Capítulo 14

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Anahi

A frase dele me pegou tão desprevenida quanto a sua presença.
Eu não tinha descido até a cozinha com o intuito de me preocupar com o
que Alfonso iria comer. Não depois de quase uma semana e meia sendo ignorada após uma súplica tola pela amizade dele. Na verdade, eu tinha descido até a cozinha à procura de uma distração depois da mensagem de um número secreto pela manhã:

“Estou bem. Logo volto para casa. Te amo,Giovanna.”

Depois de dias de insônia e preocupação, era tudo o que minha irmã
tinha a me dizer. Sem notícias sobre o colar, sobre onde estava, ou ainda,sobre quando pretendia voltar. Era alívio e frustração ao mesmo tempo.
Decidi, então, aplacar a parte da frustração indo preparar alguma coisa.
Cozinhar era um ritual que me distraía quase sempre. Entretanto, enquanto cuidava do macarrão, meus pensamentos teimavam em voltar para Alfonso.
O que eu diria a ele? Como explicaria a falta de juízo da minha irmã?
Pior, como iria encarar aquelas pessoas as quais eu começava a gostar mais do que devia? No café da manhã, Yolanda tinha percebido a minha falta de apetite:
— Está tudo bem, querida? — ela havia perguntado, cheia de carinho.
Àquela altura, eu já sabia que toda aquela preocupação era sincera.
Diferente de Alfonso, que me prometera amizade, mas estivera mais frio do
que nunca durante todos aqueles dias, Yolanda tinha simplesmente me
presenteado com seu afeto honesto. Assim como Maite.
Nós três passávamos tardes agradáveis juntas. Maite estava me ensinando sua língua de sinais e a jogar Badminton. O meu sucesso com a
peteca beirava ao ridículo, mas eu adorava ver seu rostinho obstinado,
concentrado em me transformar em uma ótima jogadora.
Yolanda nos observava à sombra da sua mesa branca no jardim. Sempre
vestida de forma impecável e batendo palmas ocasionalmente, quando eu,
também ocasionalmente, acertava a bola. Depois nós tomávamos chá e
assistíamos alguma coisa. À noite, depois que Maite ia dormir, Yolanda me
contava as histórias da família. Principalmente as de seu amado Edward, que tinha escrito belas cartas de amor para ela enquanto enfrentavam os tempos sombrios da segunda guerra mundial.
Talvez tenha sido por causa de tudo aquilo, a estranha preocupação
súbita por Alfonso.
— É verdade, eu trouxe os pratos para a sobremesa. — Ele se aproximou da bancada onde eu me encostava e colocou uma caixa sobre o mármore.
Alfonso quase sorria. O que me deixou desconfiada.
— O que é isso? — inquiri, desligando o molho.
— Um presente — ele confirmou pausadamente. — Para ressarcir a
parte do acordo que deixei de cumprir em nossa última conversa.
Curiosidade sempre havia sido a minha fraqueza. Daquela vez não foi
diferente. Estiquei os braços e puxei a caixa para mim.
— São os pratos do antiquário! — soltei, deslumbrada, ao ver a flora australiana pintada a mão.
O olhei, boquiaberta.
— Percebi como gostou deles e considerei que fosse uma boa forma de
ressarci-la. Pela nossa última conversa e por esses últimos dias.
Apenas uma palavra ficou na minha mente. Ressarcir. Coisa que minha irmã não pretendia fazer tão cedo. A culpa foi mortificante e eu embrulhei os pratos de novo.
— Não posso aceitar isso, Alfonso. São muito caros. — Depois passei a
mão pelos cabelos, nervosa — Além disso, preciso contar algo a você. Uma coisa que provavelmente vai deixá-lo muito zangado e você terá toda razão,
porque Yolanda não merece isso e...
Mãos firmes seguraram meus ombros com delicadeza desconcertante.
— Está tudo bem, Anahi. Acalme-se.
Mas eu precisei me esforçar para não chorar ao olhar nos olhos dele.
— O que está acontecendo? Pode confiar em mim.
O tom de voz macio dele não ajudou. Eu me sentia cada vez pior, mas
não consegui mais esconder.
— Giovanna entrou em contato, Alfonso. Através de um número privado.
Mas ela não disse nada sobre devolver os diamantes ou quando voltará. Me
desculpe. Não queria fazer isso com a sua avó, me desculpe. Por favor.
No final, eu não tinha mais forças para manter as lágrimas longe dos
olhos.
— Está tudo bem, Angel. — Para a minha surpresa, depois de todos
aqueles dias com contato físico mínimo, Alfonso me apertou contra o seu
peito. — Eu não estou bravo. Está tudo bem.
Ele cheirava a colônia cara e sândalo, mas quando o pequeno momento
desesperador passou e eu me afastei, o olhar que ele lançava me deixou sem ação.
Alfonso parecia tão desnorteado quanto eu. Seu olhar estava carregado de
tensão, e quando ele sorriu, a expressão pareceu quase... Arrependida?
Entretanto, antes que eu tivesse chance ou coragem de perguntar o que estava
acontecendo, ele afastou-se de mim.
— Não se preocupe — ele disse no modo polido e sério de antes — Vou
deixá-la fazer sua refeição em paz.
Eu já tinha percebido que algo se desencaixara em Alfonso, há dias. Mas
não sabia se devia tomar aquilo como algo bom ou ruim. Ainda assim,
quando o vi dar meia-volta, não consegui me conter.
— Espere.
Ele parou, mas permaneceu de costas para mim.
— Fique — Eu não sabia por que ia confessar aquilo, mas ia —
Cozinhei para você também.
Alfonso não se moveu por um longo tempo.
Amaldiçoei-me por mais uma vez me colocar em uma posição tão
estúpida. Quantas vezes eu permitiria que Alfonso me rejeitasse? Quantas
mais? Ele já tinha deixado mais do que claro que eu não fazia o tipo dele.
Estava evidenciando seu desinteresse por mim todos os dias.
Percebi que, daquela vez, não seria diferente, quando ele encolheu os
ombros e suspirou. Preparei-me para vê-lo lançar-me uma resposta curta e desaparecer para dentro da casa. Mas Alfonso não fez isso.
Não.
Ele se virou devagar, fazendo meu coração retesar e em seguida acelerar
no peito. Então emitiu simplesmente:
— Tudo bem.
Comecei a retirar o molho de macarrão dos delicados pratinhos de
sobremesa com uma boa dose de culpa por ter os maculado daquela maneira.
— Deixe que eu cuide disso — Alfonso dobrou as mangas da camisa social e se colocou ao meu lado na pia — Você já cozinhou, a louça é minha.
Ele disse com tanta possessividade que não consegui evitar rir. Também não pude evitar pensar no meu pai. Ele usava quase o mesmo tom.
— Do que você está rindo? — Alfonso inquiriu, erguendo uma sobrancelha.
Nosso jantar tinha sido quase silencioso junto ao balcão elegante. Mas pela primeira vez, era um silencio confortável. Por isso, acabei cedendo à
curiosidade dele.
— Não é nada. Eu apenas estava me lembrando do meu pai.
—Investiguei os armários até encontrar algo para começar a secar a louça e
ajudá-lo. — Ele quase tinha ciúmes da louça depois do jantar.
Parei de secar a louça ao lado de Alfonso e me perdi em devaneios
aleatórios da minha infância. Quase a ponto de me assustar quando Alfonso voltou a falar.
— O que aconteceu com ele? — Alfonso também tinha parado de realizar
sua tarefa e me encarava com uma curiosidade que eu ainda não tinha visto
em seu rosto.
— O quê? — Tentei me ajustar.
— Seu pai — ele afrouxou mais a gravata já fora do lugar, sem qualquer
preocupação aparente de não molhar o tecido caro — Como você usou o
verbo no passado e nunca falou nada sobre a opinião deles em relação a tudo
isso que estamos fazendo, devo presumir que aconteceu algo.
Respirei fundo. Os anos já haviam passado, mas eu sabia que nunca
seria confortável falar sobre aquilo.
— Meu pai e minha mãe morreram em um acidente aéreo. Há quatro anos.
O pesar nos olhos dele foi sincero.
— Sinto muito.
Assenti, mas afastei o olhar do rosto dele e procurei me concentrar nos pratos.
— Eles eram pessoas incríveis, sabe? E não apenas porque adotaram
gêmeas perdidas — compartilhei. Pensar nas partes boas era o que sempre me fazia falar dos meus pais para qualquer pessoa. Acreditava ser a melhor maneira de honrar o amor e a memória deles — Eram pessoas como as que conhecemos sempre, mas que, às vezes, não costumamos prestar tanta atenção quanto elas merecem.
Ouvi o barulho da torneira e percebi que Alfonso tinha voltado ao trabalho.
— Como eles eram? — ele perguntou um instante depois, com
delicadeza.
Observei-o de esguelha e a serenidade dos seus movimentos me
alcançou, fazendo-me querer me aprofundar no assunto.
— Bem, eles eram pessoas que amavam o simples. E havia uma tranquilidade no ar quando estavam juntos. — Alfonso me entregou um garfo e eu o enxuguei — Era uma constância, e hoje sei que isso é raro entre os casais. Minha mãe, Isabella, era o tipo de pessoa que tem plaquinhas na
cozinha com inscrições como “As melhores pessoas são as que entram pelas
portas dos fundos” — Sorri para mim mesma ao recordar — Já meu pai,
Fernando, contava piadas péssimas nos churrascos de família e nos deixava
trançar seus cabelos longos com borboletas coloridas.
— Ele me parece um homem bom e corajoso — Alfonso disse após me
passar outro garfo.
— Sim, ele era. Ele contribuiu para o meu amor pela História e por
coisas antigas. Ele também era um grande apoiador dos nossos sonhos.
— Aposto que ele apoiaria seu sonho de ter um antiquário.
Parei meu trabalho e o encarei, assustada.
— O quê? Mas como...? — Eu nunca tinha contado aquilo para ninguém. Na verdade, aquilo era um sonho tão antigo que recusava admiti-lo
para mim mesma depois de tantos anos.
Alfonso deu de ombros e começou a lavar o prato com cuidado.
— Eu conheço um olhar empreendedor e vi como você estava olhando
para o lugar. Seus olhos tinham um brilho inconfundível enquanto analisava aquelas velharias em Poole. Como se amasse tudo. Como se desejasse que fosse seu.
Minha única reação diante daquelas palavras foi piscar, aturdida. Sem
qualquer coisa para dizer.
Então, ele realmente reparava em mim?
— Há muito tempo, eu tive mesmo esse sonho — confessei, forçando-me a parar de olhá-lo — Eu queria ter um antiquário. De preferência, perto da
praia de Cancún. — Falar aquilo em voz alta era estranho. Parecia
profundamente revelador, mas a tranquilidade de Alfonso ao me ouvir me
impelia a continuar. Como se fosse seguro simplesmente falar — Mas isso foi
antes da carreira de Giovanna estourar e ela precisar de mim.
Alfonso suspirou e me entregou o segundo prato.
— E então você deixou tudo de lado. Acabou estudando e se formando
para ajudá-la da melhor maneira possível.
— Você contratou algum detetive para espiar meu passado ou o fez você
mesmo, senhor Herrera? — Eu não sabia de onde tinha vindo aquela onda
súbita de intimidade e bom humor, mas fiquei feliz por tê-la abraçado.
Porque Alfonso riu. Pela primeira vez, de forma tão livre que minha
respiração ficou contida pela admiração daquele rosto.
Os traços sempre austeros tinham desaparecido, revelando quase um
novo homem. Quando ele deixou a gargalhada morrer em um sorriso simples e me olhou, havia uma emoção profunda em seu olhar.
— Não é preciso ser James Bond para saber que você tem um bom coração, Anahi. Que se preocupa com quem ama. Muitas vezes, mais do
que com você mesma.
Dei de ombros, quando ele me passou o prato.
— O amor pelas pessoas nos faz assim, não é?
Alfonso não disse nada enquanto eu enxugava o prato. Mas sentia seu
olhar sobre mim. Percebi que ele queria perguntar alguma coisa, por isso
coloquei o prato na caixa para lhe dar tempo.
Não queria que, depois de mais de uma semana, a nossa boa conversa
acabasse ali, mas não estava preparada para a pergunta dele.
— E você amou Rodrigo Marçal?
A resposta era óbvia. O que não impedia de sentir meus olhos se encherem de água.
Espalmei as mãos sobre o mármore frio e continuei de costas para Alfonso, tentando me aprumar antes.
— Desculpe. Isso não é da minha conta... — a voz dele soou a uma distância segura.
— Não — interrompi-o, respondendo — Não amei. Hoje sei disso.
Como eu poderia sentir algo de verdade por alguém que se envergonha da minha origem?
Afastando as humilhações do antigo relacionamento para longe, virei-me para Alfonso. Do outro lado da bancada, ele tinha as mãos no bolso, como
um garoto. Mas o olhar na minha direção era o de um homem atento e experiente.
Sua expressão tinha uma boa dose de confusão.
— Minha mãe biológica foi um problema para Rodrigo — comecei e o
imitei, enfiando as mãos no bolso do robe emprestado — A mulher que gerou
a mim e Giovanna era uma prostituta. Nós duas sempre soubemos disso, apesar de não falarmos muito no assunto.
Não tinha por quê. Nossa mãe biológica tinha nos entregado para adoção
aos cinco anos de idade. Mas, antes disso, não tinha feito muitos esforços para criar laços conosco — Nunca a julguei por isso e não era exatamente um segredo de estado.
— continuei com coragem, mesmo sem saber se toda aquela verdade também
não afetaria Alfonso, como afetou meu ex-namorado — Mas, de alguma forma, comecei a acreditar que não tocar nesse assunto estava me impedindo...
Travei por um instante. Entretanto, quando ergui os olhos do chão,
Alfonso não demonstrava qualquer repreensão em seu semblante. Nenhuma
linha de acusação.
Percebi que precisava terminar a confissão. Porque queria que ele
soubesse. Não porque desejava pena ou qualquer coisa assim dele, mas
porque queria que Alfonso se lembrasse de mim quando eu não estivesse mais ali. Nem que fosse por uma história idiota sobre um ex-namorado idiota.
— Pensei que estava me impedindo de ir para a cama com ele. Talvez
por saber que não gostaria de algo muito romântico, não sei — balancei a cabeça por instinto — Ele estava impaciente pelo meu receio de perder a virgindade, depois de tanto tempo de namoro. Mas eu ainda precisava de mais segurança. Sempre existiu uma pressão com relação ao meu corpo, por causa de Giovanna, mas Rodrigo também não deixava de me criticar constantemente
pelo que considerava meus... excessos. Mas quando contei sobre minha mãe
biológica para ele...
Fiz uma pausa, tentando não deixar as lágrimas se acumularem na minha
garganta.
— Como ele reagiu? — Alfonso quase rosnou.
Resolvi contar tudo de uma vez. Mas me virei de costas e me agarrei à
caixa de pratos, nervosa.
— Ele ficou horrorizado. Teve medo pela sua imagem. Ele garantiu que
a imprensa não tinha vasculhado o nosso passado, por Giovanna ser interessante
no presente, mas que se viesse a se casar comigo um dia, poderiam
desenterrar isso. Por eu ser tão sem graça, sabe? — Ergui os ombros com desleixo, como se aquilo dito por ele não houvesse me destruído — E seria uma mancha para a tão tradicional família dele.
Tentei dar um tom debochado à última frase, para esconder o quanto
tudo aquilo ainda me feria. Porém, falhei miseravelmente.
Patética. Era esse o subtítulo que seria gravado embaixo da minha imagem na mente de AlfonsoHerrera.
Eu devia ter deixado aquela maldita conversa terminar mais cedo.
— Vou guardar seus pratos — emiti, arrependida por ter seguido instintos tão tolos por causa de uma simples gargalhada livre.
No entanto, antes que eu erguesse a caixa, Alfonso a afastou das minhas
mãos. Um braço musculoso envolveu a minha cintura e sua mão livre me
segurou pela nuca.
Arfei.
— O que... Alfonso, o que você está fazendo?
As duas mãos dele deslizaram pela minha pele antes de ambas
segurarem meu rosto.
E então, seus lábios tomaram os meus. Sem aviso e com um ardor que alastrou chamas por cada uma das minhas terminações nervosas. Alfonso me deu exatamente o que eu precisava e sequer fazia ideia. Mas esse beijo não era diferente por isso.
Era a promessa do começo de algo novo, em cada toque dele, que tornou tudo único.
— Vamos corrigir sua primeira vez agora, Angel
— ele revelou quando
se afastou apenas um pouco. O suficiente para o verde profundo dos seus olhos me arrastar até um ponto sem volta. — Porque você merece muito mais do que teve até aqui.

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