que Giovanna amava a vida de modelo. E aquela vida a amava.
Eu poderia conseguir outro emprego, sem problemas.
Mas Giovanna, não. Ela seria devastada. Não resistiria.
Antes que eu pudesse me controlar, uma lágrima inesperada deslizou
pela minha bochecha, ameaçando deslocar minha lente de contato.
Entretanto, mais inesperado ainda foi o polegar que a recolheu.
Ergui o rosto e encontrei os olhos inflexíveis de Alfonso em mim.
— Você é muito leal a ela. — Seus lábios se moveram de forma quase hipnotizante.
— Eu a amo. Giovanna é a única família que possuo.
O polegar passou a acariciar a minha bochecha, refreando o meu impulso de afastar-me.
— E família é a coisa que mais importa para você.
— Não deve ser assim para todo mundo?
Alfonso ficou em silêncio. Seus olhos analíticos nos meus, mas sem
revelar nada sobre seus pensamentos.
— Talvez haja uma forma de salvar sua irmã — ele revelou, por fim.
Minha esperança se acendeu.
— Eu faço. Qualquer coisa que o senhor desejar.
Um sorriso esticou os lábios dele.
— Não devia concordar tão precipitadamente com um acordo sobre o
qual não conhece nenhuma das regras, Angel.
Eu não estava preparada para o retorno daquela última palavra. Nem
para o braço musculoso que rodeou minha cintura e me puxou para ele.
— Alfonso... — O primeiro nome dele saiu dos meus lábios como um reflexo.
— Case-se comigo, Anahi. — Ele segurou meu queixo — Torne-se minha e salvará sua irmã da dívida de um milhão de libras.
Uma hora depois, eu já estava em casa. Vestida para dormir e com uma xícara de café nas mãos. Uma segunda xícara, na verdade, e com mais café
frio dentro dela.
Encolhida no sofá da sala, eu olhei para o terno de Alfonso no encosto da minha poltrona. Isso era a única prova de que nada daquilo havia sido um delírio. Alfonso Herrera tinha realmente me trazido em casa, dentro do seu
Bentley preto com um chofer. Ele havia insistido para que eu ficasse com o terno caro. E tinha me pedido em casamento.
Torne-se minha e salvará sua irmã da dívida de um milhão de libras.
Depois daquelas palavras, nada mais pareceu reconectar os fios da
minha razão.
Alfonso não explicara muito. As explicações viriam se eu aceitasse sua proposta, assegurou. Então apenas dissera que seria um casamento de conveniência. Uma formalidade assinada pelos próximos três meses. E que eu tinha mais quatro dias para pensar na proposta dele e então dar um parecer.
Tinha sido tudo muito lacônico e nada romântico para um pedido de casamento.
— Você está desperdiçando café.
Dulce, a modelo ruiva e que era amiga da minha irmã, mas que surpreendentemente vinha sendo uma amiga para mim também, surgiu na
sala com sua própria xícara.
— Acho que nem o café conseguirá reconectar minha mente com a realidade.
— Suspirei.
Em seguida, descansei a xícara na mesa de centro rústica.
— Isso é porque você é romântica demais, Any.
— Eu? — Olhei-a, incrédula.
Eu me considerava uma pessoa profundamente realista.
— Sim. — Dulce se sentou elegantemente ao meu lado — Você está vendo as coisas pelo lado romântico. O que Alfonso Herrera te propôs foi
um casamento de conveniência. Algo simples.
Algo simples? Casar-me com um homem que eu conhecia há menos de uma semana? No meu mundo, aquilo passava longe do simples e esbarrava muito na insanidade total.
— Isso é comum para homens como ele.
— Está falando sério?
Dulce assentiu com a cabeça, tranquilamente.
— Eu mesma já recebi alguns pedidos desse tipo.
Agora, aquilo era novidade.
— Então, isso é algo corriqueiro no mundo dos bilionários? — Não
consegui esconder a surpresa na minha voz.
Ela riu.
— Muito mais do que você possa imaginar. — Dulce bebericou seu café
sem açúcar — Mas preciso admitir que você está com sorte. Homens do nível
de Alfonso fazendo esse tipo de proposta já se torna algo raro.
— Do nível de Alfonso?
— Sim. Jovens e capazes de causarem inveja em deuses gregos.
Não consegui conter uma gargalhada. Ao menos aquilo me relaxou.
— Você sai ganhando duas vezes. Salva sua irmã e ganha um marido
invejável. Um bilionário inglês — Dulce prosseguiu, ainda com um sorriso
nos lábios — Não vejo o que há de errado nessa proposta. É praticamente uma graça vinda direta dos céus.
Sim. Dulce poderia estar certa.
Mas então, por que algo me deixava profundamente receosa? Como se
eu estivesse prestes a ser presa em uma armadilha arriscada?
No fundo, eu suspeitava do motivo. Era ele.
Alfonso Herrera parecia perigoso. Nocivo. Ele precisara apenas de um
toque para trazer à tona uma parte de mim que até então eu tentava ignorar
veementemente. Uma parte cheia de desejos secretos que eu nunca assumira.
Simplesmente pelo medo de ser condenada.
Como já tinha sido...
O que Alfonso poderia arrancar de mim, se eu entrasse naquele jogo?
Pior, eu poderia sair ilesa daquilo, ao final de tudo?
— De qualquer forma, serão apenas três meses.
—Na Inglaterra
—complementei.
— O que torna tudo ainda melhor. — Dulce descansou sua xícara vazia
ao lado da minha e se acomodou ainda mais no sofá — Se eu fosse você,
pensaria nisso como uma espécie de férias internacionais. Quem não gostaria
de uma viagem maravilhosa à Inglaterra? Passear em Londres?
Quanto a isso, ela tinha razão. Londres era magnífica. Eu tinha estado na
cidade com Giovanna algumas vezes e gostara de cada coisa que tinha visto.
Gostava de andar pelas ruas e pensar em toda a história de séculos que o lugar carregava. Como uma aficionada por História, eu tinha visitado vários
museus e locais marcantes.
Londres realmente não seria o problema. Nem a Inglaterra. Eu sempre
encontraria o que fazer.
Mas e durante as noites com seu marido de conveniência?
De repente, a expectativa de noites com Alfonso Herrera fez o meu sangue correr mais rápido nas veias. As sensações que suas mãos
despertaram em mim ainda estavam bem vivas. Assim como aquela cena
erótica na cama dele, com aqueles olhos verdes famintos sobre o meu corpo.
Ele tinha sido o único homem que me olhou daquela maneira. Como se tudo em mim o agradasse, o atraísse.
Mas Alfonso não falara sobre sexo durante a nossa volta até o meu apartamento. Ele falara sobre outros benefícios. Algo a ver com dinheiro após o nosso divórcio, mas eu não estava me concentrando bem naquele momento.
Talvez ele não esperasse sexo de mim.
Mordi os lábios. Não sabia se desejava ou não aquela opção.
— Se eu fosse você, aceitaria logo a proposta do Herrera — A voz de Dulce me tirou do transe. Ela tinha uma revista no colo agora — Esses
homens são imprevisíveis. E se ele mudar de ideia, Giovanna estará arruinada.
Não respondi.
Eu tinha perfeita noção das vantagens de Giovanna naquele acordo. Mas, no
momento, não estava pensando nelas. Pela primeira vez, eu estava pensando nas minhas próprias vantagens. E quanto mais pensava, mais tentadora ficava a insana proposta de Alfonso.
Minha irmã tinha me acusado de não ser espontânea.
Meu ex-namorado ficara envergonhado de mim e terminara nosso relacionamento.
Talvez eu pudesse usar Alfonso Herrera como um belo tapa de luva de pelica contra os dois. Quase uma redenção, depois de tanto tempo me escondendo nas sombras. Restava saber se eu teria coragem para tal atitude.
Ou se, ao menos, haveria chance de essa coragem chegar, de forma
instantânea, durante os próximos quatro dias.
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Algemas de Diamante.
RomanceSinopse: Anahi e Giovanna são irmãs gêmeas. Idênticas na aparência e diferentes na alma. Anahi sempre muito correta e doce. Giovanna caprichosa e ambiciosa. E por serem tão diferentes Anahi poderá pagar um preço muito caro por causa das ambições de...
