Alfonso
Com a condição frágil de sua avó, se não agir rápido, eu não poderei garantir nada, senhor Herrera.
Christian, meu advogado, parecia estupidamente lacônico na maldita ligação.
Não me despedi. Apenas desliguei o telefone, fervendo de ira.
Como aquela maldita mulher tinha conseguido? Depois de tantos anos e depois dos acordos de milhares de libras que nos extorquiu, ela não estava satisfeita. Não. Tinha apenas esperado o momento mais oportuno para agir.
Para conseguir nos tirar mais dinheiro.
— Inferno!
Cerrei os punhos sobre a mesa de reunião e me levantei da poltrona de
couro sintético preto. Então caminhei até a ampla vidraça com uma vista impecável do início da noite em Cancún.
Os últimos quatro dias pareciam um pesadelo sem fim.
O desfile de aniversário mal-acabado tinha sido um escândalo na mídia,
mas eu tinha conseguido esconder o desaparecimento da joia. No entanto, o
desastre do evento comemorativo chegara até minha avó, nas Ilhas Britânicas.
E eu nem me permitia pensar que aquilo pudesse, de alguma forma, ter
influenciado no estado em que ela se encontrava agora.
— Você acha mesmo que um infarto iria me derrubar com facilidade?
— Ela dissera ao telefone com voz animada, mas fraca — Eu já me sinto forte como um touro novamente.
Quis voltar para a Inglaterra de imediato, mas havia o problema do maldito colar. E agora havia um problema novo: a guarda de Maite, minha irmã, estava correndo sérios riscos de ser arrancada de nós por uma maldita
interesseira.
Os problemas eram tantos que, pela primeira vez, eu não sabia por onde
começar.
— Se você pudesse oferecer mais estabilidade,Herrera, a
justiça, sem dúvida, ficaria ao seu lado — Christian pontuara na noite anterior.
Eu estava analisando as projeções do mercado inglês de ações, para efetivar alguns investimentos, quando fiquei estático:
— Estabilidade?
— Uma esposa — Christian dissera com tranquilidade — Você viaja muito para realizar seus negócios,Herrera. A justiça se preocupa com essa lacuna em especial. Quem cuidaria de Maite em sua ausência,
agora que sua avó não se encontra em condições?
— Não pretendo me casar,Christian.
— falei firme.
— Considere ao menos uma união temporária. Algo para os próximos três meses e enquanto a mãe de Maite move essa ação pela guarda.
Consiga uma mulher prática, faça um acordo pré-nupcial, e estou certo de que
não será um problema.
— Isso é um assunto incontestável para mim — quase rosnei ao celular.
— Seria o caminho mais fácil e garantido...
— Então trate de conseguir outro caminho, Christian. E me garanta sucesso. Porque é para isso que pago seus honorários caros.
O resto da noite havia se perdido em uma espécie de limbo depois daquilo.
Minha vida sempre tão controlada estava saindo completamente dos
trilhos, sem que eu pudesse impedir. Tudo parecia estar desmoronando, mas ainda assim...
Ainda assim, quando me deitei na cama na noite anterior e a fragrância
floral dominou meus sentidos, tudo em que pude pensar foi nela. Na forma
como aquele corpo espetacular esteve sob meu completo domínio. Na forma
como aqueles olhos azuis inteligentes brilhavam pelo prazer que eu despertava nela.
Com um suspiro exausto, apoiei uma das mãos na vidraça enquanto
girava o pulso oposto para verificar as horas em meu rolex.
Ao menos, aquele problema, eu resolveria em trinta minutos.
Eu não tinha qualquer receio de que os diamantes da minha avó seriam
encontrados tão logo a polícia fosse acionada. Não era o tipo de joia que se
pudesse vender ou trocar facilmente.
Giovanna Portilla não teria qualquer chance de se esconder.
Mas eu tinha prometido à Anahi Portilla quatro dias. E por mais que eu evitasse pensar sobre o fato, aquele gesto tinha sido uma generosidade nada característica minha.
Porque eu o tinha feito, ainda era um mistério.
Fora alguma coisa impelida por aquela atitude leal dela. A atitude de defender a família e não se abalar ao fazê-lo.
Mesmo relutantemente, eu tinha admirado aquela postura. O que não
aplacava em nada as desconfianças que eu ainda nutria sobre a garota. Não a
conhecia. E ainda existia a possibilidade de toda aquela situação do desfile ter
sido armada pelas duas irmãs.
Se a libido não tivesse me cegado quando Anahi se sentou ao meu lado...
Não. Anahi fizera mais do que me cegar. Ela deturpara o meu juízo em minutos. Primeiro com a ousadia de se sentar ao meu lado e ainda me dispensar. Depois com aquela beleza impressionante e aquele flerte direto.
Com a forma como ela aceitara minhas investidas rudes, como se desejasse
isso tanto quanto eu.
Aquela mulher atraía para fora uma parte muito perigosa de mim. Na
verdade, a parte que eu lutava para manter enterrada nos últimos sete anos.
Com Anahi, a minha inclinação tinha sido a menos civilizada e cuidadosa possível.
Exatamente por isso, eu devia tirá-la da minha vida o quanto antes.
Uma batida na porta me fez despertar do transe.
— Com licença, Senhor Herrera. — Minha secretária, Sílvia, abriu a porta e enfiou o rosto redondo na fresta — A senhorita Anahi Portilla
está aqui para vê-lo.
A simples menção em voz alta do nome daquela mulher fez a adrenalina
pulsar nas minhas veias.
Outro péssimo sinal.
— Faça com que ela entre, Silvia.
Silvia moveu positivamente a cabeça com os fios grisalhos. E surpreendentemente ágil, voltou a fechar a porta.
Assim que ela saiu, fui em direção ao pequeno bar raramente utilizado,
mas que era mantido ali. Servi uma dose rasa de Scotch. Não considerava
adequado beber enquanto estava no escritório, mas naquela noite era uma
necessidade.Aquela pequena feiticeira me deixava instável. Acreditei que um pouco do bom e velho uísque escocês seria o suficiente para me manter afastado de
qualquer encanto que ela pudesse me lançar outra vez.
Com isso em mente e o álcool queimando a minha garganta, coloquei o
copo vazio sobre o aparador de vidro e esperei.
Nada.
Caminhei para perto da janela, tirei meu terno Fioravanti, descansando-o no encosto de uma das poltronas, e tentei me concentrar em cada palavra
que seria dita nos próximos e escassos minutos.
Nada.
Diabos, onde estava a mulher?
Irritado e cansado dos últimos dias, onde nada parecia seguir seu curso
natural, deixei a sala de reuniões.
— Sílvia? — inquiri enquanto avançava no corredor claro.
Mas quando dobrei a esquina, encontrei-a praticamente nos braços da
senhorita Portilla.
— Ah, querida, está tudo bem — minha secretária falava enquanto recebia um copo com água. — Foi apenas um tropeço, eu não me machuquei.
— A senhora devia tomar cuidado, ao andar nesse mármore liso.
A senhorita Portilla estava concentrada e ligeiramente curvada sobre a
mesa da minha secretária, de uma forma que me ofereceu uma visão magnífica do seu traseiro perfeito em uma calça jeans surrada. Seu longo cabelo castanho mel estava preso em um rabo de cavalo que tocava sua cintura fina.
Por um segundo, a visão da minha mão se enrolando naquele cabelo e
puxando-a enquanto a tomava por trás foi a única coisa na minha mente.
— Eu sinto muito por ter molhado a sua blusa, senhorita.
— Ora, não se preocupe com isso — Anahi disse com gentileza
—O importante é que a senhora não se machucou. Não é preciso ficar nervosa
por uma bobagem dessas.
Ela se curvou mais um pouco, e a reação do meu corpo foi ridiculamente consciente.
— Senhorita Portilla — pronunciei, sério.
Ela se empertigou no mesmo momento. Mas quando se virou, desejei não a ter chamado.
Ela usava uma blusa branca de algum tecido frágil demais para resistir à água, de forma que a parte esquerda do busto estava praticamente
transparente.
Meu olhar foi incisivo e nada discreto. Ela levou apenas um segundo para tomar consciência e cruzar os braços.
— S-Senhor Herrera — gaguejou com voz trêmula e atraente.
Foi o suficiente.
Toda a minha concentração para aquele momento se foi com o piscar constrangido daqueles olhos misteriosos.
E lá estávamos nós.
De volta ao início.
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Algemas de Diamante.
RomanceSinopse: Anahi e Giovanna são irmãs gêmeas. Idênticas na aparência e diferentes na alma. Anahi sempre muito correta e doce. Giovanna caprichosa e ambiciosa. E por serem tão diferentes Anahi poderá pagar um preço muito caro por causa das ambições de...
