Capítulo 9

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Anahi

Londres estava em um típico fim de tarde de verão.
Entretanto, dentro do Lykan prateado de Alfonso, tudo era diferente. O clima lembrava mais uma estação fria e nebulosa de meados de fevereiro.
Senti minhas costas colarem ao banco quando descemos pela Park Lane.
À direita, o Hyde Park, em suas exuberantes cores da estação, me fez pensar em todos os romances de época da Julia Quinn que eu já havia lido.
O que, em seguida, me fez considerar o meu próprio caso de paixão
tórrida frustrada e no homem ao meu lado.
Vestido com roupas casuais, Alfonso concentrava-se na direção sem
deixar espaço para mais nada.
Nós não tínhamos conversado muito depois daquela desastrosa noite de
núpcias. Durante o voo longo, Alfonso estivera concentrado em trabalhar. E mesmo sentado diante de mim em seu jato particular, tinha me dirigido poucas e breves palavras.
Assim que posamos em Londres, na noite anterior, fomos para um hotel
de luxo no centro da cidade, mas as coisas não melhoraram. Alfonso fez
questão de reservar suítes separadas para nós, passando uma mensagem clara:
nossa diversão entre os lençóis tinha acabado.
Era bem feito para mim. Eu devia ter aceitado o maldito divórcio quando ele o oferecera. Estaria livre de tudo aquilo. Mas não tinha feito. E por quê? Simplesmente por orgulho ferido pela rejeição dele. Uma rejeição que, eu sabia, não tardaria a acontecer. Já havia sido um milagre um homem como Alfonso se interessar por mim. Eu não devia ter tido “Grandes
Esperanças”, como nas palavras de Charles Dickens.
Eu nunca me envolvi com virgens, Angel. Apenas as mulheres experientes me agradam.
As palavras dele voltaram com amargor.
Eu não tinha agradado a ele, era óbvio.
Mas, para mim, havia sido justamente o contrário. Alfonso tinha atendido
aos meus desejos mais profundos, mesmo antes que eu tivesse coragem de
externá-los em palavras. Para mim, a conexão tinha sido intensa. Como se nossos corpos fossem feitos de matérias semelhantes que se atraíam e se reconheciam como uma só. Tudo tinha sido tão natural que chegara a ser assustador.
Na verdade, ainda era.
— Você está muito quieta. O movimento do carro a deixou enjoada?
Quase saltei no banco ao ouvir a voz profunda dele. Mas consegui controlar a reação a tempo. Diferente do arrepio que se espalhou pela minha pele.
— Você dirige muito rápido. — Olhei-o.
Alfonso continuou com os olhos na estrada sinuosa cercada por árvores.
Mas diminuiu a velocidade drasticamente.
Em seguida, ele suspirou, apertando mais as mãos no volante.
— Temos de conversar.
— Sobre não transarmos mais? — falei, direta.
Depois de dois dias, qualquer vestígio de bom humor e bom senso parecia ter me abandonado. Aquela atração constante e sem perspectiva de desfecho dentro do carro fechado também não ajudava.
— Acredito já ter deixado isso bem claro.— Ele me dirigiu um olhar rápido e firme
— Conseguiu falar com a sua irmã?
A mudança abrupta de assunto me pegou de surpresa.
— Não — admiti.
E tinha tentado com muito afinco, nos últimos dias. Mas o número dela ainda se encontrava fora da área de cobertura.
— Ela já fez isso antes, sua irmã?
O interesse repentino de Alfonso fez uma pontada aguda surgir no meu
peito.
Não cometa a burrice de ter ciúmes de algo que nunca poderá ser seu,
Anahi.
Aconselhei a mim mesma, com raiva.
Alfonso já tinha salientado que não era homem para mim. E eu iria aceitar
logo aquilo. Como uma pessoa adulta e sem pontadas ridículas no meu
orgulho ou no meu coração.
— Certa vez, ela desapareceu três meses. Sem levar um colar de um milhão de libras, é claro. Ela ficou em uma ilha com um bilionário grego —
revelei, a contragosto. — Dennys Angelaki. Mas eles brigaram depois disso,
e ele também não parece acessível no momento.
Ele pareceu absorver minhas palavras, mas não disse nada. Quando finalmente falou, fez minha cabeça girar novamente.
— Nós vamos precisar de uma história.
— O quê? — indaguei, sem entender.
— Para Yolanda. Minha avó. — Os nós dos dedos dele empalideceram
apertando o volante. — Ela é bastante tradicionalista. Então, acredita que
nosso casamento foi por amor.
Levei alguns segundos para registrar onde ele pretendia chegar.
— Está dizendo que temos que parecer...
— Apaixonados — ele atalhou — Sim.
— Por três meses? — Olhei-o, chocada.
Os músculos por baixo da camisa polo dele se retesaram por alguns
instantes.
— Não serão por três meses — disse por fim, sem se dignar a me olhar
— Ontem reuni meus advogados e eles me trouxeram boas notícias. A
audiência da qual preciso será antecipada para o final de julho — Alfonso fez
uma pausa e então sua voz emendou friamente: — Nessa perspectiva, nosso
divórcio poderá sair no final de quatro semanas.
Foi como levar um soco no estômago. E, como no caso, perdi o ar por alguns segundos.
O tom dele não deixava dúvidas. Alfonso já tinha decidido se livrar de
mim e tinha planejado fazê-lo o mais depressa possível.
De repente, lágrimas idiotas ficaram presas como um bolo na minha garganta. Pior, uma delas escapou e correu pela minha bochecha esquerda.
Não consegui fazer outra coisa, senão virar o rosto na direção da janela para
esconder-me depressa.
— Acredito não ter dito ainda os motivos jurídicos que me fizeram casar por conveniência — Alfonso recomeçou, alheio ao que se passava comigo.
Ele simplesmente não se importava com nada. Era um homem frio e calculista. Preocupado apenas com o que poderia subtrair de alguém para conseguir seus objetivos.
Como eu podia ter me deixado levar? Como podia tê-lo deixado abrir
uma fresta no meu emocional em tão pouco tempo, a ponto de me ferir?
Chega, Anahi.
Eu nunca tinha sido esse tipo de garota. Chorando pelos cantos e deixando os sentimentos por um homem que não tinha coração me arrasarem.
Passei a costa da mão pelo rosto, limpando a lágrima, e reuni minha dignidade. Se Alfonso poderia agir com frieza extrema naquela situação, eu também poderia.
— Não acho que isso importa mais — tentei parecer tão fria quanto ele.
Deve ter funcionado, porque senti quando ele se virou para me observar
rapidamente.
— Está aborrecida?
— Não. — Cruzei minhas mãos sobre o colo e olhei para a estrada à
nossa frente, que seguia para Hampshire. Então adotei o tom que costumava
usar com clientes de Giovanna:
— O que mais preciso saber, senhor Herrera?
— Senhor Herrera?
— Sim. Acho que seria melhor que voltássemos à forma antiga de tratamento, quando estivermos a sós
— apontei
— Se nós vamos fingir que
estamos apaixonados, em público, isso vai ajudar a separar as coisas de forma
mais evidente. Assim evitaremos qualquer confusão no futuro.
Fez-se um instante de silêncio.
Eu tinha questionado Alfonso sobre me tocar, há algumas horas, e agora
agia como se estivesse em uma reunião de negócios. Parecia bizarro. No
entanto, era a forma que eu tinha encontrado de me proteger. E eu precisava
desesperadamente me proteger daquele homem.
— Tem razão, senhorita Portilla.
Uma pontada de decepção tentou me atingir, mas me esquivei dela com
rapidez.
— Quanto à nossa história — falei, voltando ao começo — Acredito que
possamos nos ater à verdade. Nós nos conhecemos em uma festa. É claro,
sem mencionar o... — Então pensei no roubo — O quanto sua avó sabe sobre o...?
— Ela não sabe — Alfonso terminou — O colar é especial para ela e
decidi poupá-la da tristeza, até encontrar a joia.
A informação me pegou de surpresa.
— Giovanna irá devolvê-la — prometi com pesar.
— É claro que irá. Não existe outra possibilidade — ele garantiu, num
tom baixo e firme — Mas por falar em joias, abra o porta-luvas. Tenho algo
para você, senhorita Portilla.
Alfonso me dirigiu um olhar, instigando-me.
Sem compreender bem, fiz o que ele instruíra e encontrei uma pequena
caixinha preta de veludo. Abri-a e encontrei um belo anel de ouro. Sobre seu
arco, uma esmeralda bem lapidada e rodeada por diamantes delicados.
— Seu anel de noivado — Alfonso explicou.
Continuei olhando a joia, aturdida por sua beleza, mas sem compreender.
— Mas nós já nos casamos.
— Sim. Mas Yolanda achará estranho se não ver o anel de noivado da família em seu dedo.
Quase me engasguei.
— Isso é uma joia antiga de família?
Ele assentiu.
— Há três gerações, precisamente.
Fechei a caixinha de imediato.
— Eu não posso aceitar usar algo assim. Tem muito valor.
— É o anel menos valioso da nossa joalheria — Alfonso rebateu serenamente.
— Não, não é — falei, nervosa. — Ele é um legado de família. Uma
herança sincera. Isso já é demais.
Ele apenas suspirou, nada abalado pelo meu discurso moralista.
— Você não tem escolha, Angel. Esse anel precisa estar no seu dedo.
— Não, eu...
Mas o olhar dele prendeu o meu e levou minhas palavras.
— Anahi, você é a mulher que eu amo e que escolhi para passar a minha vida. Para sempre. — Todo o ar deixou os meus pulmões por vários instantes — É essa a mensagem que esse anel passará para Yolanda e para
qualquer pessoa. E é o que precisamos.
Ainda assim, eu apenas conseguia menear a cabeça em sinal negativo.
Como ele podia simplesmente não se importar em mentir para a própria avó? Naturalmente, alguém que devia amá-lo muito... Nós nem tínhamos
chegado à casa e eu já me sentia o tipo de criatura mais desprezível.
— Não posso mentir assim... — balbuciei.
De repente, o Lykan deslizou pelo asfalto e se virou bruscamente.
Precisei me agarrar ao banco quando paramos com um solavanco no
acostamento da autoestrada.
Alfonso então desafivelou seu cinto e tirou o anel das minhas mãos.
— Dê-me a sua mão direita.
Não me movi. Mas isso não o impediu.
Alfonso segurou minha mão, e com uma delicadeza que ainda não demonstrara, deslizou a joia pelo meu dedo anelar.
— Você é a minha esposa, senhorita Portilla. — O verde
do seu olhar
dominou toda a minha atenção. — Nas próximas semanas, será Anahi Herrera, para todos os efeitos. Este anel só tem um lugar, Angel.
E para a minha surpresa, Alfonso se curvou e deixou um beijo na joia.
Seus lábios quentes rasparam de leve a minha pele.
Depois, com a sua usual economia elegante de movimentos, Alfonso
voltou ao seu estado frio. Ele reposicionou seu cinto e colocou o carro de
volta na estrada, dirigindo com a mesma concentração de antes.
Olhei para o perfil distinto de Alfonso e depois voltei a fitar a joia no meu dedo. Seu peso estava também na minha consciência, mas não era isso que fazia desabrochar uma agonia sem tamanho no meu peito.
Era a intuição estranha de que aquela joia seria ainda mais trabalhosa
para ser tirada dali do que fora para ser colocada.
Alfonso tinha me dito que a mansão de sua avó era algo de gosto duvidoso. Reformada pelo avô dele, Edward Herrera, quando este
descobrira as minas de diamantes nas terras da família, com o intuito
exclusivo de expor sua riqueza e poder.
Mas não foi nada duvidoso o encanto que senti pela construção em estilo
georgiano, com muros cobertos por heras e um imponente portão de grades
escuras, timbrado com o que parecia ser o brasão da família.
— Bem-vinda à Blackwood Park. — Alfonso disse quando passamos pelos seguranças no portão.
— É linda — elogiei, enquanto admirava o parque que cercava a
propriedade. Havia até mesmo um lago, ao longe — E muito inglesa. Quase
como Pemberley.
A última parte havia escapado, e quando me virei, envergonhada, fiquei
surpresa com o sorriso simbólico que encontrei nos lábios dele.
— Não sou nenhum Darcy, senhorita Portilla — garantiu — Isso é apenas fruto do estilo antiquado do velho Herrera.
— Não há nada errado com o estilo antiquado. Eu gosto — rebati.
— A senhorita se dará muito bem com Yolanda, então.
O resto do trajeto foi feito em silêncio.
Eu não queria parecer tão deslumbrada, mas era difícil evitar observar tudo com atenção. Em toda a minha vida, e apesar de todas as viagens que
havia feito com Giovanna, eu nunca havia estado em um lugar como aquele.
Quando o carro finalmente parou diante dos degraus de mármore da
entrada, eu precisei respirar fundo.
Apesar de estar bastante acostumada a lidar com a alta sociedade
paulista, ali parecia um mundo diferente.
— Relaxe, senhorita Portilla — Alfonso me orientou depois de abrir a
minha porta como um polido lorde inglês. Então seus olhos passaram pelo
meu conjuntinho social polido — Eu devia tê-la levado para fazer compras
em Londres.
Senti-me ofendida de imediato. Mas não tive tempo de começar uma
discussão, porque escutei latidos. Muitos deles. E pareciam estar vindo do
alto da bela escadaria.
— Está na hora — Alfonso disse.
De repente, seus braços me ergueram do chão e ele me segurou junto ao peito.
— O que está fazendo?
Alfonso apenas sorriu, sarcástico, com o rosto perigosamente perto do
meu.
— Começando o nosso conto de fadas, Angel.
E sem qualquer aviso, ele deixou a cabeça tombar e me beijou.
— Alfonso Herrera! Onde estão seus modos?
A voz feminina autoritária adentrou na névoa de paixão que nos envolvia. Alfonso ainda demorou a me soltar, e mesmo depois que seus lábios se afastaram completamente, seu olhar ainda preso ao meu.
Dois dias sem o toque dele pareciam ter piorado a situação. Tudo tinha
sido mais intenso e meu coração batia com força contra a minha caixa
torácica. E graças às minhas mãos espalmadas no peito quente de Alfonso, eu
podia ter certeza de que não estava sentindo tudo aquilo sozinha. O coração
dele também parecia um lutador cheio de adrenalina.
— Que tal parar de amassar sua esposa e deixar-me conhecê-la?
Ele finalmente me colocou no chão. Mas seus olhos continuaram nos meus.
— Yolanda — Alfonso respirou fundo e finalmente me libertou do seu
olhar — Essa é Anahi, minha esposa.
Virei-me e, acima de nós, no degrau de mármore, encontrei um olhar
Verde oliva. Muito semelhante ao de Alfonso, mas emoldurados por um rosto fino. Os cabelos loiros, de um tom platinado elegante, eram curtos,
exatamente na altura da nuca, e apenas uma onda perfeitamente penteada
cobria a testa. Sua roupa se resumia a um vestido branco impecável.
Com uma mão tendo um único anel valioso, Yolanda Herrera firmou no chão a bengala escura que segurava. E, finalmente, seu olhar caiu sobre o meu corpo e minhas roupas. Por um momento, pensei estar vivendo uma cena de “O Diabo veste Prada” sob o olhar julgador de Meryl Streep.
— Anahi, está é Yolanda Herrera — Ele se aproximou e beijou a na testa — Em geral, sua majestade, mas conhecida também como minha avó.
Não soube o que me deixou mais paralisada. O olhar perscrutador da
avó de Alfonso ou o súbito bom humor e carinho demonstrado por ele.
— M-muito prazer, senhora — falei em inglês e atrasada, quando Alfonso se afastou dela.
Quando estendi minha mão, entretanto, os latidos que eu tinha ouvido
antes retornaram. Logo, dois Setter Irlandeses, seguidos por um Cocker
Spaniel, desceram correndo pela escada, esbarrando um nos outros e fazendo
uma algazarra digna de nota. Com eles, vinha também uma garotinha que não devia ter mais de sete
anos. Ela tinha cabelo e olhos castanhos. Vestida num belo vestido azul de
verão, ela sorriu, e quando estava próxima de nós, simplesmente saltou os
últimos dois degraus.
Alfonso a pegou no ar com uma naturalidade incrível.
E riu. Como eu nunca tinha visto antes.
Então, todo aquele peso constante em seu olhar desapareceu. Não havia
mais marca alguma de autoritarismo ou arrogância. Nada daquela agonia que
eu tinha visto em seu semblante em nossa última noite no México.
— Minha garotinha! — Ele a abraçou.
A menina o abraçou de volta, envolvendo seu pescoço. Em seguida,afastou-se e colocou a mão sobre o coração dele. Alfonso devolveu a reação,
espalmando com delicadeza a mão no peito dela. Depois gesticulou em língua de sinais, enquanto a emoção me pegava completamente desprevenida
diante da cena.
— Sim, Maite. — Ele colocou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha, cheio de adoração — Meu coração está em casa.
Tudo ficou fora do lugar. Por um longo tempo, e mesmo depois que os
olhos castanhos da menina pousaram no meu rosto. Ela se virou de volta para
Alfonso de imediato, e na língua de sinais, fez uma pergunta.
Alfonso riu e a colocou no chão.
— Não, Maite. Ela não é uma nova babá monstruosa — ele explicou na linguagem dela — É a minha esposa, Anahi. Anahi, essa é minha
irmã, Maite.
Ela não escondeu sua desconfiança ao me olhar.
Ainda assim, tentei abrir meu melhor sorriso como apresentação. Por
sorte, Yolanda Herrera voltou a liderar a conversa.
— Bem, acredito que seja melhor entrarmos. Sol de verão em excesso
não vai me fazer bem.
— O que não faz bem são esses saltos — Alfonso repreendeu — Devia
estar descansando, Yolanda, não usando sapatos que são armadilhas mortais.
— Querido — Yolanda aproximou-se de Alfonso e então me surpreendeu
quando acertou o cotovelo dele com a bengala. Ele soltou um “au” bastante
sincero —, uma mulher da minha estirpe jamais toca o chão.
Não resisti a rir. Mas me arrependi quando os olhos verdes inquisidores
pousaram em mim.
Uma mão de Alfonso veio ao meu socorro e seus dedos entrelaçaram-se
inesperadamente nos meus. Seu polegar acariciou a minha pele, e quando
olhei para o seu rosto, Alfonso tinha um sorriso que me fez perder o fôlego.
Que os céus me ajudassem, porque ele era um exímio ator.
— Vamos entrar — ele emitiu e deixou seu olhar sobre mim. Então se virou para a irmã e estendeu a outra mão livre — Eu trouxe presente para todas as mulheres da minha vida.
Maite balançou a mão dele, animada, e começou a puxar todos nós para
subirmos os degraus. Mantendo um sorriso nervoso no rosto, e sem qualquer escolha, comecei a acompanhar a família de Alfonso.
— Por favor, Gwen, traga os pacotes que estão no meu porta-malas
—Alfonso solicitou a uma das empregadas que nos recebeu quando finalmente
chegamos à porta principal.
A mansão não deixava nada a desejar por dentro. Era deslumbrante.
Dois lances de escadas, cercados por um guarda-corpo de arcos
delicados pretos e um corrimão dourado como ouro se erguiam elegantemente do hall de entrada para o segundo andar. O mármore dos degraus era branco e cinza, assim como o chão do salão. Apenas alguns
detalhes amarelos quebravam o padrão, com sofisticação.
Ainda no hall do andar de baixo, havia um belo conjunto de estofados
azuis claros. Dispostos em frente de portas em arcos, sustentadas por pilastras
brancas como porcelana. A luz natural devia entrar por todos os cantos
através das amplas janelas e se refletir no lustre de cristal delicado que pendia
do centro do teto colossal.
Acabei dando um passo para trás, diante daquele mundo novo, e encontrei a mão de Alfonso como apoio na minha lombar.
— Está tudo bem — ele disse em tom apaziguador — A senhorita consegue sobreviver a isso.
Eu esperava que sim. Mas não devo ter conseguido disfarçar muito bem
o meu desconforto quando olhei para Alfonso, porque ele franziu o cenho,
aparentemente preocupado.
— Pedi que o chá fosse preparado e... — A avó de Alfonso começou a
falar enquanto nos guiava, mas ele a interrompeu.
— Desculpe, Yolanda. Mas Anahi precisa descansar um pouco.
Yolanda, que estava à nossa frente, virou-se lentamente. Fui vítima de
um novo olhar agudo, desta vez dos pés à cabeça.
Percebi na hora que a sugestão de Alfonso não me ajudaria em nada.
— É claro. — Foi tudo o que ela emitiu. Em seguida, estendeu a mão na
direção da irmã de Alfonso, que ainda se agarrava a ele — Venha, Maite.
Seu irmão te mostrará os presentes amanhã.
A menina pareceu relutar por alguns instantes, mas, no fim, obedeceu.
As duas sumiram, acompanhadas pela animação de dois cães, ao adentrar uma das dependências do mesmo andar.
— Acho que já comecei mal — lamentei e me abaixei para acariciar o Cocker Spaniel que permaneceu sentado, nos observando — Eu avisei que
não sabia atuar. Me desculpe.
O cachorro lambeu minha mão e balançou o rabinho, feliz.
— Lady — Alfonso chamou.
A cadelinha deixou-me de imediato e seguiu até ele. Ela sentou-se e esperou pacientemente pelo carinho de Alfonso.
— Lady? Como na animação da Disney? — Não consegui evitar sorrir.
— Foi Maite quem escolheu quando a me deu de presente de natal.
Lady continuou quietinha debaixo do carinho dele. Foi conflitante ver
aquela imagem tão afetuosa e doméstica no mesmo homem que havia sido
tão rigoroso antes.
— Então, ela é sua?
Ele acenou brevemente com a cabeça. Depois deixou de afagar Lady e
se voltou para mim.
— Não se preocupe. Yolanda gostou da senhorita — ele afirmou — E já acreditou em nós.
— Como pode saber...
Mas antes que eu terminasse a frase, a empregada de cabelos caramelos,
que tinha surgido na porta quando chegamos, parou novamente diante de nós.
— Sua avó pediu para avisar que o quarto do casal está pronto.
Alfonso agradeceu e a mulher se retirou em seguida.
— É por isso que eu sei. — Ele me enlaçou pela cintura e sorriu
—Agora, que tal irmos para o nosso quarto, Angel?

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